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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Gonçalo M. Tavares

O homem mal-educado

O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.
Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.
No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.
Todos aguardavam.
A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.
O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.
Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado.  Mas não conseguiram.
Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.


Gonçalo M. Tavares (2004). O homem mal-educado. In: O Senhor Brecht. Lisboa: Caminho, p. 16.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Gonçalo M. Tavares

BATER PALMAS



Um homem está de tronco nu, com calças pretas, os braços atrás das costas, as mãos algemadas. Mesmo assim consegue bater palmas. Está a bater palmas atrás das costas, com as mãos a fazer um pequeníssimo movimento.
E agora, sim, percebemos por que razão ele bate palmas. Está em pé, a ver uma peça de teatro. Alguém actua para ele, mas não só. Ao seu lado, vemos agora, estão mais de quinze presos, todos em tronco nu, todos com os braços atrás das costas e todos com algemas. E esses homens rudes, dada a dificuldade de movimentos, batem palmas de uma forma que parece gentil, nobre, delicada, pudica. 

  


Gonçalo M. Tavares (2011). «Bater Palmas». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, p. 91.


Página Paralela:

Texto de Eduardo Madalena, sobre a "técnica da câmara de filmar" usada por Gonçalo M. Tavares em Short Movies. Ler aqui.

Eduardo Madalena (2011, 9 de dezembro). «O escritor da câmara de filmar». Público. Disponível em:  http://p3.publico.pt/cultura/livros/1659/o-escritor-da-camara-de-filmar. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Gonçalo M. Tavares


O VENTO, A ROUPA


Uma janela, mas vista de dentro de casa. Lá fora, meninos brincam debaixo de pedaços de roupa que devem estar a secar. São pedaços de roupa estranhos, pois não os reconhecemos, não conseguimos associar aqueles pedaços de roupa a partes concretas de um corpo humano normal. Não se percebem calças para duas pernas, nem camisas com duas mangas, nem sequer a roupa interior, as meias, nada aparece ali que se possa identificar. É uma roupa informe e quase nos assustamos ao pensar em quem vestirá aquelas roupas, que não parecem feitas para corpos com as formas humanas. E por momentos pensamos que quem vive naquela casa são seres sem pernas, sem braços, sem partes vitais do corpo, seres que sobraram de algum sítio. Mas depois vemos que não e não e não, são pedaços de roupa estranhos sim, mas é o vento que os empurra, que os faz dobrar sobre si próprios, e aquilo que nos parecia roupa informe, roupa de loucos ou de estropiados, vemos agora, por breves instantes, quando os caprichos do vento o permitem, vemos que são peças de roupa normais que o vento torna informes e defeituosas.
Mas o vento tem razão, e o vento faz coisas que nos anunciam momentos trágicos, muito antes de a nossa inteligência perceber. E por isso é que, graças ao esperto do vento, não nos choca tanto o aparecimento daquele homem estropiado, que vem ― com poucos membros e com muita ajuda ― mostrar que o vento sabe bem o que faz, que não é assim tão caótico e burro.




Gonçalo M. Tavares (2011). «O Vento, A Roupa». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, pp. 53-54.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Gonçalo M. Tavares

O PIANO

Um piano com as teclas partidas, rodeado de água, talvez num pequeno lago.
O dono do piano chega até ele, com água pelos tornozelos.
A mulher e os filhos morreram na catástrofe, mas agora ele localizou o piano que, com o desabamento da casa, desaparecera.
Chegado ao pé do piano, o homem toca numa tecla quase por instinto, para ver se ainda funciona.
Há muito barulho na cidade, há sirenes de ambulância por todo o lado e por isso ele não tem a certeza se o que ouviu foi resultado do seu toque no piano. Mas o piano está de tal forma desfeito que é impossível alguma tecla ainda funcionar.
De qualquer forma, o homem ― que acabou de perder a mulher e os filhos ― terá perdido também por completo a razão ou então terá ganhado uma outra forma de olhar para o que lhe acontece; e isto porque, em pleno alvoroço, na altura em que há mortos por todo o lado, e no momento em que cada um procura encontrar os seus familiares e confirmar se eles ainda estão vivos, é nessa altura que esse homem subitamente grita ― e pede ajuda.
Mas naquele momento ninguém o vai ajudar a resgatar um piano.


