quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Marguerite Yourcenar, Excerto de Memórias de Adriano

[…]
A ficção oficial quer que um imperador romano nasça em Roma, mas foi em Itálica que eu nasci; foi a esse país seco e no entanto fértil que sobrepus mais tarde muitas regiões do mundo. A ficção tem coisas boas: prova que as decisões do espírito e da vontade transcendem as circunstâncias. O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior, as escolas. As de Espanha tinham-se ressentido dos ócios da província. A escola de Terêncio Scauro, em Roma, ensinava mediocramente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: os magísteres exerciam sobre os discípulos uma tirania que eu teria vergonha de impor aos homens; cada um, encerrado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam outra coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas de precedência, as intrigas, as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois em todas as sociedades em que vivi, e a tudo isso juntava-se a brutalidade da infância. Todavia, estimei alguns dos meus mestres e essas relações estranhamente íntimas e estranhamente ilusivas que existem entre o professor e o aluno e amei as sereias cantando no fundo de uma voz trémula, que pela primeira vez nos revela uma obra-prima ou nos dá a conhecer uma ideia nova. No fim de tudo, o maior sedutor não é Alcibíades, é Sócrates.
Os métodos dos gramáticos e dos retóricos são talvez menos absurdos do que eu pensava nessa época em que estava sujeito a eles. A gramática, com a sua mistura de regra lógica e de uso arbitrário, propõe ao jovem espírito um antegosto pelo que lhe oferecerão mais tarde as ciências do comportamento humano, o direito ou a moral, todos esses sistemas em que o homem codificou a sua experiência instintiva. Quanto aos exercícios de retórica em que éramos sucessivamente Xerxes e Temístocles, Octávio e Marco António, exaltavam-me; sentia-me Proteu. Ensinaram-me a entrar alternadamente no pensamento de cada homem, a compreender que cada um se decide, vive e morre segundo as suas próprias leis. A leitura dos poetas teve efeitos mais perturbantes ainda: não tenho a certeza de que a descoberta do amor seja forçosamente mais deliciosa que a da poesia. Esta transformou-me: a iniciação da morte não me introduzirá mais profundamente num outro mundo que certo crepúsculo de Virgílio. Mais tarde preferi a rudeza de Énio, tão próxima das origens sagradas da raça, ou a sábia amargura de Lucrécio, ou à generosa abundância de Homero, a humilde parcimónia de Hesíodo. Apreciei sobretudo os poetas mais complicados e os mais obscuros, que obrigam o meu pensamento à mais difícil ginástica, os mais recentes ou os mais antigos, aqueles que me abrem caminhos novos ou me ajudam a reencontrar pistas perdidas. [...]
Marguerite Yourcenar (1983). Memórias de Adriano (2ª Ed.). (Maria Lamas, Trad.)Lousã:
Editora Ulisseia. pp.34-35. Publicado pela primeira vez em 1974 pela Gallimard.

Marguerite Yourcenar – Le paradoxe de l’écrivant (video) http://www.youtube.com/watch?v=ovp90NAgkTs&feature=related

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