terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ana Estrela, "Barco de papel"


Andei à deriva no mar, no meu barco de papel, sem relógio, mapa ou prazo p’ra regressar… As ondas escolheram-me um rumo mas a brisa, sua confidente, não mo sussurrou ao ouvido… Peixes multicolores saltitavam num ritmo frenético, salpicando-me com água salgada e descrevendo um círculo em volta do barco, qual soldados escoltando o seu comandante. Pássaros variados soltando os seus gritos de guerra, vinham caçá-los sem pudor, remorso ou hesitação, enquanto os mesmos se debatiam, contorcendo-se num esforço inglório, na luta pela sobrevivência… Mas não sobreviviam… Não sobreviviam como eu sobrevivia, naquela imensidão de líquido e incerteza, com a frustração própria de alguém sem missão… O sol tapou-se com nuvens, talvez p’ra evitar ter de me consolar. Foi então que desejei ser peixe… Desejei sê-lo para saltitar freneticamente, para salpicar, para descrever círculos em volta de barcos, escoltar comandantes e matar a fome a pássaros variados… Mas este desejo foi subitamente penetrado por cânticos… Cânticos melodiosos, encantatórios e irresistíveis… Cânticos que me seduziram e dei por mim olhando as águas transparentes… Vi cabeleiras longas e compridas, caras belas com olhos a fitar-me e silhuetas frágeis, femininas, que terminavam em caudas escamosas de peixe… Seria eu? Parte mulher, parte peixe? Seria a minha imagem espelhada nas águas? Todas as outras figuras seriam meus clones? Metade humanas para me acompanharem à deriva, metade peixes para andarmos em cardume? Mas as sereias outrora submersas, nadavam agora à superfície das águas esfumando as minhas desconfianças… Queriam cantar p’ra mim, queriam convidar-me a brincar com elas… Mas à queda das primeiras gotas, às quais outras se sucederam, aumentando de intensidade, transformando-se num aguaceiro, as sereias desapareceram… E o meu barco de papel foi-se desfazendo, desfazendo e também ele desapareceu… Depois, sem meio de transporte não pude mais viajar no meu sonho. Então acordei, levantei-me e continuei com a minha missão, a minha missão de continuar a viver…
Ana Estrela. (29-05-2011). Barco de papel. (Texto inédito)

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