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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Gao Xingjian

Instantâneos
[excerto]
[…]
«Um pequeno chinês…», o velho negro canta em inglês sem lhe lançar um olhar. A velha negra acaricia o teclado, quase deitada sobre o piano, balança o corpo ao compasso, absorvida pela música, como se estivesse bêbeda ou apaixonada, também não olha. Ele está entretido a beber a sua cerveja. Sob a luz azul fluorescente do bar, ninguém olha para ninguém. A assistência, embalada pela música, parece um grupo de marionetas a mexer a cabeça.
O cavalo empinou as patas da frente. Patas cobertas de pêlos. «Vagabundeia pelo mundo…» O canto do velho homem negro recomeça.
A velha mulher dá o acorde, o sol ressoa nos cascos dos cavalos. «Vagabundeia pelo mundo… Vagabundeia pelo mundo…» O velho homem negro é acompanhado pela bateria e a assistência move a cabeça ao ritmo.
A corda desliza de mão em mão; em baixo, os pés calçados com sapatos de couro estão solidamente ancorados na relva verde.
A espuma voa no ar, as vagas batem no molhe. Em baixo, a maré sobe, a praia já desapareceu completamente. O sol continua brilhante, mas o céu e o mar parecem de um azul ainda mais forte.
A extremidade da corda acaba por aparecer. Um enorme peixe morto preso a um anzol vermelho é lançado sobre a erva verde. Tem a boca muito aberta como se ainda respirasse; de facto, está morto. O seu olho muito redondo já não tem brilho, mas ainda tem uma expressão de pavor.
A água do mar ultrapassa o molhe e espraia-se no dique molhado. O céu torna-se azul escuro e a luz do sol extraordinariamente transparente.
Uma grande barata de asas luzidias agita as antenas. Trepa pelo tapete felpudo de uma brancura leitosa. Avança sobre os fios entrançados. No círculo de luz do lustre suspenso sobre o tapete recorta-se a parte de trás de um cavalo esculpido em madeira de palissandro: as duas patas posteriores e a garupa lisas e brilhantes. Os cascos estão cobertos por uma lamela de cobre fixada por pequenos pregos delicadamente trabalhados.
«Vagabundeia… pelo mundo! Vagabundeia… pelo mundo!» O teclado recomeça a cantar sob as mãos negras cobertas de rugas. Abana incessantemente a cabeça ao ritmo da música. Em frente dele, no balcão, estão alinhadas três garrafas de cerveja vazias. Na mão tem um copo meio cheio. Uma mulher branca instala-se no banco ao lado do seu, coxas apertadas por uma saia de cabedal, tão lisas e brilhantes como a garupa de um cavalo.
A água do mar, como uma peça de cetim negro, espraia-se no dique; um peixe morto jaz na água que se estende. Nem um som. A maré e o vento quedaram-se subitamente. Parece que o tempo parou. Só a água do mar se espraia, negro cetim estendido. Talvez não se mova. É apenas uma impressão, uma sensação, uma imagem que se pressente.
[…]
Gao, Xingjian (2001). Instantâneos. In Uma Cana de Pesca para o Meu Avô (3ª ed.).
(Carlos Aboim de Brito, Trad.). Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. 100-101.


Páginas Paralelas:
Gao Xingjian’s Biography and Nobel Letcure
Gao Xingjian’s art work
«Prix Nobel de littérature 2000, poète, dramaturge, peintre, Gao Xingjian a choisi Marseille pour s'y installer durant une année. "L'Année Gao à Marseille" a été pour l'artiste un défi fou et osé : Art plastiques, Théâtre, Opéra, Colloque international, Cinéma, autant d'œuvres inédites d'une éthique métaphysique rare et présentées aux Marseillais comme une démarche volontaire d'Art Total, avec comme Commissaire général Salvatore Lombardo. La réalisation de Alain Melka nous révèle, tout en poésie et pudeur, une œuvre majestueuse et unique, mais surtout un homme, Gao Xingjian, épris de liberté artistique et humaine. "Un oiseau dans la ville", les ailes du langage absolu.»
Alain Melka (2003). "L'Année Gao à Marseille". Digital Media Production:
          Part 1
          Part 2

segunda-feira, 4 de março de 2013

Auto da Barca do Inferno
[excerto]

