sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Manuel António Pina, Excerto de "O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal", ilustrado por Inês do Carmo



Manuel António Pina (2009). O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal.
Porto: Porto Editora.
Ilustrações de Inês do Carmo. pp. 6-7.




Esta é a última das páginas que diariamente tem recebido, desde 13 de Maio de 2011. Ao voltá-la, queremos desejar a todos uma feliz época festiva, com uma entrada em 2012 cheia de esperança.
A equipa de "Uma página por dia"

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

José Saramago, "O meu avô, também"


Talvez o dia chuvoso seja o responsável desta melancolia. Somos uma máquina complicada, em que os fios do presente activo se enredam na teia do passado morto, e tudo isto se cruza e entrecruza de tal maneira, em laçadas e apertos, que há momentos em que a vida cai toda sobre nós e nos deixa perplexos, confusos, e subitamente amputados do futuro. Cai a chuva, o vento desmancha a compostura árida das árvores desfolhadas – e dos tempos passados vem uma imagem perdida, um homem alto e magro, velho, agora que se aproxima, por um carreiro alagado. Traz um cajado na mão, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente, caminham animais fatigados, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. Homem e bichos avançam sob a chuva. É uma imagem comum, sem beleza, terrivelmente anónima.
            Mas o homem que assim se aproxima, vago, entre cordas de chuva que parecem diluir o que na memória não se perdeu, é meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de desconforto, de ignorância. E, contudo, é um homem sábio, calado e metido consigo, que só abre a boca para dizer as palavras importantes, aquelas que importam. Fala tão pouco (são poucas as palavras realmente importantes) que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende qualquer coisa como uma luz de aviso. Fora isso, tem um modo de estar sentado, olhando para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede mais próxima, que chega a ser intimidade. Não sei que diálogo mudo o mantém alheado de nós. O seu rosto é talhado a enxó, fixo mas expressivo, e os olhos, pequenos e agudos, têm de vez em quando um brilho claro como se nesse momento alguma coisa tivesse sido definitivamente compreendida. Parece uma esfinge, direi eu mais tarde, quando as leituras eruditas me ajudarem nessas comparações tão abonatórias de uma fácil cultura. Hoje digo que parecia um homem.
            E era um homem. Um homem igual a muitos desta terra, deste mundo, um homem sem oportunidades, talvez um Einstein perdido sob uma camada espessa de impossíveis, um filósofo (quem sabe?), um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria, que não pôde ser nunca. Recordo agora aquela noite morna de verão, que dormimos, nós dois, debaixo da figueira – ouço-o ainda falar da vida que tivera, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia (as coisas que ele sabia do céu e das estrelas), do gado que o conhecia, das histórias e lendas que eram o seu cabedal da infância remota. Adormecemos tarde, enrolados na manta lobeira, que a madrugada refrescaria com certeza e o orvalho não caía só sobre as plantas.
Mas a imagem que me não larga é a do velho que caminha sob a chuva, obstinado e silencioso, como quem cumpre um destino que nada pode modificar. A não ser a morte. Mas, nessa altura, este velho, que é meu avô, ainda não sabe como vai morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia vai ter a premonição (perdoa a palavra, Jerónimo) de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, dos frutos que não voltará a comer, das sombras amigas. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória o não fizer ressurgir no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a interrogação das estrelas. Só isto – e também o gesto que de repente me põe de pé e a urgência da ordem que enche o quarto aquecido onde escrevo.
José Saramago (1985). Deste Mundo e do Outro: Crónicas
(2ª ed.). Lisboa: Editorial Caminho. pp. 29-31.



Discurso de José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998, com link para ficheiro audio:http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1998/saramago-lecture-p.html



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

David Mourão-Ferreira, "ladainha dos póstumos natais"



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

David Mourão-Ferreira (1986). ladainha dos póstumos natais. Cancioneiro de Natal. Lisboa: Edições Rolim. Fotografias de Ana Esquível. pp. 17/49.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

António Alçada Baptista,Excerto de "O Riso de Deus"


É que a gente ainda não se deu bem conta das virtudes das nossas fraquezas: às vezes, aquilo que faz do foguetão que nos coloca numa órbita donde se lança outro olhar sobre o planeta Terra, são os nossos medos, ou o nosso orgulho, ou a nossa incapacidade de agarrar formas de poder.
Outra coisa: acho que a nossa vida tem ciclos. Julgo que estou no fim de mais um ciclo e que vou começar outro. Então temos uma imensa vontade de nos olharmos por dentro para compreender e pôr em ordem as coisas que por lá andam em desalinho. Este ciclo é capaz de ser o último mas o mais decisivo: é o resultado de uma vida e por isso é preciso fazer uma paragem para ver se se encontra o caminho que vai dar ao amor. Dói muito o amor no Outono porque nos é agora muito evidente que andámos enganados, que temos de descobrir outra estrada e que, para isso, não é fácil arranjar companhia…o Malraux dizia que “quando os sistemas de valores se desmoronam, o homem não encontra mais que o seu corpo.” (…) Os que sonham a dormir sabem, de manhã, que isso era uma ilusão mas os que sonham de olhos abertos, acreditam que o estofo do futuro será feito desse sonho.

