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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Aventuras e Desventuras de um Abiador na Lusolândia
de José A. Teixeira

Aproveitamos para divulgar mais uma obra da autoria de um aluno do Instituto Politécnico de Beja, do curso de Turismo, também ela ligada às viagens…

Trata-se de Aventuras e Desventuras de um Abiador na Lusolândia, de José A. Teixeira, lançado no passado dia 8 de setembro, em Lisboa.


A crónica confere ao autor a ligeireza e o à-vontade da comunicação.
Neste livro são narrados de forma despretensiosa algumas das histórias que o autor vivenciou durante mais de trinta anos como Controlador de Tráfego Aéreo. No meio do stress diário que compõe esta profissão, existe o imprevisto, o sentido do dever e também a componente da nossa vida que não podemos esquecer: a boa disposição. Uma profissão tão exigente também pode ser um foco de histórias e desacertos. Nos tempos difíceis que correm, um sorriso ainda relaxa os músculos da face e contribui para diminuir o stress, melhora a circulação sanguínea e ajuda a sacudir o tédio.
Os portugueses, os americanos, os egípcios, os marroquinos, todos diferentes e juntos nas mesmas histórias, dão um tom colorido a este mundo cada vez mais cinzento.
Texto disponível no site da Editora.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A propósito de outras viagens...

Frédéric Kelzank Ravach foi aluno do Instituto Politécnico de Beja onde se licenciou em Artes Plásticas e Multimédia, tendo prosseguido os seus estudos de Animação na Bélgica.

Agora vem propor-vos a participação na sua primeira curta-metragem, pelo processo de crowdfunding de que já aqui falámos.

Colabore! Veja como...

Kelzang présente

Shua

SHUA, the boy who was never born, est le premier court-métrage écrit et réalisé par Kelzang Ravach. Shua est un petit garçon de 7 ans qui gambade dans les rues d’une grande métropole, il s’imagine orchestrer la ville, les portes automatiques, les escaliers roulants, les ascenseurs , mais voila qu’un jour, un train prend son envol devant ses yeux! Le petit garçon est entrainé dans un voyage sans dessus-dessous, au coeur d’un monde aux antipodes du sien. Il va y rencontrer une ribambelle de personnages loufoques et se trouvera confronté au paradoxe, à l’absurde et à l’étrange…


Páginas paralelas:

Organic Machine (trailer) - filme realizado por Kelzang Ravach, como trabalho de fim de curso no IPBeja

terça-feira, 4 de outubro de 2011

John Grogan, Excerto de "Marley & Eu"


Marley  não abanava apenas a cauda. Abanava o corpo todo, começando pelas partes dianteiras e prolongando todo o movimento para trás. Era como a versão canina de um Slinky. Parecia-nos que não tinha ossos, mas tão-só um grande músculo elástico. Jenny começou a chamar-lhe Mr. Wiggles. E não havia altura em que se abanasse mais do que quando tinha qualquer coisa na boca. A sua reacção a qualquer situação era sempre a mesma: agarrar o sapato ou o lápis mais próximo – qualquer objecto servia, na verdade – e correr com ele. Parecia haver uma pequena voz na sua cabeça a sussurrar-lhe: força! Apanha-o! Baba-o todo! Corre!
Alguns dos objectos que ele apanhava eram suficientemente pequenos para serem dissimulados, o que parecia agradar-lhe especialmente - parecia pensar que estava a conseguir ludibriar-nos. Mas Marley jamais daria um bom jogador de póquer. Quando tinha alguma coisa para esconder, não conseguia disfarçar o seu júbilo. Punha sempre um ar empertigado, até explodir numa espécie de frenesim maníaco, como se tivesse levado um pontapé no traseiro de um folião invisível. O seu corpo começava a tremer, a sua cabeça a abanar de um lado para o outro e o seu traseiro desandava numa espécie de dança espasmódica. Chamávamos a isso o mambo do Marley.
(…)
            A maioria das noites, depois de jantar, saíamos os dois com ele até à marginal, onde caminhávamos ao longo do canal enquanto os iates de Palm  Beach passavam indolentemente ao pôr do Sol.
              Caminhar é provavelmente a palavra errada. Marley passeava como uma locomotiva em fuga. Corria à frente, debatendo-se com a trela com todas as  suas forças, enrouquecendo e quase sufocando na sua obstinação. Nós puxávamo-lo para trás. Ele arrastava-nos para a frente. Nós puxávamos e ele rebocava-nos, arfando como um fumador compulsivo, estrangulado pela coleira. Guiava para a esquerda e para a direita, disparando para todas as caixas de correio e arbustos, farejando, arquejando e urinando descontroladamente, acabando por se molhar mais a si próprio, do que ao alvo pretendido.
            Descrevia círculos à nossa volta, enredando-nos a trela nos tornozelos antes de pular novamente para a frente, quase nos atirando ao chão. Quando alguém se aproximava com outro cão, Marley dardejava em direcção a eles, rejubilante, erguendo-se nas patas detrás quando chegava ao fim da trela, ansioso por fazer novos amigos.
John Grogan (2006). Marley & Eu: A vida e amor do pior cão do mundo.
(Pedro Serras Pereira, Trad.). Lisboa: Casa das Letras. pp. 47-49.

