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terça-feira, 18 de março de 2014

José Gomes Ferreira

O Graxa

     […] [A]quele garotão de ontem à tarde encheu-me as medidas. Era um engraxador aloirado, com doze anos talvez, fato-macaco roto nos joelhos, olhos de zinco, pescoço penugento e chancas enormes, que um polícia surpreendera empoleirado num eléctrico, em riscos de cair estatelado no basalto.
     O guarda, cara de boa pessoa, disfarçado de voz de trovão, agarrou-o pelo braço:
     – Seu malandrete! Venha já comigo para a esquadra.
     Molemente, com a caixa do ofício ao ombro, o engraxador desceu do estribo e, com um desafio mudo nos olhos de metal, deixou-se levar sem resistência.
     Logo correu muita gente faminta de dor do próximo. Os passageiros do eléctrico ergueram-se ávidos de Lágrima. As damas extraíram os lenços das malinhas. E um senhor de idade que seguia num táxi mandou parar o carro para sofrer melhor…
     Contra o previsto, porém, o garotão não soltava um queixume nem se espojava de protestos, ante o espanto do guarda, que não escondia a sua incompreensão daquele silêncio fora de todas as regras. Que diabo! Um garoto naquelas circunstâncias devia escabujar, chamar pela mãezinha, avermelhar-se de gritos de aflição, varar o mundo, espolinhar-se na poeira da rua. Assim não valia!
     E para o acordar bem, para o trazer à tona dos hábitos, sacudiu-o outra vez com falsa cólera:
     – Percebeste? Vou meter-te no calabouço, para aprenderes a não andar agarrado aos eléctricos. Percebeste?
     Pois, sim, rala-te. Nem pio. Apenas os olhos de cinza, secos e refilões.
     Em redor, começava a criar-se um ambiente de logro. Os passageiros, perdidas as esperanças de assistir ao espectáculo do Lamento e da Lágrima a correr, desabavam os corpos nos bancos, em decepções de fadiga. E até o pobre polícia, boa pessoa no fundo, com dois pequenos lá em casa, que pretendia apenas pregar um susto ao malandrim, parecia acabrunhado. Os seus olhos imploravam nitidamente: «Chora, malandro!», «Chora para eu ter pena!», embora a sua voz trovejasse:
     – Olha que vais para o calabouço! Percebeste?
     Mas o garotão, filho da teimosia dos pedregulhos, das ervas e das manhãs duras de trabalho, mantinha-se firme no seu silêncio, a olhar, com desprezo distante, para toda aquela matulagem que queria vê-lo chorar, a ele, o «Graxa».
     – Sai da minha frente, meu malandro, se não racho-te! – acabou por exclamar o polícia em último recurso de desespero fingido para se livrar daquela complicação. – Põe-te a cavar. Ala!
     E outra vez feliz por não prender ninguém, por persistir tudo na monotonia uniforme das mesmas ruas, na repetição sem surpresas do mesmo todos-os-dias, desfez o ajuntamento com dois trovões:
     – Vamos! Circulem! Circulem!
     Circulei.
     Mas, assim como quem não quer a coisa, segui o engraxador de perto durante algum tempo.
     A vitória dera-lhe maior lentidão nos gestos e no andar. Torcia agora a boca, mais refilona sob os olhos escarninhos, e escarafunchava nos bolsos, com uma das mãos, à procura de não sei quê.
     Acabou por encontrar. Era uma beata, que acendeu a custo, a puxar fumaças trabalhosas, crepitantes de saliva.
     Depois, sempre com o «piano» às costas, cuspiu com desdém longo e, do fundo do orgulho dos seus doze anos de calos, de miséria, de trabalho, de chulipas, de trambolhões, de abandono, de pão duro, de restos de rancho, de cama sem lençóis, envolveu o mundo num insulto roufenho:
     – Palermas!
     […]

José Gomes Ferreira  (2004). “O «Graxa»”. In O Mundo dos Outros . Rio de Mouro: Círculo de Leitores: pp. 133-134.

sexta-feira, 1 de março de 2013

José Gomes Ferreira

Em março e abril divulgaremos textos de autores portugueses a que temos dedicado menor atenção neste blog.

