segunda-feira, 10 de março de 2014

Mário de Sá-Carneiro

O recreio


Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar - 
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma veza folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...


Paris - outubro  1915

Mário de Sá-Carneiro (2005). «O Recreio», in: Poemas Completos (3.ª edição). Lisboa: Assírio e Alvim, p. 113.

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