António Alçada Baptista (1994). O Riso de Deus.
Lisboa: Editorial Presença. p. 22.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

José Mário Branco, "Eu vim de longe, eu vou para longe"


Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de Maio começou
Eu olhei para ti
E então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou
Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha na outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p’ra aqui chegar
Eu vou p’ra longe
P’ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p’ra nos dar
E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos que cantei
Foram frutos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p’ra aqui chegar
Eu vou p’ra longe
P’ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p’ra nos dar
Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei p’ra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou
Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi p’ra esta força que apontou
Eu vim de longe  
De muito longe
O que eu andei p’ra aqui chegar
Eu vou p’ra longe
P’ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p’ra nos dar



E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p’ra aqui chegar
Eu vou p’ra longe
P’ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p’ra nos dar
Quando finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto crer
Eu olhei para ti
Então eu entendi
É um lindo sonho para viver
Quando toda a gente assim quiser
Tenho esta viola numa mão
Tenho a minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p’ra aqui chegar
Eu vou p’ra longe
P’ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p’ra nos dar
E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
E os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer
Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei p’ra aqui chegar
Eu vou p’ra longe
P’ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos p’ra nos dar

José Mário Branco (1982). Eu vim de longe, eu vou para longe. Em Ser Solidário [LP vinil]. s/l: Edisom, Lda.

 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Diane Tong, Excerto de "Contos Populares Ciganos"


Porque é que os Ciganos estão espalhados pelo mundo
Rússia
Encontrei esta versão de um conto explicativo recorrente – os outros relatos tratam normalmente da guerra – numa colectânea de contos populares ciganos russos publicada na Escócia, em 1986. Os organizadores foram Yefim Druts, filho de um rabino de Moscovo, e o poeta Alexei Gessler.
Isto passou-se há muito tempo.
Um cigano e a sua família andavam em viagem. O seu cavalo estava pele e osso e pouco firme nas pernas e à medida que a família cigana ia aumentando era-lhe cada vez mais difícil puxar a pesada carroça. Em breve a carroça ficou tão cheia de crianças aos trambolhões que o pobre cavalo mal conseguia arrastar-se pelo caminho às covas.
A carroça lá ia aos tombos, ora tombando para a esquerda, ora para a direita, tachos e panelas a cair, e uma vez por outra uma criança descalça era atirada ao chão de cabeça.
Não era tão mau à luz do dia, pois podiam ir apanhar as panelas e as criancinhas; mas no escuro não se viam. Aliás, quem é que era capaz de fazer as contas a uma tribo daquelas? E o cavalo lá seguia penosamente.
O cigano deu a volta à terra e onde quer que fosse deixava ficar um filho: mais um, e mais um, e mais um.
E foi assim, estão a ver?, que os Ciganos se espalharam pela Terra.
(pp. 55-6)
A noiva e a gema de ovo
Estados Unidos
Carol Miller, escritora e antropóloga, a quem contaram esta história nos anos sessenta, comenta: «Entre os Rom americanos, um casamento é uma festa, ruidosa e animada com música e danças, bolos, whiskey e mesas de comida. A estrela da festa é a noiva e, tal como na história, muitas vezes está demasiado nervosa para comer. Chega num vestido de baile vermelho e é vestida pela sogra e cunhadas, desta vez de branco e ouro de vinte e quatro quilates. É ponto de orgulho para a família do noivo cobrir-lhe o peito de moedas de ouro, correntes, jóias da melhor qualidade, ouros de família, ouro com significado para a história da família… Assim ataviada, dançam com ela os seus parentes homens e depois as mulheres suas parentes, com os convidados a comandar, a bater um ritmo insistente que pouco atende à música. Por tradição, o casamento há-de durar três dias, três festas, e quase todos os acontecimentos rituais têm a noiva no seu centro.»
Note-se os ladrões gadjé [não-ciganos] introduzidos, pois costumam ser os ciganos a desempenhar este papel.
Isto passou-se antigamente. Uma rapariga estava muito nervosa no seu casamento. Não comia: tinha coisas a mais para fazer. Foi um grande casamento, com muita gente, uma grande festa que durou pela noite dentro. Já era tarde e ela descascou um ovo, comeu a clara e meteu a gema na boca. Estava tão nervosa que se esqueceu de mastigar e a gema entalou-se-lhe na garganta e ela morreu. Por isso, em vez de um casamento as pessoas foram a um funeral.
Na noite seguinte dois gadjés que a tinham visto toda bem vestida para o casamento, cheia de correntes de ouro e de moedas de ouro, foram roubá-la. Abriram o caixão. Um deles pousou o pé no peito dela para tirar os colares e a gema saltou para fora. Recuperando o fôlego, ela tossiu e disse:
 – Que estou eu a fazer aqui?
Pôs os gadjés a fugir de susto. Não apanharam o ouro.
Depois ela foi para o acampamento e encontrou a sua gente. Ficaram assustados porque sabiam que ela tinha morrido. Então ela disse:
– Não sou nenhum fantasma. Estou viva.
E viveu mais quarenta anos.
Esta história é verdadeira.
(pp. 74-6)
Diane Tong (1998). Contos Populares Ciganos. (Telma Costa, Trad.).
Lisboa: Teorema. (publicado pela primeira vez em 1989)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ana Estrela, "Barco de papel"


