sexta-feira, 7 de março de 2014

Adília Lopes


POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO 
(cliché em papel couché)

1
Eu estou nua
eu estou viva
eu sou eu

Eu uso gravata
e, olhe, não foi barata

2
Sou uma poetisa-fêmea
falo do falo

Sou um poeta-macho
sacho

3
Sou um poeta-macho
sou um desmancha-prazeres
sou um empata-fodas

Sou uma poetisa-fêmea para mim
é tudo bestial

4
Sou um poeta-macho
sou arrogante
sou um pé de Dante

Sou um poeta-macho
sou um facto
sou um fato

5
Sou um poeta-macho
tenho um gabinete
sou uma poetisa-fêmea
escrevo na retrete

Sou um poeta-macho
sou um badalo
sou uma poetisa-fêmea
calo-me

6
A poetisa- fêmea
toca viola
o poeta-macho
viola-a


7
Senhora doutora,
os seus seios
são feios

o poeta-macho
assina o despacho


8
Não tenho culpa
não tenho desculpa
não tenho cuspo
não tenho tempo

9
Natália Correia, Mário Soares
antes me ponha
um cacto
mas não me mato

Adília Lopes (2009). «Poestisa-Fêmea, Poeta-Macho». In: Dobra. Poesia Reunida. Lisboa: Assírio e Alvim, pp. 462-463.

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