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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Alexandre O'Neill

FALA!


Fala a sério e fala no gozo
fá-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro

Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão

Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe

Fala francês fala béu-béu

Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço

Fala como se falar fosse andar
fala com elegância - muita e devagar.

Alexandre O'Neill (2004). «Fala!». In Poemário 2004. Lisboa: Assírio & Alvim.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Alexandre O'Neill

O PAÍS RELATIVO

País por conhecer, por escrever, por ler...

                        
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

                         
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

                         
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

                         
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

                         
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

                         
País do cibinho mastigado
devagarinho.

                         
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

                         
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.

                         
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.

                         
Já sabemos, país, que és um homenzinho...

                         
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.

                         
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.

                         
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

                         
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.

E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!

                         
Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.

                         
País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão, duvida.

                         
Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.

                         
Nhurro país que nunca se desdiz.

                         
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.

                         
Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.

                         
Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!

                         
A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

                         
País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.

                         
Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!

                         
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.

                         
De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...

                         
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.

                         
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!

                         
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!

                         
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...

                                               
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.


Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!

Alexandre O'Neill (1986). «O País Relativo», in: tomai lá do O'Neill! S.l.: Círculo de Leitores, pp. 153-156. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Alexandre O'Neill

PORTUGAL


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill (1986). «Portugal», in: tomai lá do O'Neill! S.l.: Círculo de Leitores, p. 149.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Alexandre O'Neill, "Um Adeus Português"



Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada


Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor


Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver


Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual



Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal


Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser


Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal


Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O’Neill (2000). Um Adeus Português.
In: Poesias Completas. Lisboa: Assírio & Alvim, pp. 52-53.