Andei à deriva no mar, no meu barco de papel, sem relógio, mapa ou prazo p’ra regressar… As ondas escolheram-me um rumo mas a brisa, sua confidente, não mo sussurrou ao ouvido… Peixes multicolores saltitavam num ritmo frenético, salpicando-me com água salgada e descrevendo um círculo em volta do barco, qual soldados escoltando o seu comandante. Pássaros variados soltando os seus gritos de guerra, vinham caçá-los sem pudor, remorso ou hesitação, enquanto os mesmos se debatiam, contorcendo-se num esforço inglório, na luta pela sobrevivência… Mas não sobreviviam… Não sobreviviam como eu sobrevivia, naquela imensidão de líquido e incerteza, com a frustração própria de alguém sem missão… O sol tapou-se com nuvens, talvez p’ra evitar ter de me consolar. Foi então que desejei ser peixe… Desejei sê-lo para saltitar freneticamente, para salpicar, para descrever círculos em volta de barcos, escoltar comandantes e matar a fome a pássaros variados… Mas este desejo foi subitamente penetrado por cânticos… Cânticos melodiosos, encantatórios e irresistíveis… Cânticos que me seduziram e dei por mim olhando as águas transparentes… Vi cabeleiras longas e compridas, caras belas com olhos a fitar-me e silhuetas frágeis, femininas, que terminavam em caudas escamosas de peixe… Seria eu? Parte mulher, parte peixe? Seria a minha imagem espelhada nas águas? Todas as outras figuras seriam meus clones? Metade humanas para me acompanharem à deriva, metade peixes para andarmos em cardume? Mas as sereias outrora submersas, nadavam agora à superfície das águas esfumando as minhas desconfianças… Queriam cantar p’ra mim, queriam convidar-me a brincar com elas… Mas à queda das primeiras gotas, às quais outras se sucederam, aumentando de intensidade, transformando-se num aguaceiro, as sereias desapareceram… E o meu barco de papel foi-se desfazendo, desfazendo e também ele desapareceu… Depois, sem meio de transporte não pude mais viajar no meu sonho. Então acordei, levantei-me e continuei com a minha missão, a minha missão de continuar a viver…
Ana Estrela. (29-05-2011). Barco de papel. (Texto inédito)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Heitor Aghá Silva, Excerto de "arqueologia da palavra"



Na mão direita o sílex,
a pedra tosca…
Preênsil o sonho adere
ao gume rápido,
à súbita e excessiva claridade.
Galho a galho, feericamente iluminado,
treparei às bagas mais desejadas
e nos ramos mais altos dos meus olhos
sílaba a sílaba construirei
as luzes rápidas
da minha anunciada humanidade.
                                                               (p. 9)



Deito-me ao longo do poema.
Sobre a relva das palavras devagar me deito,
e dispo, e bebo nas ínfimas partículas do orvalho
as inflamadas vozes das manhãs vindouras.
Ao longo do poema, devagar,
como se o sangue prefaciado e antigo
coagulasse de repente,
surdamente explode um cântico selvagem…
Tatuagem. Seiva. Ritmo.
Estas serão as rosas que livremente eclodirão
na próxima Primavera.
Pelos muros do Outono
alguém construirá, sobre os meus ombros,
sinais visíveis dos ventos da mudança.