[…]

Chega um Onzeneiro, e diz:
Onzeneiro       Oh da barca tão valente!
                        Pera onde caminhais?
Diabo              Oh que ma ora venhais,
                        onzeneiro meu parente!
                        Como tardaste vós tanto?
Onzeneiro       Mais quisera eu lá tardar;
                        na safra do apanhar
                        me deu Saturno quebranto.
Diabo              Ora muito m’eu espanto
                        não vos livrar o dinheiro.
Onzeneiro       Nem tam soes pera o barqueiro,
                        não me deixaram nem tanto.

Diabo              Ora entrai, entrai aqui.
Onzeneiro       Não hei eu i de embarcar.
Diabo              Oh que gentil recear,
                        e que cousas pera mi!
Onzeneiro       Ind’agora faleci,
                        deixai-me buscar batel.
Diabo              Pesar de Jam Pimentel!
                        Porque não irás aqui?

Onzeneiro       E pera onde é a viagem?
Diabo              Pera onde tu hás d’ir,
                        estamos pera partir:
                        não cures de mais linguagem.
Onzeneiro       Mas pera onde é a passagem?
Diabo              Pera a infernal comarca.
Onzeneiro       Dixe, não m’embarco eu nessa barca;
                        est'outra tem a vantagem.

                        (Vai-se à barca do Anjo)

                        Ou da barca, ou lá, ou!
                        haveis logo de partir?
Anjo                E onde queres tu ir?
Onzeneiro       Eu pera o Paraíso vou.
Anjo                Pois cant’e eu bem fora estou
                        de te levar pera lá:
                        ess’outra te levará;
                        vai pera quem t’enganou.

Onzeneiro       Porque?
Anjo                Porqu’esse bolsão
                        tomara todo o navio.
Onzeneiro       Juro a Deus que vai vazio.
Anjo                Não já no teu coração.
Onzeneiro       Lá me ficam de rondão
                        vinte e seis milhões n’ũa arca.
Diabo              Pois que onzena tanto abarca,
                        não lhe deis embarcação.

                        (Torna ao Diabo)

                        Ou lá, ou demo barqueiro,
                        sabeis vós no que me fundo?
                        Quero lá tornar ao mundo,
                        e trazer o meu dinheiro,
                        qu’aquel’outro marinheiro
                        porque me vê vir sem nada,
                        dá-me tanta borregada,
                        como arrais lá do Barreiro.
Diabo              Entra, entra, e remarás;
                        não percamos mais maré.
Onzeneiro       Todavia…
Diabo              Por força é:
                        que te pês, cá entrarás;
                        irás servir Satanás,
                        pois que sempre t’ajudou.
Onzeneiro       Oh triste! quem me cegou!
Diabo              Cal’-te, que cá chorarás.

                        (Entretanto no batel, diz ao Fidalgo)

Onzeneiro       Santa Joana de Valdez!
                        Cá é Vossa Senhoria?
Fidalgo            Dá ó demo a cortesia.
Diabo              Ouvis? falai vós cortês.
                        Vós, fidalgo, cuidareis
                        que estais em vossa pousada?
                        dar-vos-ei tanta pancada
                        c’um remo, que arrenegueis.

[…]


Vicente, Gil (s.d.). Auto da Barca do Inferno.
In Teatro. Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 36-38.