Ilustração inédita de Alexandra Lota*

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Alexandra Lota, "Abismo"


Um caminho sigo, sem parar.
Os meus pés simplesmente vão e para trás a minha mente ficou.
Os meus olhos vidram o passado, para a frente querem olhar mas nada vêem...
Vazio...
É tudo o que existe.
Uma camada esconde os meus olhos, como a Lua esconde o Sol num eclipse.
A minha mente divaga por aí, e o meu corpo, sem alma, simplesmente anda.
Mas parece que por mais passos que dê... o cenário apenas escurece, como se recuassem no tempo. Como se tudo se movesse e apenas eu fico no mesmo local.
Penso: “Nada mais do que é poderia ser pior”
Ironia.
A Terra treme.
O chão abre-se.
E eu?
Caio
Caio num vazio sem fim.
Um vazio frio e moribundo.
Não importa, nada mais importa.
Quase não se vê a luz lá em cima.
Sou apenas um pedaço de carne.
Nada importa.
Ninguém para me agarrar.
Ninguém para me salvar.
Ninguém para lavar as minhas mágoas.
Ninguém para me dizer “adoro-te, sê forte, força!”
Estou sozinha...
Apenas tu importavas e nem tu me salvaste, deixaste-me cair.
Neste abismo de desespero, de tristezas e mágoas, de confiança destruída, de promessas e juras esquecidas!
Eu tinha tudo!
Agora não tenho nada...
Não tenho forças.
Não tenho alegrias.
O meu sorriso desapareceu.
O que de mim restava, fugiu contigo.
E aqui ficaram carne e ossos, abandonados pelo espírito.
Um final feliz? É o que se espera.
Ao fundo cheguei...


E aqui

Fiquei

Poema inédito de Alexandra Lota
Nota: Alexandra Lota é aluna do 2º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

António Peleja, "Tela"


Quando os dias se encolhem
e a luz se vai recolhendo
abandono a tua pele
feita de mil cores

Repouso o pincel
e bebo em ti os momentos
que jamais vivi
sinto o cheiro das tintas
e labuzo o rosto
com restos de sépia
das vidas que hoje criei

Só crio o que a minha mente alcança
só crio sonhos de criança
só crio o que nada muda
quem me dera poder criar
vida, esperança, realidades coloridas

Quem me dera poder dar-vos pinceladas multicoloridas
Qual quadros de Dali, Van Gogh, Miró ou Picasso
Quem me dera que fácil fosse assim pintar vidas
quem me dera poder encerrar em mim todas as tristezas
quem me dera poder calar a fome no mundo

 Pintar telas onde a vida seria simplesmente bela
onde o amor se respirava
onde sorrir fazia parte de nós
onde amar era a luz que iluminava os nossos corpos
Na pintura posso ser quem eu sou

Poema inédito de António Peleja

Nota: António Peleja é aluno do 2º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Adriano Guerreiro e Manuel Ribeiro, "O Fim"


        Acordo. Onde estou? Nunca vi este sítio. Nunca estive neste sítio. O que é que se passou? Levanto-me. Sinto-me sem forças. Ainda assim, começo a andar. Procuro saber o que se passou. Ninguém. Não vejo ninguém. Há muita desarrumação. Papéis. Vejo papéis e pego num. Tento ler. Parecem papéis de hospital. Se calhar estou num hospital e estou doente. Vejo os sinais de <Saída> e sigo-os.


Saio. Na rua, não há ninguém. Não há vestígios de ninguém. Há muita desarrumação na rua e no meio disto tudo não há nada. Está tudo cinzento. Parece que ardeu tudo. Até o céu parece que ardeu. Não há vestígios de nada com vida. Caminho por este sítio. Saio deste sítio. Caminho por um caminho e sinto-me sem forças.
Paro. Sento-me. Descanso. Não há vestígios de nada. Sem forças levanto-me. Olho para trás e reparo que o sítio que deixei para trás é uma pequena vila em ruínas. O que é que se passou? Deixo a vila para trás e caminho em busca de água. Um ribeiro. Não há vestígios de nada com vida. De repente, pareceu-me ter visto algo verde. De pequeno tamanho mas, ainda assim, verde. Olho à volta à procura.