………………………………….
………………………………….

A cabeça do pássaro mal sustenta
a beleza extraordinária
que o seu canto encerra.
                                       (p.13)



Construtor de sonhos e de mitos
ergo-me bruxuleante
no interior de abóbadas irreais
e disponho, disciplinadamente,
o meu mobiliário de sombras
nos recantos mais iluminados.
Lá fora, rondando a noite, os lobos uivam.
A neve tem reflexos simiescos.
Multiplicando a fome pelo frio
inspiradamente eu grito: - Carne! Flecha!
Mão harmoniosa!...
Nas paredes do abrigo a magia do ocre
verbaliza a neblina matinal que se dissipa.
Na base de uma aresta inesperada
um olho nu desponta reclinado.
Tangem-lhe a íris migratória
ténues rémiges de uma ave mítica
em rápida ascensão solar.
Ganhando velocidade nas hastes pontiagudas
nitidamente a rena amadurece.
                                                     
                                                             (p. 21)

Heitor Aghá Silva (1991). arqueologia da palavra. Horta: Edição do autor.
Ilustrações de Sérgio Luís.

Link para o Avenida Marginal, Jornal cultural faialense, dirigido por Heitor H. Silva:http://jornalavenidamarginal.blogspot.com/2011/04/avenida-marginal-n-9.html


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Kevin Bales, Excerto de "Gente Descartável"


     Na nova escravidão, a raça tem pouco significado. No passado, as diferenças étnicas e raciais eram usadas para explicar e desculpar a escravatura. Essas diferenças permitiam aos escravocratas inventar razões que tornavam a escravatura aceitável, ou até uma boa coisa para os escravos. A diferença dos escravos tornava mais fácil usar a violência e a crueldade necessárias para o controlo total. Essa diferença podia ser definida quase de um modo qualquer – diferente religião, tribo, cor de pele, língua, costumes ou classe económica. Qualquer dessas diferenças podia ser e era usada para separar os escravos dos escravocratas. Manter essas diferenças exigia um tremendo investimento em algumas ideias muito irracionais – quanto mais louca a ideia justificativa mais veementemente se insistia nela. Os Pais Fundadores tiveram que recorrer a contorções morais, linguísticas e políticas para explicar por que razão a sua «terra dos livres» era só para pessoas brancas. Muitos deles sabiam que ao admitir a escravatura estavam a trair os seus mais caros ideais. Eram levados a isso porque nesse tempo a escravatura valia muito dinheiro para muita gente na América do Norte. Mas deram-se ao trabalho de urdir desculpas legais e políticas porque sentiam que tinham de justificar moralmente as suas decisões económicas.
     Hoje, a moralidade do dinheiro supera todas as outras considerações. A maioria dos escravocratas não sente a necessidade de explicar ou defender o método de recrutamento ou de gestão do trabalho que escolheram. A escravatura é um negócio muito lucrativo, e um bom lucro é justificação bastante. Libertos das ideias que restringem o estatuto de escravo aos outros, os escravocratas modernos usam outros critérios para escolher escravos. Na realidade, eles gozam de uma grande vantagem: ser capaz de escravizar pessoas do seu próprio país ajuda a manter os custos baixos. Os escravos no Sul da América no século XIX eram muito caros, em parte porque originalmente tinham de ser transportados de África por milhares de quilómetros. Quando os escravos podem ser obtidos na cidade ou na região ao lado, caem os custos de transporte. A questão não é: «Serão eles da cor certa para serem escravos?», mas «Serão eles suficientemente vulneráveis para serem escravizados?». Os critérios de escravização não se referem à cor, tribo ou religião; eles centram-se na fraqueza, na credulidade e na privação.
     É verdade que em alguns países existem diferenças étnicas ou religiosas entre os escravos e os escravocratas. NO Paquistão, por exemplo, muitos tijoleiros escravizados são cristão, enquanto os escravocratas são muçulmanos. Na índia, escravo e escravocrata podem ser de castas diferentes. Na Tailândia podem ser de diferentes regiões do país e são muito mais provavelmente mulheres. Mas no Paquistão há cristãos que não são escravos, na Índia membros da mesma casta que são livres. A sua casta ou religião reflecte simplesmente a sua vulnerabilidade à escravização; não é a causa dela. Só num país, a Mauritânia, o racismo da antiga escravatura persiste – ali os escravos negros pertencem a escravocratas árabes, e a raça é uma divisão-chave. Na verdade, algumas culturas estão mais divididas pelas linhas raciais do que outras. A cultura japonesa distingue fortemente os japoneses como diferentes de todos os outros, e por isso as prostitutas escravizadas no Japão são provavelmente mulheres tailandesas, filipinas ou europeias – embora possam também ser japonesas. Mesmo ali, a diferença-chave não é racial, mas económica: as mulheres japonesas não são de modo nenhum tão vulneráveis e desesperadas como as tailandesas ou filipinas. E as tailandesas estão disponíveis para serem transportadas para o Japão, porque os tailandeses escravizam tailandeses. O mesmo padrão verifica-se nos Estados ricos em petróleo da Arábia Saudita e do Kuwait, onde os árabes muçulmanos escravizam promiscuamente hindus do Sri Lanka, cristãos das Filipinas e muçulmanos da Nigéria. O denominador comum é a pobreza, não a cor. Por trás de cada afirmação de diferença étnica, está a realidade da disparidade económica. Se todos os canhotos do mundo se tornassem amanhã necessitados, em breve haveria escravocratas a aproveitar-se deles. Os modernos escravocratas são predadores intensamente conhecedores da fraqueza; eles estão a adaptar rapidamente uma prática antiga à nova economia global.
Kevin Bales (2001). Gente Descartável: A Nova Escravatura na Economia Global.
(António Pescada, Trad.). Lisboa: Caminho. pp. 20-22.



