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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Meio-Dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo
Parece bater palmas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (2010). "Meio-Dia". In: Obra Poética. Lisboa: Caminho, p. 18.


Terminado o semestre, a equipa de Uma Página por Dia deseja a todos/as boas férias! 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Revolução

Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 
 
Como a voz do mar 
Interior de um povo 
 
Como página em branco 
Onde o poema emerge 
 
Como arquitectura 
Do homem que ergue 
Sua habitação

27 de Abril de 1974



Sophia de Mello Breyner Andresen (2000). «Revolução». In: Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/Jornal de Letras, p. 94.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas



Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). «Pranto pelo dia de hoje», in: Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/Jornal de Letras, p. 62.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen

Guerra ou Lisboa 72

Partiu vivo jovem forte
Voltou bem grave e calado
Com morte no passaporte

Sua morte nos jornais
Surgiu em letra pequena
É preciso que o país
Tenha a consciência serena

Sophia de Mello Breyner Andresen (s.d.). "Guerra ou Lisboa 72" In Poemas Escolhidos. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 127.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Poeta Trágico

No princípio era o labirinto
O secreto palácio do terror calado
- Ele trouxe para o exterior o medo
Disse-o na lisura dos pátios no quadrado
De sol de nudez e de confronto
Expôs o medo como um toiro debelado

Sophia de Mello Breyner Andresen (s.d.). "O Poeta Trágico" In Poemas Escolhidos. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 117.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

OS NOSSOS DEDOS
Sophia de Mello Breyner Andresen


Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.

Florestas, pântanos e rios
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.

E a cidade partiu como um navio
Através da noite.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1991). Obra Poética I (2ª Ed.). Lisboa: Editorial Caminho. p. 160.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Bem vindos de novo à nossa companhia.

No rescaldo das férias, e continuando o tema da última semana, trazemos este mês mais alguns textos relacionados com viagens.



NAVEGAÇÃO

Distância da distância derivada
Aparição do mundo: a terra escorre
Pelos olhos que a vêem revelada.
E atrás um outro longe imenso morre.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1991). Obra Poética I (2ª Ed.).
Lisboa: Editorial Caminho. p. 107.

sexta-feira, 15 de junho de 2012


Sophia de Mello Breyner Andresen

Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
—Sílaba por sílaba —
O acompanha.

Sílaba por sílaba
O poema emerge
—Como se os deuses o dessem
O fazemos

Fonte: Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Paço de Arcos: Visão / JL, p. 98.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Dança de Junho"



Em silêncio nas coisas embaladas
Vão dançando ao sabor dos seus segredos.
Nos seus vestidos brancos e bordados
Raios da lua poisam como dedos,
E em seu redor baloiçam arvoredos
Escuros entre os céus atormentados.



quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Coral"


Ia e vinha
e a cada coisa perguntava
que nome tinha.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/JL. p. 32.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen , "As pessoas sensíveis"


As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Paço de Arcos: Visão / JL, p.  64

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sophia de Mello Breyner Andersen, "Soror Mariana - Beja"


Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor

 Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). Cem Poemas de Sophia. Paço de Arcos: Visão / JL, p. 93.