terça-feira, 9 de abril de 2013

João Aguiar

A Voz dos Deuses

[excerto]

(Ilustração de Vasco Lopes para esta edição de A Voz dos Deuses)
 
III – ENDOVÉLICO
I
Um clamor feito de milhares de vozes ressoou pelas fragas do Monte no momento em que as chamas subiram na gigantesca pira.
       Em redor, centenas de outras fogueiras mais pequenas consumiam os restos dos sacrifícios – ovelhas, cabras, porcos e bois, rebanhos inteiros trazidos da planície ou das povoações serranas. O cavalo de Viriato fora imolado em primeiro lugar e deposto aos seus pés, com as armas, o escudo e o capacete.
       Nada mais podíamos fazer senão lamentar a nossa perda e manifestar ao espírito do Comandante, antes que ele se afastasse, a dor que a sua morte nos causara. Enquanto o fogo devorava as madeiras, o corpo e as oferendas, formámos em ordem de batalha e desfilámos à volta da pira, soltando os gritos rituais e os lamentos fúnebres que devem saudar um grande chefe. Porém, gritos e lamentos saíam do coração dos guerreiros, não eram o simples cumprimento de um dever. Nenhum rei ibérico teve do seu povo a homenagem que a hoste lusitana e os habitantes do Monte da Deusa prestaram a Viriato.
       A realeza que os deuses não lhe conferiram em vida foi-lhe reconhecida por nós todos naquele último adeus. Viriato não partiu só; nos jogos que se realizaram sobre o sepulcro que acolheu as suas cinzas, mais de duzentos guerreiros combateram até à morte, para que no Além ele tivesse a sua escolta, uma verdadeira guarda real.
[…]
Aguiar, João (1999). A Voz dos Deuses (21ª ed.).
Porto: Asa Editores. pp. 342-344.
 
 
Páginas Paralelas:
“Autobiografia de João Aguiar. Momentos de Não-Glória” – autobiografia escrita para o JL em 2005

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