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terça-feira, 13 de maio de 2014

Bertolt Brecht

A QUEIMA DOS LIVROS

Quando o Regime ordenou que queimassem em público
Os livros de saber nocivo, e por toda a parte
Os bois foram forçados a puxar carroças 
Carregadas de livros para a fogueira, um poeta
Expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
Dos queimados, descobriu, horrorizado, que os seus
Livros tinham sido esquecidos. Correu para a secretária
Alado de cólera e escreveu uma carta aos do Poder.
Queimai-me! escreveu com pena veloz, queimai-me!
Não me façais isso! Não me deixes de fora! Não disse eu
Sempre a verdade nos meus livros? E agora
Tratais-me como um mentiroso! Ordeno-vos:
Queimai-me!


Bertolt Brecht (1999). «A Queima dos Livros», trad. Paulo Quintela. In: Paulo Quintela. Obras Completas. Vol. IV. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, p. 50.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Bertolt Brecht

Se os tubarões fossem homens

«Se os tubarões fossem homens», perguntou ao senhor K. uma miúda, filha da sua senhoria, «seriam mais amáveis para os peixinhos do que eles são?» «Claro que sim», disse ele, «se os tubarões fossem homens, mandariam construir no mar enormes caixas para os peixinhos e punham dentro comida, tanto vegetal como animal. Teriam cuidado em fazer com que a água das caixas fosse continuamente renovada e, de um modo geral, adoptariam todo o tipo de medidas sanitárias. Se, por exemplo, um peixinho ferisse uma barbatana, far-lhe-iam logo um penso para não morrer antes de tempo. Para os peixinhos não ficarem melancólicos, de tempos a tempos organizariam grandes festas aquáticas porque os peixinhos alegres são mais saborosos do que os melancólicos. Como é natural, nessas grandes caixas também haveria escolas. E nessas escolas os peixinhos aprenderiam como se nada na goela dos tubarões. Seria necessário, por exemplo, aprenderem geografia para saberem onde encontrar os grandes tubarões que estão preguiçosamente a descansar num lado qualquer. É claro que a formação moral dos peixinhos seria o mais importante. Ensinar-lhes-iam que nada é mais sublime nem formoso do que um peixinho que se sacrifica alegremente, e todos deveriam ter fé nos tubarões, sobretudo quando prometem zelar pela sua felicidade futura. Far-se-ia os peixinhos compreender que um tal futuro só estaria assegurado se aprendessem a obedecer. Teriam de abster-se de toda a propensão baixa, materialista, egoísta e marxista; e se algum deles visse uma destas tendências manifestar-se deveria ser logo comunicada aos tubarões. Se os tubarões fossem homens, por certo fariam guerra uns aos outros para conquistar caixas e peixinhos estrangeiros. Mandariam os seus próprios peixinhos para a guerra, e ensinar-lhes-iam que há enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Como toda a gente sabe, proclamariam, os peixinhos são mudos mas calam-se em línguas muito diferentes e por isso é impossível entenderem-se. A cada peixinho que matasse na guerra uns quantos peixinhos inimigos, dos que se calam noutra língua, seriam dadas uma condecoração de algas marinhas e o título de herói. Como é natural, se os tubarões fossem homens também teriam a sua arte. Haveria belos quadros que representariam os dentes e as goelas dos tubarões em cores magníficas, como autênticos jardins onde é possível traquinar deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os peixinhos heróicos e corajosos nadam com entusiasmo em direcção às goelas dos tubarões, e a música seria tão bela que os peixinhos, ao som das notas, precedidos pela orquestra, precipitar-se-iam sonhadoramente na garganta dos tubarões embalados pelos mais encantadores pensamentos. Também haveria uma religião, se os tubarões fossem homens. E ensinaria que os peixinhos só começam verdadeiramente a viver na barriga dos tubarões. Além do mais, se os tubarões fossem homens os peixinhos deixariam de ser iguais como agora são. Alguns deles obteriam cargos e passariam a ficar acima dos outros. Os que fossem um pouco maiores, teriam mesmo o direito de comer os mais pequenos. Apenas para os tubarões isto seria agradável porque teriam possibilidade de comer, mais vezes, bocados maiores. E os peixinhos maiores, os que ocupariam aqueles cargos, zelariam por que reinasse a ordem entre os mais pequenos e tornar-se-iam professores, oficiais, engenheiros de construção de caixas, etc. Para resumir, só se os tubarões fossem homens nasceria nos mares uma civilização.»


Bertolt Brecht. (1993). «Se os tubarões fossem homens». In: Histórias do Senhor Keuner, trad. Luís Bruhein. Lisboa: Hiena Editora, pp. 57-59.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Bertolt Brecht


PERGUNTAS DUM OPERÁRIO LEITOR

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E a várias vezes destruída Babilónia –
Quem é que tantas vezes a reconstruiu? Em que casas
Da Lima refulgente de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
A Muralha da China? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou? Sobre quem
Triunfaram os Césares? Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu, bramavam
Os afogados pelos seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe de Espanha chorou, quando a Armada
Se afundou. Não chorou mais ninguém?
Frederico Segundo venceu na Guerra dos Sete Anos. Quem
Venceu além dele?

Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?

Tantos relatos.
Tantas perguntas.

Bertolt Brecht, Poemas e Canções, selecção e versão portuguesa de Paulo Quintela,
Livraria Almedina, Coimbra, 1975.
Paulo Quintela, Obras Completas, vol. IV, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.

Poema transcrito a partir de:
Carlos Castilho Pais (2006). «NOITE e DIA na tradução dos poemas de B. Brecht». Jornadas sobre Bertolt Brecht, Universidade Aberta, 26 e 27 de outubro de 2006. Disponível em: http://www.univ-ab.pt/~castilho/noite%20e%20dia.pdf (consultado a 1 de maio de 2014).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Joaquim Benite (1943-2012)









Foto disponível no sítio do Teatro Municipal de Almada

Cena de A Mãe, de Bertolt Brecht (1931), numa produção do Teatro Municipal de Almada, com encenação de Joaquim Benite (janeiro de 2010)

Informação sobre esta produção