  
Páginas Paralelas:
“Auto da Barca do Inferno” por Cultural Kids, com encenação de António Feio (2010) – vídeo [excerto]
Página Web do Teatro Académico de Gil Vicente, da Universidade de Coimbra

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Gil Vicente na horta
Teatro Nacional D. Maria II
20 OUT - 2 DEZ 2012
Peça construída a partir de O Velho da horta, apresentada a D. Manuel no ano de 1512, e outros textos de Gil Vicente, primeiro autor de língua portuguesa que faz a transição da época Medieval para a época do Renascimento. Nesta farsa, onde se exalta a vitória da juventude contra a velhice e a morte, o espectador é colocado perante uma intriga engenhosamente construída. Um reencontro com a feira alegórica de personagens vicentinas, com as suas questões metateatrais, com o pensamento das sátiras e costumes.
O Velho da horta é uma peça de enredo, na qual se desenvolve uma ação contínua e encadeada com uma personagem marcada pelo conflito entre a razão e o sentimento amoroso: "Que morrer é acabar e amor não tem saída". A partir do sonho-pesadelo do Velho, evocam-se ainda neste espetáculo algumas das mais importantes obras de Gil Vicente: Todo o mundo e ninguém, Barca do Inferno, Auto da Cananeia, Auto da Alma, Auto da Festa, Auto Pastoril Português, Tragicomédia do Inverno e Verão e Auto da Índia.
A intemporalidade da obra de Gil Vicente é recuperada neste espetáculo popular, sagrado e profano que atravessa o tempo até aos dias de hoje com uma acutilante perspetiva sobre a sociedade contemporânea.
FICHA ARTÍSTICA
a partir de O Velho da horta e outros textos de Gil Vicente
versão cénica e encenação João Mota
com João Grosso, José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Alexandre Lopes, Marco Paiva, Simon Frankel e Bernardo Chatillon, Joana Cotrim, Jorge Albuquerque, Lita Pedreira, Luis Geraldo e Maria Jorge.

figurinos Carlos Paulo
desenho de luz José Carlos Nascimento
direção musical e sonoplastia Hugo Franco
máquina de cena Eric da Costa

produção TNDM II

M/ 12
Informação disponível no site do Teatro Nacional D.Maria II

terça-feira, 28 de junho de 2011

Samuel Beckett, Excerto de "Waiting for Godot"

ESTRAGON:
People are bloody ignorant apes.
He rises painfully, goes limping to extreme left, halts, gazes into distance off with his hand screening his eyes, turns, goes to extreme right, gazes into distance. Vladimir watches him, then goes and picks up the boot, peers into it, drops it hastily.
VLADIMIR:
Pah!
He spits. Estragon moves to center, halts with his back to auditorium.
ESTRAGON:
Charming spot. (He turns, advances to front, halts facing auditorium.) Inspiring prospects. (He turns to Vladimir.) Let's go.
VLADIMIR:
We can't.
ESTRAGON:
Why not?
VLADIMIR:
We're waiting for Godot.
ESTRAGON:
(despairingly). Ah! (Pause.) You're sure it was here?
VLADIMIR:
What?
ESTRAGON:
That we were to wait.
VLADIMIR:
He said by the tree. (They look at the tree.) Do you see any others?
ESTRAGON:
What is it?
VLADIMIR:
I don't know. A willow.
ESTRAGON:
Where are the leaves?
VLADIMIR:
 It must be dead.
ESTRAGON:
No more weeping.
VLADIMIR:
Or perhaps it's not the season.
ESTRAGON:
Looks to me more like a bush.
VLADIMIR:
A shrub.
ESTRAGON:
A bush.
VLADIMIR:
A—. What are you insinuating? That we've come to the wrong place?
ESTRAGON:
He should be here.
VLADIMIR:
He didn't say for sure he'd come.
ESTRAGON:
And if he doesn't come?
VLADIMIR:
We'll come back tomorrow.

Excerto do Acto I da peça Waiting for Godot, de Samuel Beckett, estreada em Janeiro de 1953, no Théâtre de Babylone, em Paris. Disponível em http://www.samuel-beckett.net/Waiting_for_Godot_Part1.html