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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Teófilo Braga, "O Sal e a Água" (tradição oral)



Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga. A mais velha respondeu:
– Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.
Respondeu a do meio:
– Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.
A mais moça respondeu:
– Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.
O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.
Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que não comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, porque é que o rei não comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
– É porque a comida não tem sal.
O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.

Braga, Teófilo (1999). “O sal e a água”. In Contos Tradicionais do Povo Português. Lisboa: Dom Quixote: p.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Nau Catrineta
(Lenda recolhida  por Almeida Garrett)

Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija
Que a não puderam tragar.

Deitaram sorte à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.

Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal.

"Não vejo terras de Espanha,
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar".

Acima, acima gajeiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal

"Alvíssaras, capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terra de Espanha,
Areias de Portugal.

Mais enxergo três meninas
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar".

--Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar.

"A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar".
-- Dar-te-ei tanto dinheiro,
Que o não possas contar.

"Não quero o vosso dinheiro,
pois vos custou a ganhar!
-- Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual.

"Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar".
--Dar-te-ei a nau Catrineta
Para nela navegar.

"Não quero a nau Catrineta
Que a não sei governar".
Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?
"Capitão, quero a tua alma
Para comigo a levar".

Renego de ti, demónio,
Que me estavas a atentar!
A minha alma é só de Deus,
O corpo dou eu ao mar.

Tomou-o um anjo nos braços,
Não o deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.

Disponível em http://web.educom.pt/~pr2003/2000/decc/lendas/nau_catrineta.htm

Página paralela:
Fausto, A Nau Catrineta, do álbum “Histórias de Viageiros” (1979).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Diane Tong, Excerto de "Contos Populares Ciganos"


Porque é que os Ciganos estão espalhados pelo mundo
Rússia
Encontrei esta versão de um conto explicativo recorrente – os outros relatos tratam normalmente da guerra – numa colectânea de contos populares ciganos russos publicada na Escócia, em 1986. Os organizadores foram Yefim Druts, filho de um rabino de Moscovo, e o poeta Alexei Gessler.
Isto passou-se há muito tempo.
Um cigano e a sua família andavam em viagem. O seu cavalo estava pele e osso e pouco firme nas pernas e à medida que a família cigana ia aumentando era-lhe cada vez mais difícil puxar a pesada carroça. Em breve a carroça ficou tão cheia de crianças aos trambolhões que o pobre cavalo mal conseguia arrastar-se pelo caminho às covas.
A carroça lá ia aos tombos, ora tombando para a esquerda, ora para a direita, tachos e panelas a cair, e uma vez por outra uma criança descalça era atirada ao chão de cabeça.
Não era tão mau à luz do dia, pois podiam ir apanhar as panelas e as criancinhas; mas no escuro não se viam. Aliás, quem é que era capaz de fazer as contas a uma tribo daquelas? E o cavalo lá seguia penosamente.
O cigano deu a volta à terra e onde quer que fosse deixava ficar um filho: mais um, e mais um, e mais um.
E foi assim, estão a ver?, que os Ciganos se espalharam pela Terra.
(pp. 55-6)
A noiva e a gema de ovo
Estados Unidos
Carol Miller, escritora e antropóloga, a quem contaram esta história nos anos sessenta, comenta: «Entre os Rom americanos, um casamento é uma festa, ruidosa e animada com música e danças, bolos, whiskey e mesas de comida. A estrela da festa é a noiva e, tal como na história, muitas vezes está demasiado nervosa para comer. Chega num vestido de baile vermelho e é vestida pela sogra e cunhadas, desta vez de branco e ouro de vinte e quatro quilates. É ponto de orgulho para a família do noivo cobrir-lhe o peito de moedas de ouro, correntes, jóias da melhor qualidade, ouros de família, ouro com significado para a história da família… Assim ataviada, dançam com ela os seus parentes homens e depois as mulheres suas parentes, com os convidados a comandar, a bater um ritmo insistente que pouco atende à música. Por tradição, o casamento há-de durar três dias, três festas, e quase todos os acontecimentos rituais têm a noiva no seu centro.»
Note-se os ladrões gadjé [não-ciganos] introduzidos, pois costumam ser os ciganos a desempenhar este papel.
Isto passou-se antigamente. Uma rapariga estava muito nervosa no seu casamento. Não comia: tinha coisas a mais para fazer. Foi um grande casamento, com muita gente, uma grande festa que durou pela noite dentro. Já era tarde e ela descascou um ovo, comeu a clara e meteu a gema na boca. Estava tão nervosa que se esqueceu de mastigar e a gema entalou-se-lhe na garganta e ela morreu. Por isso, em vez de um casamento as pessoas foram a um funeral.
Na noite seguinte dois gadjés que a tinham visto toda bem vestida para o casamento, cheia de correntes de ouro e de moedas de ouro, foram roubá-la. Abriram o caixão. Um deles pousou o pé no peito dela para tirar os colares e a gema saltou para fora. Recuperando o fôlego, ela tossiu e disse:
 – Que estou eu a fazer aqui?
Pôs os gadjés a fugir de susto. Não apanharam o ouro.
Depois ela foi para o acampamento e encontrou a sua gente. Ficaram assustados porque sabiam que ela tinha morrido. Então ela disse:
– Não sou nenhum fantasma. Estou viva.
E viveu mais quarenta anos.
Esta história é verdadeira.
(pp. 74-6)
Diane Tong (1998). Contos Populares Ciganos. (Telma Costa, Trad.).
Lisboa: Teorema. (publicado pela primeira vez em 1989)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Tuiavii de Tiavéa, "Do metal redondo e do papel forte"


