quinta-feira, 31 de maio de 2012

Soeiro Pereira Gomes, "Esteiros"

Verão
     [...]
     Como bando de pardais, a malta assaltou o vale, que era então, todo ele, frutescente pomar. Já as nespereiras, tempos antes, haviam sofirdo grave desbaste, e as cerejeiras também. Mas eram as uvas que, a todas as horas, mitigavam o apetite dos garotos. Dizia-se até que a vinha velha do Antunes, desmurada, nunca chegava a ser vindimada por ele.
     Gineto preferia, porém, as quintas frondosas do Castro e de outros, que tinham uvas de casta,  doces como o mel. Vestiu um casacão velho que lhe dava pelos joelhos, roubado ao pai, e escalou o muro, deixando os outros à espera na estrada.
     Sor Miguel, dê-me um cachinho de uvas... – gritou ele, empoleirado. Uma pausa e de novo a lamúria: – Sor Miguel...
     Ninguém respondeu. O silêncio e as portas encerradas da moradia indicavam que o caseiro devia estar longe, ou fora da quinta. Saguí informou que também o canzarrão estava preso no jardim.
     Saltaram à vinha. Gineto correu por entre as cepas, rojando o casaco, em busca de uvas moscatel. Primeiro, comeu; depois, pôs-se a encher as pregas da camisa, mantendo o casaco vazio, para não lhe tolher os movimentos.
     Junto ao muro, os companheiros depenicavam e riam, uns sentados, de cócoras outros, mas todos à vontade, como se a quinta lhes pertencesse. Naquele dia, julgavam-se donos do mundo. [...]




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