quinta-feira, 13 de março de 2014

Alexandre O'Neill

O PAÍS RELATIVO

País por conhecer, por escrever, por ler...

                        
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

                         
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

                         
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

                         
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

                         
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

                         
País do cibinho mastigado
devagarinho.

                         
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

                         
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.

                         
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.

                         
Já sabemos, país, que és um homenzinho...

                         
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.

                         
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.

                         
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

                         
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.

E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!

                         
Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.

                         
País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão, duvida.

                         
Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.

                         
Nhurro país que nunca se desdiz.

                         
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.

                         
Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.

                         
Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!

                         
A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

                         
País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.

                         
Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!

                         
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.

                         
De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...

                         
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.

                         
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!

                         
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!

                         
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...

                                               
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.


Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!

Alexandre O'Neill (1986). «O País Relativo», in: tomai lá do O'Neill! S.l.: Círculo de Leitores, pp. 153-156. 

Sem comentários:

Publicar um comentário