Gonçalo M. Tavares (2011). «O Piano». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, pp. 13-14.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Gonçalo M. Tavares

O RELÓGIO DA TORRE


Um homem bem vestido pára no meio da praça e levanta a cabeça. Com os movimentos de quem parece confirmar as horas pelo relógio gigante da praça central, o homem bem vestido vai acertando o seu relógio de pulso.
Olhamos agora para o relógio da praça central e vemos que ele está a ser arranjado: há vários homens em seu redor. E se esses homens parecem macacos que, em vez de se apoiarem em galhos, se apoiam em ponteiros metálicos gigantes, se por instantes parecem macacos, segundos depois parecem médicos em redor de um corpo qualquer que está a sucumbir e eles ― meio eléctricos e acelerados, outras vezes com uma calma que não se percebe ― ali estão, em redor daquele corpo em forma de círculo, tentando recuperar os batimentos do único coração que, de facto, faz falta.
De qualquer maneira, o homem lá em baixo continua à espera.



Gonçalo M. Tavares (2011). «O Relógio da Torre». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, p. 143-144.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Gonçalo M. Tavares

Os Soldados


Numa estação de comboios, dois soldados, debruçados sobre o guiché, compram os bilhetes. As suas mãos tremem. Estão nervosos.
Passa um homem, um vendedor, que traz três muletas na mão. Espera que os soldados comprem o seu bilhete para se aproximar, oferecendo as muletas por bom preço.
Mas os dois soldados têm as pernas intactas, caminham normalmente.



Gonçalo M. Tavares (2011). «Os Soldados». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, p. 89.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013


Sons últimos e água para as árvores

«Como é estúpido fazer planos para uma longa vida quando não se é sequer senhor do dia seguinte.»
Senéca

Últimas palavras

Um dilema moderno. O dilema que, por paradoxo, existe nas cidades mais desenvolvidas: sem cuidados paliativos domiciliários, como ter uma boa morte? Como ter uma boa morte em Lisboa, por exemplo? Voltemos à definição.
«Boa morte: 1. Morte tranquila, com o mínimo da dor. 2. Morte em que até ao último momento de vida se conserva a dignidade e a identidade. 3. Morte em que o moribundo tem os familiares junto dele.»  («Agora e na hora da nossa morte», Susana Moreira Marques)
O ponto 1 - «Boa morte: 1. Morte tranquila, com o mínimo de dor.»
Por norma, este mínimo de dor (pensando por agora só na dor física) é garantido por meios técnicos que habitam um espaço definido — o hospital. Como conjugar, então, esta dor mínima com o ponto 2 — manter a identidade? Como é que um doente mantém a sua identidade num quarto de hospital; afastado do seu espaço, dos seus objetos?
Muitas vezes o terrível dilema dos familiares é precisamente este: a) manter o doente no hospital — local que permite, em princípio, que ele viva mais tempo — ou b) tirá-lo dali e levá-lo para sua própria casa para assim poder ter a tal «morte em que o moribundo tem os familiares junto dele»? Mais tempo de vida ou morte mais tranquila, com mais salvaguarda da identidade e da memória afetiva — morte mais individual, personalizada, junto de familiares a quem possa dar o último conselho e de quem possa receber as últimas atenções. Os dois momentos-limite (morte, nascimento) em que o ser humano precisa de outro — de, pelo menos, mais um outro; e, nessas alturas, que terrível estender o braço e não tocar em nada a não ser em coisas metálicas! O último toque de um moribundo, pensemos nele, como tal é decisivo. Qual foi a última coisa em que o moribundo tocou? — eis uma pergunta relevante. Em que matéria, em que material ou: em que pessoa? A primeira pessoa que nos pega quando nascemos e a última em que tocamos, como tal é relevante. E, no segundo caso, pode resultar de uma escolha consciente, clara: quem escolhes para o último toque? Eis uma das decisões mais sérias. O moribundo, além do mais, quer falar e ouvir — como todos os humanos.
Dizer as últimas palavras para uma máquina, contar o último segredo de família a uma sala vazia, escutar ruídos metálicos em vez de frases e respirações — esta é uma das mais terríveis paisagens em 2013, para alguém que está muito próximo da morte.  E eis, enfim, o pedido básico desde que nascemos até ao instante último: querer ouvir alguém que fale, querer falar para alguém que ouça. […]


