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terça-feira, 4 de outubro de 2011

John Grogan, Excerto de "Marley & Eu"


Marley  não abanava apenas a cauda. Abanava o corpo todo, começando pelas partes dianteiras e prolongando todo o movimento para trás. Era como a versão canina de um Slinky. Parecia-nos que não tinha ossos, mas tão-só um grande músculo elástico. Jenny começou a chamar-lhe Mr. Wiggles. E não havia altura em que se abanasse mais do que quando tinha qualquer coisa na boca. A sua reacção a qualquer situação era sempre a mesma: agarrar o sapato ou o lápis mais próximo – qualquer objecto servia, na verdade – e correr com ele. Parecia haver uma pequena voz na sua cabeça a sussurrar-lhe: força! Apanha-o! Baba-o todo! Corre!
Alguns dos objectos que ele apanhava eram suficientemente pequenos para serem dissimulados, o que parecia agradar-lhe especialmente - parecia pensar que estava a conseguir ludibriar-nos. Mas Marley jamais daria um bom jogador de póquer. Quando tinha alguma coisa para esconder, não conseguia disfarçar o seu júbilo. Punha sempre um ar empertigado, até explodir numa espécie de frenesim maníaco, como se tivesse levado um pontapé no traseiro de um folião invisível. O seu corpo começava a tremer, a sua cabeça a abanar de um lado para o outro e o seu traseiro desandava numa espécie de dança espasmódica. Chamávamos a isso o mambo do Marley.
(…)
            A maioria das noites, depois de jantar, saíamos os dois com ele até à marginal, onde caminhávamos ao longo do canal enquanto os iates de Palm  Beach passavam indolentemente ao pôr do Sol.
              Caminhar é provavelmente a palavra errada. Marley passeava como uma locomotiva em fuga. Corria à frente, debatendo-se com a trela com todas as  suas forças, enrouquecendo e quase sufocando na sua obstinação. Nós puxávamo-lo para trás. Ele arrastava-nos para a frente. Nós puxávamos e ele rebocava-nos, arfando como um fumador compulsivo, estrangulado pela coleira. Guiava para a esquerda e para a direita, disparando para todas as caixas de correio e arbustos, farejando, arquejando e urinando descontroladamente, acabando por se molhar mais a si próprio, do que ao alvo pretendido.
            Descrevia círculos à nossa volta, enredando-nos a trela nos tornozelos antes de pular novamente para a frente, quase nos atirando ao chão. Quando alguém se aproximava com outro cão, Marley dardejava em direcção a eles, rejubilante, erguendo-se nas patas detrás quando chegava ao fim da trela, ansioso por fazer novos amigos.
John Grogan (2006). Marley & Eu: A vida e amor do pior cão do mundo.
(Pedro Serras Pereira, Trad.). Lisboa: Casa das Letras. pp. 47-49.

Ilustração inédita de Alexandra Lota*

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Alexandra Lota, "Abismo"


Um caminho sigo, sem parar.
Os meus pés simplesmente vão e para trás a minha mente ficou.
Os meus olhos vidram o passado, para a frente querem olhar mas nada vêem...
Vazio...
É tudo o que existe.
Uma camada esconde os meus olhos, como a Lua esconde o Sol num eclipse.
A minha mente divaga por aí, e o meu corpo, sem alma, simplesmente anda.
Mas parece que por mais passos que dê... o cenário apenas escurece, como se recuassem no tempo. Como se tudo se movesse e apenas eu fico no mesmo local.
Penso: “Nada mais do que é poderia ser pior”
Ironia.
A Terra treme.
O chão abre-se.
E eu?
Caio
Caio num vazio sem fim.
Um vazio frio e moribundo.
Não importa, nada mais importa.
Quase não se vê a luz lá em cima.
Sou apenas um pedaço de carne.
Nada importa.
Ninguém para me agarrar.
Ninguém para me salvar.
Ninguém para lavar as minhas mágoas.
Ninguém para me dizer “adoro-te, sê forte, força!”
Estou sozinha...
Apenas tu importavas e nem tu me salvaste, deixaste-me cair.
Neste abismo de desespero, de tristezas e mágoas, de confiança destruída, de promessas e juras esquecidas!
Eu tinha tudo!
Agora não tenho nada...
Não tenho forças.
Não tenho alegrias.
O meu sorriso desapareceu.
O que de mim restava, fugiu contigo.
E aqui ficaram carne e ossos, abandonados pelo espírito.
Um final feliz? É o que se espera.
Ao fundo cheguei...


E aqui

Fiquei

Poema inédito de Alexandra Lota
Nota: Alexandra Lota é aluna do 2º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.