(…) A verdadeira divindade do homem branco é o metal redondo e o papel forte a que ele chama dinheiro. Quando se fala a um Europeu do Deus do amor, ele faz uma careta e sorri. Sorri de tão ingénua maneira de pensar. Quando lhe estendem uma peça de metal redondo e brilhante ou um papel grande e forte, logo os seus olhos brilham e a saliva lhe assoma aos lábios. O dinheiro é o objecto do seu amor, o dinheiro é a sua divindade. Todos os homens brancos pensam nisso, até mesmo a dormir. Muitos há cujas mãos se tornam aduncas e semelhantes às patas da grande formiga dos bosques, à força de manejarem a todo o instante o metal e o papel. Muitos há cujos olhos se tornaram cegos à força de contarem o dinheiro. Muitos há que pelo dinheiro sacrificaram o riso, a honra, a consciência, a felicidade e até mesmo mulher e filhos. Quase todos eles sacrificam a saúde ao metal redondo e ao papel forte, isto é, ao dinheiro. Trazem-no dentro dos panos, dobrado e metido em duras peles.
(…)
É preciso notar que nas terras do homem branco é impossível viver sem dinheiro, uma só vez que seja, do nascer ao pôr do sol. Se não tiveres dinheiro nenhum, não poderás matar a fome nem mitigar a sede, não encontrarás esteira para a noite, serás lançado no fale pui pui [prisão] e falar-se á de ti em muitos e variados papéis [jornais]; tudo isto só por não teres dinheiro! Tens que pagar, isto é, tens que dar dinheiro pelo chão sobre o qual caminhas, pelo sítio onde se encontra a tua cabana, pela esteira onde passas a noite, pela luz que ilumina a tua cabana. Tens que pagar para teres direito a disparar sobre um pombo ou para banhares o teu corpo no rio. Sempre que queiras ir aos lugares onde os homens costumam folgar, onde eles cantam e dançam, ou sempre que queiras pedir um conselho ao teu irmão, terás que dar muito metal redondo e papel forte em troca. Por tudo tens que pagar. (…) Até para nasceres tens que pagar e quando morreres a tua aiga [família] tem que pagar pela tua morte, para poder depositar o teu corpo na terra e pela grande pedra que te põem sobre a tumba, em sinal de recordação.
Descobri uma única coisa pela qual se não pede ainda dinheiro na Europa, coisa que cada um pode fazer as vezes que quiser: respirar o ar. Julgo que terá ficado esquecido, mas não me admirava nada que, se as minhas palavras fossem ouvidas na Europa, não exigissem logo, por via disso, algum metal redondo e algum papel forte. Porque os Europeus estão sempre à cata de novos motivos para pedir dinheiro.
(…)
Todos nós, meus sábios irmãos, somos pobres. A nossa terra é a mais pobre à luz do sol. Não temos metal redondo e papel forte que cheguem para encher um baú. Segundo o modo de pensar do Papalagui [o Branco; o Senhor], somos uns pobres mendigos. E no entanto! quando vejo os vossos olhos e os comparo com os dos ricos aliis [amos], os deles parecem-me embaciados, mortiços e cansados, ao passo que os vossos irradiam, como a grande luz, alegria, força, vida e saúde. (…) Prezemos os nossos hábitos, que não permitem que um possua imenso e o outro nada, ou que um possua muito mais que o outro! E assim não nos tornaremos, em nosso coração, iguais ao Papalagui, que é capaz de se sentir feliz e contente mesmo quando, ao lado, o seu irmão está triste e infeliz.
Tuiavii de Tiavéa. (1989). O Papalagui. Lisboa: Antígona. pp. 41-49.*
* Esta obra contém os discursos do chefe de tribo Tuiavii de Tiavéa, da ilha de Upolu, na Samoa, destinados aos seus compatriotas e recolhidos pelo escritor alemão Erich Scheurmann (1878-1957), que viveu nesta comunidade por mais de um ano. O livro foi publicado pela primeira vez, na Alemanha, em 1920. Esta é uma tradução de Luiza Neto Jorge, a partir da versão francesa de Urs Dominique Sprenger.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mito Cherokee, "Como foi feito o mundo"

Fragmento de “Como foi feito o mundo”, mito Cherokee. In Miguel Castro Henriques (Org. e Trad.) (1997). O Sopro das Vozes: Textos de Índios Americanos. Lisboa: Assírio & Alvim, p. 69.

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Pode saber mais na webpage da American Indian Heritage Foundation , neste endereço.