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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Manuel António Pina, "Arte poética"

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultadamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina (2011). "Arte poética".
In Poesia, saudade da prosa. Uma antologia pessoal.
Lisboa: Assírio & Alvim: p.7

terça-feira, 7 de maio de 2013

Manuel António Pina, "Esplanada"

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
Manuel António Pina (2011). "Esplanada".
In Poesia, saudade da prosa. Uma antologia pessoal.
Lisboa: Assírio & Alvim: p. 50

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Manuel António Pina, Excerto de "História do Sábio fechado na sua Biblioteca"

"[...]
Como sabia todas as coisas e não tinha nada de novo para saber e conhecer, a sua vida era muito triste e desinteressante. Era uma vida sem espanto, onde nada de novo e surpreendente acontecia e todos os dias eram iguais a todos os dias. Mesmo coisas tão estranhas e misteriosas, como, por exemplo, os cortinados do quarto agitando-se, à noite, ou os móveis rangendo como se falassem uns com os outros, não tinham para ele qualquer mistério.

Às vezes apetecia ao sábio não saber qualquer coisa, poder perguntar a alguém qualquer coisa que não soubesse. Por exemplo, poder perguntar as horas; ou «Que dia é hoje?»; ou «Tem passado bem?» a alguém. Mas vivia fechado na sua Biblioteca e não tinha ninguém a quem perguntar nada. E, mesmo se tivesse, mal acabava de pensar numa pergunta, já sabia a resposta antes que lhe respondessem.

[...]"
Extraído de História do Sábio fechado na sua Biblioteca. Lisboa: Assírio & Alvim: 2009: p. 9.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Manuel António Pina, "O livro"

E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.

Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.

Notas
Vs. 1 e 2, do Talmude; v. 9, Villon; v. 12, Tchouang Tseu.

Extraído de Os Livros. Lisboa: Assírio & Alvim: 2003: p. 9

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Manuel António Pina, "O sorriso"

 



Manuel António Pina (2009). "O sorriso". In O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal. Porto: Porto Editora: pp.  5-10

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

No ano da morte de Manuel António Pina, muitos foram os grandes criadores que nos deixaram.

Durante este final de ano queremos prestar-lhes a nossa humilde homenagem, como prova de gratidão por tudo o que nos deixaram de bom e de belo.


Manuel António Pina (1943-2012)


      Foto de Alfredo Cunha 
      Fonte: No Vazio da Onda


BASTA IMAGINAR

Basta imaginar
um pássaro para o aprisionar,
e depois imaginar o ar para o libertar
e imaginar asas para ele voar
e imaginar uma canção para ele cantar.

Manuel António Pina (2005). O Pássaro da Cabeça. Ilustrações de Joana Quental. Vila Nova de Famalicão. Quasi Edições. Publicado pela primeria vez em 1983, com colagens de Maria Priscila Soares (A Regra do Jogo, Ed.)

Leia o livro todo no sítio Cata Livros (Fundação Calouste Gulbenkian/Casa da Leitura)

Páginas Paralelas:

Museu da Imprensa presta homenagem a Manuel António Pina

Manuel António Pina (Infopédia)

Nova edição de O Pássaro da Cabeça, com imagens de Ilda David (Assírio & Alvim)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Manuel António Pina (1943-2012)

Havia uma flor!
Nem eu sabia
onde é que a flor havia,
mas tanto fazia.

Talvez houvesse
onde ninguém soubesse
ou fosse uma flor de estar a haver
só na minha imaginação,
ou não fosse uma flor, fosse uma canção.

Nem a flor sabia
que existia.
Em qualquer sítio, sem saber, floria.
E se fosse uma canção cantava e não se ouvia.

E isso acontecia
no meu coração.
Não sei se era uma flor se uma melodia,
era qualquer coisa que havia,
e cantava e floria,
dentro de mim sem razão.

Ia pela rua e ninguém diria.
As pessoas passavam
e eu dizia:
"Bom dia!"
E ninguém suspeitava
o bom dia que fazia
em qualquer sítio
que dentro de mim havia!
Só eu sabia e sorria,
Levando-te pela mão.

Manuel António Pina (1995). O Tepluquê e outras histórias. Porto: Edições Afrontamento

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Manuel António Pina (1943-2012)

Não desfazendo


Nada do que existe
nos cai do céu na cabeça.
Nem a chuva, embora pareça:
até ela estava cá em baixo a existir
antes de ser chuva e cair!

Mais ou menos perfeito ou imperfeito,
tudo o que existe foi feito
e, antes de ser feito, desfeito.