José Gomes Ferreira
Aventuras de João Sem Medo
O homem sem cabeça
[excerto]

Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.
     Apesar de ficar a pouca distância da povoação, ninguém se atrevia a devassar a floresta. Não só por se encontrar protegida pela altura descomunal do Muro, mas principalmente porque os choraquelogobebenses – infelizes chorincas que se lastimavam de manhã até à noite – mal tinham força para arrastar o bolor negro das sombras, quanto mais para se aventurarem a combater bichas de sete bocas, gigantes de cinco braços ou dragões de duas goelas. Preferiam choramingar, os maricas!, agachados em casebres sombrios, enquanto lá por fora chovia com persistência implacável (como se as nuvens estivessem forradas de olhos) e dos milhares e milhares de chorões – as árvores predilectas dessa gente – pingavam folhas tristes. Tudo isto incitava os habitantes da aldeia a andarem de monco caído, sempre constipados por causa da humidade, e a ouvirem com delícia canções de cemitério ganidas por cantores trajados de luto, ao som de instrumentos plangentes e monótonos.
     O único que, talvez por capricho de contradizer o ambiente e instinto de refilar, resistia a esta choradeira pegada, era o nosso João que, em virtude duma contínua ostentação de bravata alegre e teimosia na luta, todos conheciam por João Sem Medo.
     Ora um dia, farto de tanta choraminguice e de tanta miséria que gelava as casas e cobria os homens de verdete, disse à mãe que, conforme a tradição local, lacrimejava no seu canto de viúva:
     – Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro.
     A pobre desatou logo aos berros de súplica que abalaram o Céu e a Terra:
     – Ah! não vás, não vás, meu filho! Pois não sabes que essa Floresta Maldita está povoada de Canibais Mágicos que se alimentam de sangue de homens? Sim, meu filho, de sangue humano bebido por caveiras. Não vás! Não vás!
     E durante horas não cessou de barregar, histérica:
     – Ai que não torno a ver o meu rico filhinho!
     Mas as implorações da mãe não impediram que, na manhã seguinte, João Sem Medo se esgueirasse de Chora-Que-Logo-Bebes e se dirigisse à socapa para o tal Muro que cercava a floresta e onde alguém escrevera este aviso:
É PROIBIDA A ENTRADA
A QUEM NÃO ANDAR
ESPANTADO DE EXISTIR


Ferreira, José Gomes (1978). Aventuras de João Sem Medo:
Panfleto Mágico em Forma de Romance (9ª ed.). Lisboa: Moraes 
Editores. pp. 9-10. (Publicado pela primeira vez em 1963).*

* Nota: Foi escrito em 26 folhetins, para a gazeta juvenil O Senhor Doutor, em 1933, assinados sob o pseudónimo de Avô do Cachimbo.



Páginas Paralelas:
Todo o primeiro capítulo, “O homem sem cabeça”, disponível aqui

Animação do Capítulo VII. “A Cidade da Confusão”, de Margarida Fernandes e Tiago Kawata (2011). Lisboa: UFSC-IADE

Documentário “José Gomes Ferreira – Um Homem do Tamanho do Século” (2000), produzido pela Videoteca Municipal de Lisboa no centenário do nascimento do autor, com o apoio da RTP e o patrocínio do Instituto Camões – entrevista (Arquivo RTP); leitura de textos pelo actor João Mota (Comuna – Teatro de Pesquisa); “Valsa das Folhas Secas Caindo”, composta por J. G. Ferreira e interpretada por Gabriela Canavilhas

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

José Gomes Ferreira, "Acordai"


Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras e o mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
José Gomes Ferreira, "Acordai"