terça-feira, 13 de dezembro de 2011

António Alçada Baptista,Excerto de "O Riso de Deus"


É que a gente ainda não se deu bem conta das virtudes das nossas fraquezas: às vezes, aquilo que faz do foguetão que nos coloca numa órbita donde se lança outro olhar sobre o planeta Terra, são os nossos medos, ou o nosso orgulho, ou a nossa incapacidade de agarrar formas de poder.
Outra coisa: acho que a nossa vida tem ciclos. Julgo que estou no fim de mais um ciclo e que vou começar outro. Então temos uma imensa vontade de nos olharmos por dentro para compreender e pôr em ordem as coisas que por lá andam em desalinho. Este ciclo é capaz de ser o último mas o mais decisivo: é o resultado de uma vida e por isso é preciso fazer uma paragem para ver se se encontra o caminho que vai dar ao amor. Dói muito o amor no Outono porque nos é agora muito evidente que andámos enganados, que temos de descobrir outra estrada e que, para isso, não é fácil arranjar companhia…o Malraux dizia que “quando os sistemas de valores se desmoronam, o homem não encontra mais que o seu corpo.” (…) Os que sonham a dormir sabem, de manhã, que isso era uma ilusão mas os que sonham de olhos abertos, acreditam que o estofo do futuro será feito desse sonho.

António Alçada Baptista (1994). O Riso de Deus.
Lisboa: Editorial Presença. p. 22.

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