sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Mundial da Poesia

António Ramos Rosa

Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira
com os contornos duros das consoantes
com a clara música das vogais
Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons
e apreendê-lo para além do seu sentido
como se ele fosse um fluente felino verde ou com a cor do fogo
O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo
será a ágil indolência de sucessivas aberturas
em que veremos as labaredas de um outro sentido
tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras
É assim que lemos não as palavras já formadas 
mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula
ao nível físico do seu fluir oceânico


António Ramos Rosa (2001). «Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira». In: Deambulações Oblíquas. Lisboa: Quetzal, p. 114.

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