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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Mário Cesariny

aeroporto

a mala que segue viagem
assim como o avião
têm a grande vantagem
de não terem coração

só formas amplas - metais
de uma brancura de praia -
dentro vão sonhos a mais
é bom que a mala não caia

mala do sonho vais bem
assim deitada de lado?
chega-te a roupa que tens
ou chamamos o criado?

ou chamamos o fantasma
da queda livre no espaço,
vêrga do pássaro de aço
onde a poesia se espasma?

Mário Cesariny, «aeroporto», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 75.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Mário Cesariny

manhã fresca...

Manhã fresca, reclinada
pela primavera crescente.
O mais pequenino nada
está como se fôra gente.

De um rapaz que finda
(na alameda) uma novela perturbada,
uma mulher ainda linda
esperou mas não foi olhada

E na folhagem também
certo desencontro corre:
a primavera que vem
na trovoada que morre

Mário Cesariny (1981). «manhã fresca...», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 78.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Mário Cesariny

arte de inventar os personagens

Pomo-nos de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos seus nomes
e os personagens aparecem

Mário Cesariny (1981), «arte de inventar os personagens», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 137.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Mário Cesariny, "História de cão"



eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

então ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada


Mário Cesariny (1981). manual de prestidigitação. Lisboa: assírio e alvim, pp. 22-23.