Web page da Anti-Slavery International: http://www.antislavery.org/english/


Iqbal Masih (slave; anti-slavery activist; born 1982; killed 1995) – his story
   

 Stop Childhood Labour – tribute to Iqbal Masih

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Henrik Lange, Excerto de "90 Livros Clássicos para Pessoas com Pressa"


Henrik Lange (2009). 90 Livros Clássicos para Pessoas com Pressa (Maria de Carvalho, Trad.). Lisboa: Editorial Presença.


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Roddy Doyle, Excerto de "the woman who walked into doors"


Ask me. Ask me. Ask me.
Here goes.
    Broken nose. Loose teeth. Cracked ribs. Broken finger. Black eyes. I don’t know how many; I once had two at the same time, one fading, the other new. Shoulders, elbows, knees, wrists. Stitches in my mouth. Stitches on my chin. A ruptured eardrum. Burns. Cigarettes on my arms and legs. Thumped me, kicked me, pushed me, burned me. He butted me with his head. He held me still and butted me; I couldn’t believe it. He dragged me around the house by my clothes and by my hair. He kicked me up and he kicked me down the stairs. Bruised me, scalded me, threatened me. For seventeen years. Hit me, thumped me, raped me. Seventeen years. He threw me into the garden. He threw me out of the attic. Fists, boots, knee, head. Bread, knife, saucepan, brush. He tore out clumps of my hair. Cigarettes, lighter, ashtray. He set fire to my clothes. He locked me out and he locked me in. He hurt me and hurt me and hurt me. He killed parts of me. He killed most of me. He killed all of me. Bruised, burnt and broken. Bewitched, bothered and bewildered. Seventeen years of it. He never gave up. Months went by and nothing happened, but it was always there – the promise of it.
     Leave me alone!
     Don’t hit my mammy!
     I promise!
     I promise!
     I promise!
     For seventeen years. There wasn’t one minute when I wasn’t afraid, when I wasn’t waiting. Waiting for him to go, waiting for him to come. Waiting for the fist, waiting for the smile. I was brainwashed and brain-dead, a zombie for hours, afraid to think, afraid to stop, completely alone. I sat at home and waited. I mopped up my own blood. I lost all my friends, and most of my teeth. He gave me a choice, left or right; I chose left and he broke the little finger on my left hand. Because I scorched one of his shirts. Because his egg was too hard. Because the toilet seat was wet. Because because because. He demolished me. He destroyed me. And I never stopped loving him. I adored him when he stopped. I was grateful, so grateful, I’d have done anything for him. I loved him. And he loved me.
     I promise!
     I promise!
     Don’t hit my mammy!
(…)
Roddy Doyle (1998). the woman who walked into doors.
London: Vintage. pp. 175-177.


Amnesty International page on Gender Violence: http://www.amnesty.org/en/campaigns/stop-violence-against-women


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

José Gomes Ferreira, "Acordai"


Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras e o mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
José Gomes Ferreira, "Acordai"


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

José de Almada Negreiros, Excerto de "Manifesto anti-Dantas"


Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!
O Dantas é um cigano!
O Dantas é meio cigano!
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!
O Dantas é um habilidoso!
O Dantas veste-se mal!
O Dantas usa ceroulas de malha!
O Dantas especula e inocula os concubinos!
O Dantas é Dantas!
O Dantas é Júlio!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!
E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!
O Dantas é um ciganão!
Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Bob Dylan, "The Times They Are A-Changin'"

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.



Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.

The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.

Bob Dylan (1964). The Times They Are A-Changin'. Retrieved November 2011, from http://www.lyricsfreak.com/b/bob+dylan/the+times+they+are+a+changin_20021240.html


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Franz Kafka, Excerto de "Carta ao Pai"


Meu querido pai,
                perguntaste-me há pouco tempo por que razão digo que tenho medo de ti. Como de costume, não soube o que responder, em parte precisamente devido ao medo que sinto de ti, mas também porque para fundamentar esse medo seria preciso entrar em muitos pormenores, que nem de longe conseguiria ter presentes ao falar. E se tento por este meio responder-te por escrito, o resultado continuará a ser muito incompleto, porque também ao escrever o medo e as suas consequências perturbam a comunicação contigo, e a escala da matéria se situa muito para além da minha memória e do meu entendimento.
                Para ti, o problema sempre se apresentou como coisa muito fácil, pelo menos nos momentos em que, comigo ou com outros, indiscriminadamente, tocaste neste assunto. Para ti, as coisas colocavam-se mais ou menos assim: toda a vida trabalhaste muito, sacrificaste tudo pelos teus filhos, especialmente por mim, e por isso eu «vivi à grande», tive toda a liberdade de estudar o que quis, nunca tive preocupações materiais nem de qualquer outra ordem. Tu, por teu lado, não pedias em troca qualquer espécie de gratidão, já conheces «a gratidão dos filhos», pedias apenas alguma compreensão, um sinal de simpatia; em vez disso, o que sempre fiz foi esconder-me de ti, enfiar-me no quarto rodeado de livros e de amigos loucos, de ideias extravagantes. Para ti, nunca falei abertamente contigo, nunca fui ter contigo ao templo, nunca te visitei em Franzensbad, nem nunca tive o sentido da família, nunca me preocupei com a loja ou com os teus assuntos, entreguei-te a fábrica para depois te abandonar, apoiando a minha irmã Ottla nos seus caprichos, não mexo um dedo para te ajudar (nem sequer te arranjo um bilhete para o teatro), mas faço tudo pelos meus amigos. Em resumo, o juízo que de mim fazes não te levará com certeza a acusar-me de qualquer coisa de menos decente ou de mau (com excepção, talvez, dos meus últimos planos de casamento), mas de frieza, estranheza, ingratidão. E lanças-me isso à cara como se a culpa fosse minha, como se eu pudesse mudar tudo automaticamente, enquanto tu não tens sombra de culpa em tudo isto, a não ser eventualmente a de teres sido bom de mais para comigo.
                Só reconheço validade a este teu modo de apresentar as coisas na medida em que também eu acredito que não tens qualquer culpa deste nosso estranhamento. Mas também eu sou completamente inocente. Se te pudesse levar a aceitar isto, seria possível, não digo uma nova luz – para isso somos os dois demasiado velhos –, mas uma espécie de pacificação, não o fim das hostilidades, mas uma atenuação das tuas constantes acusações.
(…)
Franz Kafka (2008). Carta ao Pai.  (João Barrento, Trad.). Vila Nova de Famalicão:
Quasi Edições. pp. 7-9. Publicado pela primeira vez em 1919.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

José Luís Peixoto, "Crianças de Fogo"


Ela não sabia que os padeiros estavam em greve. Só soube depois. Ela  tinha ido passar a noite com a prima, estavam sozinhas na barraca de madeira, estavam a dormir, quando foram despertadas pelas chamas. Correu para a porta, tentou abri-la, mas estava fechada. Atrás do rugido do fogo, ouviam-se as vozes dos homens na rua. Com queimaduras em todo o corpo, nas mãos, no rosto, ficou em coma durante três meses e, só depois, soube que os padeiros estavam em greve. Foi por isso que os homens vieram queimar a barraca do tio enquanto ele estava a trabalhar na padaria. Foi por isso que trancaram a porta e não a deixaram sair.

Nessa noite, tinha dezassete anos e, no momento em que me conta a sua história, tem vinte e um. É a mais velha, ainda está na associação para continuar a ter oportunidade de estudar em Joanesburgo. Falamos em inglês, mas a sua língua, aquela que a mãe lhe ensinou, é xhosa. Esse é o idioma onde algumas palavras se pronunciam com estalidos da língua. Tenta ensinar a dizer "lagarto" em xhosa, dois estalidos. É muito difícil. Todos nos rimos das tentativas. Ao meu colo está Nkosi, o mais novo, dois anos e oito meses. Nasceu no Zimbabwe e olha para ela com a mesma admiração. Tem o rosto queimado, sem nariz, o lábio de cima desfeito, a pele com uma mistura de tons claros e escuros, cicatrizes grossas negras e manchas claras, dois olhos grandes a verem tudo. Nkosi caiu sobre uma fogueira quando tinha vinte meses. É seropositivo. O seu nome significa: "Obrigado, Deus".