Gonçalo M. Tavares (2013). «Sons últimos e água para as árvores».
Visão, 1037, 17-23 de janeiro de 2013, 8.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012


Gonçalo M. Tavares

O Senhor Kraus

[excerto]

Haviam oferecido ao Chefe (novamente) um mapa do país – já era para aí o quinto ou o sexto. Os anteriores ele perdera-os, ou apontara por cima palavras-chave para os seus discursos, ou assoara-se a eles ou colocara-os debaixo de uma garrafa de vinho para não sujar a mesa, enfim: o Chefe distraía-se. Tinha, no entanto, certos cuidados. Por exemplo: limpava todas as humidades e nódoas líquidas – vinho e outras substâncias – apenas com a parte do mapa que representava o interior do país – a zona mais seca.

Gonçalo M. Tavares (2005). O Senhor Kraus. Lisboa: Caminho. p. 45.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Gonçalo M. Tavares



     Uma palavra que durante décadas não seja utilizada na rua ou nos livros e permaneça apenas no dicionário tem um destino à vista: ser palavra-defunta. O dicionário pode ser visto, assim, como uma antecâmara da morte. Como se algumas palavras estivessem ali paradinhas, quietas, mudas (no sentido literal e metafórico) porque não falam, ninguém fala por elas e ninguém as fala – com se estivessem, então, ali em fila, em linha, à espera do seu próprio velório.
     Ou podemos então mudar radicalmente de ponto de vista: o dicionário com os seus milhares e milhares de palavras, pode ser entendido como um depósito contra o esquecimento, um enorme arquivo. Eis, pois, um outro nome possível para o dicionário: instrumento para evitar o esquecimento.
   Imaginemos, por absurdo, que os dicionários desapareciam. Que uma qualquer ordem política determinava a sua destruição. Pois bem, seria uma matança. Em poucas décadas morreriam palavras como tordos. E se, no limite, não existisse qualquer livro, e ficássemos apenas […] com a linguagem das conversas rápidas, então o vocabulário ficaria reduzido ao mais essencial e mínimo: sim, não, comida, bebida, etc. Poderíamos assim, com a linguagem, expressar as necessidades do organismo mas certamente não as do espírito.
     Abrir o dicionário, pois, como ato de resistência e salvação: não vou ficar só com as palavras que ouço ou leio nos livros comuns – eis o que se poderia dizer. Abrimos ao acaso na página 310, e depois na página 315, sempre com a firme determinação de salvar duas ou três palavras de cada página. Como aquele que salva quem se está a afogar. E não é por acaso, aliás, que muitas das mitologias remetem o esquecimento para a imagem do rio. Uma água onde as coisas se afundam, deixam de ser vistas à superfície, desaparecem da vista. A passagem do rio utilizada também como metáfora do tempo que passa e leva e afunda as coisas que ainda há momentos estavam à nossa frente, bem vivas. Salvar palavras da água que engole e faz esquecer as coisas, eis o que é, em parte, abrir um dicionário.
     Dotados, então, de um espírito de nadador-salvador, abrimos ao acaso o dicionário e trazemos palavras mais ou menos raras – umas que já nadam há muito debaixo de água, com dificuldades, outras, mais resistentes, mais visíveis, mas ainda estimulantes (e algumas bem conhecidas dos nossos clássicos).
     Passemos pela letra M. Ao acaso e rapidamente.
     Morato – adjetivo que significa bem organizado.
     Maçaruco – (regionalismo) indivíduo mal trajado.
     Manajeiro – aquele que dirige o trabalho das ceifas os outros.
     Metuendo – que mete medo; terrível; medonho.
     E tropeçamos depois em palavras de significado popular e óbvio, mas bem divertido:
     Mata-sãos: médico incompetente; curandeiro.
    Eis, pois, a partir daqui, uma frase possível que quase poderíamos introduzir numa conversa de café (uma frase em letra M):
     - O manajeiro metuendo, maçaruco, aproximou-se do morato espaço do mata-sãos e disse: por favor, aqui não, vá curar mais além.

Fonte: Gonçalo M. Tavares, Visão, 22 de setembro de 2011