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segunda-feira, 4 de março de 2013

Auto da Barca do Inferno
[excerto]

[…]

Chega um Onzeneiro, e diz:
Onzeneiro       Oh da barca tão valente!
                        Pera onde caminhais?
Diabo              Oh que ma ora venhais,
                        onzeneiro meu parente!
                        Como tardaste vós tanto?
Onzeneiro       Mais quisera eu lá tardar;
                        na safra do apanhar
                        me deu Saturno quebranto.
Diabo              Ora muito m’eu espanto
                        não vos livrar o dinheiro.
Onzeneiro       Nem tam soes pera o barqueiro,
                        não me deixaram nem tanto.

Diabo              Ora entrai, entrai aqui.
Onzeneiro       Não hei eu i de embarcar.
Diabo              Oh que gentil recear,
                        e que cousas pera mi!
Onzeneiro       Ind’agora faleci,
                        deixai-me buscar batel.
Diabo              Pesar de Jam Pimentel!
                        Porque não irás aqui?

Onzeneiro       E pera onde é a viagem?
Diabo              Pera onde tu hás d’ir,
                        estamos pera partir:
                        não cures de mais linguagem.
Onzeneiro       Mas pera onde é a passagem?
Diabo              Pera a infernal comarca.
Onzeneiro       Dixe, não m’embarco eu nessa barca;
                        est'outra tem a vantagem.

                        (Vai-se à barca do Anjo)

                        Ou da barca, ou lá, ou!
                        haveis logo de partir?
Anjo                E onde queres tu ir?
Onzeneiro       Eu pera o Paraíso vou.
Anjo                Pois cant’e eu bem fora estou
                        de te levar pera lá:
                        ess’outra te levará;
                        vai pera quem t’enganou.

Onzeneiro       Porque?
Anjo                Porqu’esse bolsão
                        tomara todo o navio.
Onzeneiro       Juro a Deus que vai vazio.
Anjo                Não já no teu coração.
Onzeneiro       Lá me ficam de rondão
                        vinte e seis milhões n’ũa arca.
Diabo              Pois que onzena tanto abarca,
                        não lhe deis embarcação.

                        (Torna ao Diabo)

                        Ou lá, ou demo barqueiro,
                        sabeis vós no que me fundo?
                        Quero lá tornar ao mundo,
                        e trazer o meu dinheiro,
                        qu’aquel’outro marinheiro
                        porque me vê vir sem nada,
                        dá-me tanta borregada,
                        como arrais lá do Barreiro.
Diabo              Entra, entra, e remarás;
                        não percamos mais maré.
Onzeneiro       Todavia…
Diabo              Por força é:
                        que te pês, cá entrarás;
                        irás servir Satanás,
                        pois que sempre t’ajudou.
Onzeneiro       Oh triste! quem me cegou!
Diabo              Cal’-te, que cá chorarás.

                        (Entretanto no batel, diz ao Fidalgo)

Onzeneiro       Santa Joana de Valdez!
                        Cá é Vossa Senhoria?
Fidalgo            Dá ó demo a cortesia.
Diabo              Ouvis? falai vós cortês.
                        Vós, fidalgo, cuidareis
                        que estais em vossa pousada?
                        dar-vos-ei tanta pancada
                        c’um remo, que arrenegueis.

[…]


Vicente, Gil (s.d.). Auto da Barca do Inferno.
In Teatro. Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 36-38.

  
Páginas Paralelas:
“Auto da Barca do Inferno” por Cultural Kids, com encenação de António Feio (2010) – vídeo [excerto]
Página Web do Teatro Académico de Gil Vicente, da Universidade de Coimbra

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Gil Vicente na horta
Teatro Nacional D. Maria II
20 OUT - 2 DEZ 2012
Peça construída a partir de O Velho da horta, apresentada a D. Manuel no ano de 1512, e outros textos de Gil Vicente, primeiro autor de língua portuguesa que faz a transição da época Medieval para a época do Renascimento. Nesta farsa, onde se exalta a vitória da juventude contra a velhice e a morte, o espectador é colocado perante uma intriga engenhosamente construída. Um reencontro com a feira alegórica de personagens vicentinas, com as suas questões metateatrais, com o pensamento das sátiras e costumes.
O Velho da horta é uma peça de enredo, na qual se desenvolve uma ação contínua e encadeada com uma personagem marcada pelo conflito entre a razão e o sentimento amoroso: "Que morrer é acabar e amor não tem saída". A partir do sonho-pesadelo do Velho, evocam-se ainda neste espetáculo algumas das mais importantes obras de Gil Vicente: Todo o mundo e ninguém, Barca do Inferno, Auto da Cananeia, Auto da Alma, Auto da Festa, Auto Pastoril Português, Tragicomédia do Inverno e Verão e Auto da Índia.
A intemporalidade da obra de Gil Vicente é recuperada neste espetáculo popular, sagrado e profano que atravessa o tempo até aos dias de hoje com uma acutilante perspetiva sobre a sociedade contemporânea.
FICHA ARTÍSTICA
a partir de O Velho da horta e outros textos de Gil Vicente
versão cénica e encenação João Mota
com João Grosso, José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Alexandre Lopes, Marco Paiva, Simon Frankel e Bernardo Chatillon, Joana Cotrim, Jorge Albuquerque, Lita Pedreira, Luis Geraldo e Maria Jorge.

figurinos Carlos Paulo
desenho de luz José Carlos Nascimento
direção musical e sonoplastia Hugo Franco
máquina de cena Eric da Costa

produção TNDM II

M/ 12
Informação disponível no site do Teatro Nacional D.Maria II