        
       Talvez tenha sido uma alucinação. Continuo à procura e, finalmente, encontro. Aproximo-me com curiosidade de saber o que seja. Reparo que é uma belíssima pequena flor. No meio de tudo isto sem nada existe esta pequena flor. Olho em volta em busca de mais alguma. Não há mais nenhuma. Olho novamente para a flor e confirmo se não será uma alucinação.
A flor está aqui comigo. Não há mais vestígios de nada com vida. Sento-me. Contemplo a flor. A sua beleza é divinal e a sua existência é um milagre. Aproximo-me da flor. É realmente bela. Penso que poderia passar aqui o resto dos meus poucos dias de vida. A flor dança para mim com o vento e ao som do vento. De certa forma, a flor parece que se ri para mim. Eu rio-me para ela. O vento cala-se e a dança acaba. Para agradecer à flor a sua dança, aproximo-me mais e tento beijá-la. Fecho os olhos e aproximo-me ainda mais.
Beijo-a. Sinto as suas pétalas nos meus lábios e sinto o seu perfume. Por segundos, aprecio a delicadeza do momento. Abro os olhos. Reparo que, entretanto, caiu uma pétala. Estupefacto com o acontecimento, afasto-me um pouco. Acreditando que a culpa fosse do vento e não minha, aproximo-me outra vez e tento mais um beijo. Desta vez, o toque da flor é mais intenso. De olhos fechados, sinto o toque de cada pétala nos meus lábios. Abro os meus olhos e, para meu espanto, vejo que caíram todas as pétalas, à excepção de uma.
Facas. Sinto que o meu beijo e a minha paixão mataram esta flor. Sinto facas a cortarem-me por dentro. Sinto facas a cortarem o momento e sinto que o toque do meu beijo foi como o golpe de uma destas facas que me rasgam. Frágil, a minha flor parece que tenta mais uma dança ao vento. Afasto-me um pouco e contemplo o momento. Mas depressa me apercebo que não há vento. Não há dança. A flor, cada vez mais inclinada, deixa cair a sua última pétala e acaba por cair no chão por cima de todas as suas pétalas. Com as facas a rasgarem-me cada vez mais, sinto-me quase morto. Sem forças enterro a flor e as pétalas com a esperança de que a flor nascerá outra vez para mim. E assim aqui fico. Aqui fico a olhar para o monte da terra. Aqui fico e com as minhas lágrimas rego a minha flor.
À tua espera, aqui ficarei…
Texto inédito de Adriano Guerreiro, com ilustrações de Manuel Ribeiro
Nota: Adriano Guerreiro e Manuel Ribeiro são alunos do 2º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Célia Mestre, "Seda"


Seda líquida cristalina
Que lhe escorre pelos dedos
Ávidos, na sua ignorância impaciente
Agora nos antebraços, o Amor flui, premente
Desesperado: - Sou teu...
Ela não compreende.
 
Deixou cair a cabeça sobre os pulsos
E os lábios tocaram a seiva mensageira
Não pôde evitar um sorriso
Semicerrou os olhos
E uma lágrima, apenas húmida, juntou-se ao Amor...
Sem pressa, esquecida e já esclarecida.

 Então, ela beijou de levezinho
A boca do homem agarrado a si
Quis tranquilizá-lo
Quis tranquilizar-se também
A coragem aprisionou-lhe a dúvida
A razão chamou eterno ao Amor
Só então respondeu: - Sim... Sim, és meu.
 
Célia Mestre, 1995 (Inédito)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Inês Snyckers, "The Cage"

I looked outside my window in the morning. It was a glorious day, with skies of endless blue and birds chirping happily and free, drifting on the breeze. It was beautiful and scary. I quickly closed the curtains. My room was small, dark, dusty and messy, but those walls that engulfed me gave me all the safety I needed. It was enough for me, and I hadn’t gone outside that room for ten long years. My books gave me freedom equivalent to that of the birds that flew outside my window in the mornings, and for me it was pure bliss. Every time I read one, it was as if the door to my cage had been opened.

One day, a huge storm rustled in the trees and bushes until dawn. When I woke up, the silence or absence of birds startled me and, despite my fear, I approached my window. I flung open the dark brown curtains, and before me there stood a young boy. He was perhaps an elementary student, and shouldn’t have been older than seven. His hair was messy and hid most of his freckled face, while water drops fell from his shorts onto his bare feet.

He did not mouth a single word. He just stood there silently, staring at me, as if he was beckoning me to follow him. He waited there and I stood as motionless as him. I wanted to leave, I really did, but the fear of that open field and endless skies kept me from doing so. We stared at each other for what seemed like hours and then, with a fast precise but gentle gesture, the little boy held his hand to me.

The walls suddenly felt tight, and the air was suffocating. I couldn’t breathe. I opened my window and held the hand stretched out towards me. From that moment I felt free.

(Inédito) Beja, 05.01.2011
Nota: Inês Snyckers é aluna do 1º ano do curso de Artes Plásticas e Multimédia do IPBeja.