Children of Fire, crianças de fogo. Esta associação não governamental foi fundada na África do Sul por Bronwen Jones quando tomou contacto com Dorah Mokoena, uma menina de três anos, que tinha sofrido queimaduras muito graves aos seis meses de idade, e a quem se preparavam para remover os olhos, pois a sua preservação era demasiado cara e todos acreditavam que morreria em breve. Num país com quilómetros quadrados de barracas iluminadas por candeeiros a petróleo e aquecidas por fogo, que dão origem a mais cinquenta mil incêndios por ano, as vítimas infantis nunca pararam de chegar. Enquanto conversamos, Dorah está por perto. Tem dezassete anos, a boca foi reconstruída com pele recolhida das costas, tem um nariz de borracha, consegue ver claridade e algumas cores, não tem mãos. E sobreviveu.

Bronwen faz um sinal e todas as crianças dirigem-se a mim com um presente. O meu aniversário é na semana seguinte e as crianças fizeram-me um cartão assinado por todos, Happy Birthday from Children of Fire. Rodeiam-me e mostram-me os desenhos que fizeram no cartão, uma página cheia de flores, estrelas e corações. Trocamos beijos, abraços, aperto mãos pequeninas, algumas com falta de dedos, outras sem qualquer dedo. As crianças cantam-me os parabéns. Tiramos uma fotografia juntos.

Antes de chegar, quando ainda só tinha visto as fotografias das crianças na página da associação na internet, pensava que me ia fazer impressão. Nunca tinha estado na presença de tantas pessoas queimadas. Mal atravessei o portão, percebi que não ia ser assim. Estavam todos no pátio e correram na minha direcção, queriam ver-me e queriam brincar. Para lá dos rostos desfigurados e da maior ou menor agilidade, eram crianças. Ao mesmo tempo, percebi a razão das fotografias na página da internet, do documentário e de todas as formas que a associação utiliza para mostrar os seus rostos. Aquelas crianças precisam que o mundo as veja, que o mundo saiba que existem. Mais ainda, o mundo precisa de ver aquelas crianças. É bom para as crianças saberem que o mundo as considera para lá da pele, e é bom para o mundo que seja capaz de considerar os outros para lá da pele.

Feleng tem dez anos e é um rapaz muito engraçado. Quando Bronwen fala de cirurgias, interrompe para descrever aos outros a neve que viu na Suíça e, depois, conta que os médicos lhe tiraram duas costelas e lhas meteram no crânio. Os outro fazem sons e gestos de incómodo e riem-se. Bronwen explica que, assim, o enxerto ósseo crescerá ao mesmo tempo que o crânio. Nunca tinha pensado nisso. Há tanto em que nunca pensei.

Ao passear pela escola, caminho sempre de mão dada com o pequeno Nkosi. Quando chega a hora de ir embora, ele não quer largar-me a mão. Ao despedir-me de todos, ele começa a chorar. Na rua, dou passos, afasto-me e ouço-o a chorar. Já dentro do carro, ainda o ouço a chorar.   

José Luís Peixoto (2011). Crianças de Fogo. Visão. Disponível em: http://www.joseluispeixoto.net/2011/09/ (acedido a 11 de Novembro de 2011).

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Coral"


Ia e vinha
e a cada coisa perguntava
que nome tinha.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/JL. p. 32.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Don Herold, “I would pick more daisies”



Don Herold. “I would pick more daisies”. New Internationalist, Issue 264, February 1995.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Yann Arthus Bertrand, "Multidão em Abengourou – Costa do Marfim"


Yann Arthus Bertrand. Crowd in Abengourou. Côte d’Ivoire. Disponível em: http://www.yannarthusbertrand.org/v2/yab_us.htm (acedido a 11 de Novembro de 2011).