Com água, luz e vento
a Terra se foi fazendo;
o distante Sol está ardendo
há milhões de anos e morrendo.
O lavrador deitou à terra a semente,
o operário fez a enxada e a charrua,
o cantor canta no palco, o actor actua,
o inventor inventa o inexistente.
Foi feita a cama,
feito o pijama,
com fogo e esforço
se fez o almoço.
Quem faz agora este alvoroço
toda a tarde a brincar e a correr
enchendo de alegria a casa inteira?
Oh, que é feito do tempo da brincadeira 
em que não havia nada que fazer?
Manuel António Pina (2005) O Pássaro da Cabeça.
V. N. de Famalicão: Quasi Edições: s.p.; ilustrações de Joana Quental

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Via Poema Possível



Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

(in Como se desenha uma casa; Assírio & Alvim, 2011)
Página paralela

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Manuel António Pina, Excerto de "O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal", ilustrado por Inês do Carmo



Manuel António Pina (2009). O cavalinho de pau do Menino Jesus e outros contos de Natal.
Porto: Porto Editora.
Ilustrações de Inês do Carmo. pp. 6-7.




Esta é a última das páginas que diariamente tem recebido, desde 13 de Maio de 2011. Ao voltá-la, queremos desejar a todos uma feliz época festiva, com uma entrada em 2012 cheia de esperança.
A equipa de "Uma página por dia"

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Manuel António Pina, Excerto de “A Língua Que os Livros “Para” Crianças Falam”


 […]
Esta é, como de início adverti, a perspectiva particular de um particular escritor de livros, alguns deles provavelmente “para” crianças, ou também “para” crianças (porque sei lá para quem os livros que escrevo são!). Nada é decerto tão perigoso do que a certeza de que se tem razão, e estou convicto de que outros escritores com experiências literárias substancialmente diferentes hão-de dizer, sobre a matéria, coisas do mesmo modo substancialmente diferentes. Por outro lado, a verdade é que a perspectiva literária sobre a literatura não é a única possível. No caso da literatura “para” crianças, a “língua que os livros falam” pode ser, por exemplo, e durante séculos foi [e ainda hoje muitas vezes é], principalmente a da educação – moral, religiosa, ou outra – ou seja, a da razão.
Mas eu não sou um educador, e a única forma de educação que sou capaz de vislumbrar na literatura é a educação para a liberdade. Não a liberdade política, ou as diferentes liberdades em que a liberdade política pode analisar-se, mas a liberté libre (e talvez se possa igualmente dizer liberte livre) de Rimbaud.
[…]
Durante muito tempo, os temas da literatura “para” crianças eram limitados, em virtude, principalmente, da sua assumida função “educativa” e das próprias concepções dominantes de “educação”.
[…]
A importância da literatura para a criança, como para o adulto, é que ela é um “organizador fundamental”, que protege a vida contra a automatização e contra a “tragédia da rotina” que ameaça a afectividade e as relações. No caso da criança, a literatura pode ajudá-la a transformar-se naquilo que ela mais profundamente é. Seguindo ainda uma vez a lição de Jacobson sobre poesia, a criança que lê torna-se diferente, brinca diferentemente, relaciona-se diferentemente com o mundo e consigo mesma, ama diferentemente, exprime-se e comove-se diferentemente. Porque a literatura, provavelmente mais e mais profundamente do que a “educação”, transforma.
O momento da leitura [mesmo quando alguém lê para nós, ou quando lemos em conjunto] é um momento de solidão e de liberdade. Ler é decifrar-se, ler-se a si mesmo naquilo que se lê. A responsabilidade do escritor vem principalmente daí. Steiner cita um salmo que fala de “pôr a mão sobre o ser essencial do outro”. É algo parecido que se passa no mágico e intenso momento de partilha de identidades em que a escrita se encontra com a leitura. Nesse momento, todo o leitor é sempre uma criança, tão vulnerável quanto o próprio escritor, com que se confunde, pois do mesmo modo que o escritor é um leitor lendo-se por escrito, também cada leitor [ou, talvez melhor, cada leitura] reescreve o que lê e se inscreve no que lê.
A literatura, diz Pound, é linguagem carregada de sentido; de sentidos, digo eu, pois que uma obra literária é um espaço aberto e evasivo de sentidos, de todos os sentidos que as palavras fazem e não fazem e dos sentidos que o próprio sentido umas vezes faz e outras vezes não faz.
Por isso é que, do ponto de vista de um escritor [e também de um leitor] de literatura, a língua que os livros falam, e particularmente a língua que os livros de literatura “para” crianças falam, é fundamentalmente a da liberdade, uma língua multímoda em cujo interior tudo é possível, o dito, o não dito, o interdito e o entredito. Como nos jogos infantis de faz de conta.
Talvez a infância seja uma espécie de ficção que contamos a nós mesmos. Às vezes sob a forma de literatura “para” crianças. E, quem sabe?, “dirigindo-a” [mesmo se não nos apercebemos disso] a nós mesmos, ou àquilo que, em nós mesmos, profundamente somos, mais talvez do que às próprias crianças.

Manuel António Pina (2010). “A Língua Que os Livros “Para” Crianças Falam”. In Duarte, Rita Taborda (coord.). XVIII Encontro de Literatura para Crianças Palavra de Trapos. A Língua que os Livros Falam. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. pp. 20-23