sexta-feira, 14 de março de 2014

Eugénio de Andrade

ELEGIA

Às vezes era bom que tu viesses.
Falavas de tudo com modos naturais:
em ti havia
a harmonia dos frutos
e dos animais. 

Maio trouxe cravos como outrora, 
cravos morenos, como tu dizias, 
mas cada hora
passa e não se demora
nas tristezas das nossas alegrias.

Ainda sabemos cantar, 
só a nossa voz é que mudou: 
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude,
tu quebraste o ritmo e o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude. 

Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão. 
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direcção.


Eugénio de Andrade (1987). «Elegia». In: Poesia e Prosa. Lisboa: Círculo de Leitores, pp. 36-37.

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