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mia Couto, "O Peso do Vazio"


As próprias letras das canções e os respectivos vídeo-clipes são um culto da ostentação oca e bacoca. Meninos de fatos italianos, cheios de penteados (a mostrar que lhes pesa mais o cabelo que a cabeça) e com dourados a pender dos dedos, dos dedos e do pescoço (a mostrar que precisam apenas de mostrar), meninos que cantam pouco e se repetem até à exaustão, fazem o culto deste vazio triste...
Durante anos, o sistema bancário esteve vendendo vazios. Durante esse tempo a arte esteve no empacotar esse vácuo. Esse cultivo da aparência em substituição da substância invadiu as nossas sociedades, no Norte e no Sul do planeta. Esse fascínio pelo brilho exterior estende-se a todos os domínios. Não interessa tanto quem sejas. Interessa o que vestes e como te vendes. Não interessa o que realmente sabes fazer. Interessa a arte de elaborar CVs, de acumular cursos e de te saberes colocar na montra. Não interessa o que pensas. Interessa como embrulhas o pensamento (ou a sua ausência) num bonito invólucro de palavras. Não interessa, no caso de seres governante, como governas e como produzes riqueza para a sociedade. Interessa a pompa e a circunstância. Em suma, o que pesa é o vazio.
Nas artes, o espectáculo tomou conta dessa generalizada ausência de conteúdo. Pouco importa a voz da cantora. Quem escuta a desafinação se ela rebola os quadris com sedução de gata? Quem disse que uma boa cantora tem que cantar? Numa nação em que pouco dinheiro pode salvar vidas, patrocínios chorudos foram aplicados em programas mediáticos de procura do rosto mais bonito, do corpo mais bonito.
As próprias letras das canções e os respectivos vídeo-clipes são um culto da ostentação oca e bacoca. Meninos de fatos italianos, cheios de penteados (a mostrar que lhes pesa mais o cabelo que a cabeça) e com dourados a pender dos dedos, dos dedos e do pescoço (a mostrar que precisam apenas de mostrar), meninos que cantam pouco e se repetem até à exaustão, fazem o culto deste vazio triste em que o que brilha é falso e o que é verdadeiro é mentira. Que valores se veiculam? O carro de luxo (dado pelo papá), a vida fútil, a riqueza fácil. Ai, pátria amada quanto te amam de verdade? Ai, África odiado quanto desse ódio te foi dedicado pelos próprios africanos? Quanto teremos que dar razão ao grande escritor Chinua Achebe quando disse, na carta que escreveu a Agostinho Neto: “O riso sinistro dos reis idiotas de África que, da varanda dos seus palácios de ouro, contemplam a chacina dos seus próprios povos?”
Essa substituição do conteúdo pobre pela forma e pelo aparato pobre faz parte da nossa cultura de empreendedores instantâneos. Há que criar uma empresa? O melhor é que ela não produza nada. Produzir é uma grande chatice, custa tempo e dá muito trabalho. O que está é o lobby, a compra e venda de influências, é ser empresário de sucesso sobretudo porque esse sucesso vem de ser filho de alguém. Para a empresa ser de “peso” há que se gastar tudo na fachada, no cartão de visita, na sala de recepção.
Toda esta longa introdução vem a propósito de um outro jogo de aparências. O acto de pensar foi dispensado pelo uso mecânico de uma linguagem de moda. Já falei de workshops como um espécie de idioma que preenche e legitima a proliferação de seminários, workshops e conferências que pululam de forma tão improdutiva pelo mundo inteiro. Existem termos de moda como “o desenvolvimento sustentável”. Um desses termos mágicos que dispensa qualquer tipo de raciocínio e que cauciona qualquer juízo moral ou proposta política é a expressão “comunidade local”.
Mas aqui surge uma outra operação: por artes inexplicáveis as chamadas “comunidades locais” são entendidas como agrupamentos puros, inocentes e portadores de valores sagrados. As comunidades rejeitam? Então, nada se faz. As comunidades queixam-se? É preciso compensá-las, de imediato, sem necessidade de produzir prova. As comunidades surgem como entidades fora deste mundo e olhadas como um bálsamo purificador por um certo paternalismo das chamadas potências desenvolvidas.
As comunidades estão acima de qualquer suspeita, são incorruptíveis e têm uma visão infalível sobre os destinos da humanidade. É assim que pensam uns tantos missionários dessa nova religião que se chama “desenvolvimento”. Uma tropa de associações cívicas, organizações não governamentais servem-se desse conceito santificado e santificante. Essa entidade pura não existe. Felizmente. O que há são entidades humanas, com os defeitos e as virtudes de todas as entidades compostas por pessoas reais.
O esforço de idealização promovido quer pelos profetas do desenvolvimento quer pelos defensores dos fracos não confere com a realidade que é mais complexa e mundana. O bom selvagem defendido por Rosseau nunca foi nem “bom”, nem “selvagem”. Foi simplesmente pessoa.
Mia Couto (12.02.2011). O peso do vazio. O País online. Disponível em