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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Emboscada em Marráquexe
[excerto]
MIGUEL SOUSA TAVARES
[…]
Eu cheguei de carro, ou melhor, de jipe, como convém aos tempos de hoje. Fiz o mesmo caminho que o inglês*, só que mais depressa. Vindo do Sul, apanhei a pista que começa em Ait-Ben-Adou e vai sair ao pé da que foi a imponente casbah do sultão de Marráquexe. Atravessámos rios a vau, aldeias adormecidas à hora do calor, subimos pela encosta de uma montanha ao lado de um abismo, esforçando-nos para não o olhar, cruzámo-nos com rebanhos de ovelhas, com burros carregados de lenha de azevinho, com uma miúda que nos atirou um punhado de rosas com um cheiro como nunca sentira antes. Trepámos ao Atlas, que estava coberto de neve no cimo, mas já com o degelo fazendo longas colunas de água escorregar pelos flancos da montanha para formarem cá em baixo os oueds que depois irão desembocar no extenso e fértil oásis do vale do Draa. Descido o Atlas, numa interminável sucessão de ziguezagues, entrámos no planalto que anuncia Marráquexe. Um erro de orientação levou-nos a entrar pela cidade pela porta errada, ao cair da noite. De repente, como se tivéssemos mergulhado sem aviso num filme dos anos cinquenta, fomos envolvidos por uma multidão esfuziante de peões, bicicletas, motoretas, carroças, burros, camelos, ovelhas, todo o souk que transbordava de agitação, como sempre sucede ao fim do dia.
«Cá está outra vez a cidade da alegria» – foi a primeira coisa que pensei. Como é bom voltar a Marráquexe, a mais mágica das cidades do deserto! Devagar, deixamo-nos engolir pela cidade, caminhamos ao lado da multidão, em ruas onde se conquista, metro a metro, o espaço disputado aos peões, burros, carroças, motos, bicicletas, carros. Uma corrente eléctrica de fraca potência filtra a poeira suspensa no ar e caminhamos como se estivéssemos dentro de uma nuvem – de vozes, ruídos, cheiro a lenha queimada. Metade da cidade está atrás dos balcões das lojas de rés-do-chão e a outra metade circula ao longo delas. Não deve haver ninguém que fique dentro de casa assim que o Sol de põe: é como se a cidade inteira celebrasse a vida todos os fins de dia.
Não tenho pressa, Marráquexe não é para ser vista em ritmo de excursão, com programa de visitas a cumprir. Conheço alguns segredos escondidos no souk, portas altíssimas de pesada madeira de cedro virgem que abrem para palácios inimagináveis onde tudo está na mesma como estaria há duzentos anos, pátios de casas no meio do caos das ruelas onde, em vez do ruído que se espera ouvir das ruas lá de fora, só se escuta o som da água a correr num tanque em cuja superfície flutuam pétalas de rosa. Sei que mais tarde me sentarei num pátio assim, alguém trará um copo de vinho, uma travessa de tagia marrakchi, finas fatias de galinha cozida ao vapor com limão e azeitonas, e depois trarão uma bacia de água para lavar as mãos. Conversarei em francês com o dono da casa, discutindo a influência dos astros nos negócios da vida, porque aqui nasceu a astrologia, e subiremos ao terraço – de todos os terraços se avista a cidade porque as casa são todas da mesma altura – e na noite densa de estrelas procuraremos no céu de Marráquexe o cometa Hall-Bopp que indica o nordeste.
De manhã cedo, nos jardins perfumados do Mamounia, vou ler o jornal com o nome mais bonito do mundo – Le Matin du Sahara –, caminharei na alameda das oliveiras em cujo tronco majestoso se enrolam as buganvílias em flor, irei até ao antigo pavilhão de caça conversar com o vendedor de tapetes, «vraiment ton ami», e, como num filme, encostar-me-ei ao banco de trás de uma caleche de pneus de borracha, deslizando sem ruído e sem destino certo pelas ruas da cidade vermelha, embalado pelo som do monólogo do condutor zarolho da caleche com o seu velho cavalo manco. Pararemos na loja de especiarias junto dos Túmulos Saadianos, escolhendo, de entre as centenas de frascos de todas as cores existentes, um chá para as enxaquecas e outro para o mal de vivre judaio-cristão.
Eu, que nunca fumo charutos de manhã, vou acender então um Hemingway Short Stories, em homenagem a esse seu outro contemporâneo anglo-saxónico, Winston Spencer Churchill – um da grande linhagem dos loucos de Marráquexe.
            […]
Julho 97

* [Nota nossa] O autor refere-se a John Hopkins, cuja ligação a Marráquexe resume no início do texto.

Miguel Sousa Tavares. Emboscada em Marráquexe. In Miguel Sousa Tavares (1998). Sul – Viagens. Lisboa: Relógio D’Água Editores. pp. 68-70. [excerto]

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Miguel Sousa Tavares, "No teu deserto" (fragmento)

Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos – e esse é assustador. Será assim a morte, também, Cláudia?
Quando um de nós ficava parado a contemplar o deserto, o outro não deveria dizer nada. Tudo o que se pudesse dizer, naquelas alturas, ali, em frente ao nada ou ao absoluto, seria tão inútil que só poderia vir de uma alma fútil. Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos. No deserto, não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio. Mas, naqueles dias, eu estava sempre com pressa. Alguém tinha de estar sempre com pressa e coubera-me a mim, por função. Só não tinha pressa à noite, depois de montado o acampamento, cozinhado o jantar, revisto e arrumado o jipe e de ter passado para um caderno as notas do trabalho do dia e quando, enfim, me sentava com os outros à lareira a olhar as estrelas do Sahara.
Um dia, porém, depois de mais uma paragem para colher imagens, ao regressar ao jipe vi que tinhas ficado ao lado da pista, a olhar em frente, como se te tivesses desligado de tudo. Ia gritar-te, buzinar-te, quando qualquer coisa na maneira como tu estavas em pé a olhar o deserto, qualquer coisa na maneira como tinhas as mãos enfiadas nos bolsos, a cabeça ligeiramente inclinada de lado, o cabelo varrido pelo vento, me fez ficar quieto ao volante. E fiquei assim a observar-te até que tu te virasses e visses que estava à tua espera. Aprendi que é preciso dar tempo aos outros para olharem. Se não fosse para isso, porque teríamos nós vindo ao deserto?
Muitos anos mais tarde, neste ano em que escrevo esta história, estava num fim do mundo, junto ao rio Guadiana, num sítio tão vazio quanto deserto, lá em baixo, no Alentejo. Estava a recuperar o fôlego de uma longa caminhada e tinha-me sentado numa pedra a olhar o rio que corria no fundo do desfiladeiro. Creio que estaria como tu estavas naquele dia, o mesmo olhar perplexo perante a vastidão daquele cenário: há alturas em que a beleza é tão devastadora que magoa. Devia haver qualquer coisa na forma como eu olhava aquela paisagem, todo aquele despojamento humano, que fez com que o alentejano que estava comigo, e que antes tinha sido pastor naqueles vales, comentasse:
– A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem a sabe olhar.
E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.
Desenho de Charles de Foucauld (1856-1916)

Miguel Sousa Tavares (2009). No teu deserto. Alfragide: Oficina do Livro. pp. 49-51