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quinta-feira, 27 de março de 2014


Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice
[excerto]



[…]

7

Iludia-me. A morte, que é o fim
do amor, corria à solta nos temporais
da alma. Eu podia ter uma consciência
da sua presença nalguns intervalos bruscos,
quando os teus passos me faltavam, e
só uma nova respiração, atrás de mim, me
restituía o ânimo da ascensão. Tu,
liberta dessa morte que te prendia os lábios,
dizias-me: não me deixes! Como se fosse
preciso dizê-lo! E não fosses tu a única
razão dessa viagem a que dei o nome
vida, sabendo que a sua única verdade é esse
amor. Porém, os nossos lábios não se
encontravam na certeza do tempo.
O futuro instalou a sua distância naquilo
que é o presente, com a sua duração inscrita
no destino dos que conheceram uma
coincidência de um e outro, o olhar uníssono
dos amantes, o brusco repouso de uma
ânsia de espaço. Aqui, a distância é o que não
separa; o medo da mudança dissipa-se;
e a recordação é o que está depois do que foi
vivido, como se fosse a memória a construir
o dia de amanhã.

Quis arrancar-te, assim, ao destino ― e
libertar-me, eu próprio, da sua sujeição. Quantos
rostos se fixaram no teu, para que em ti
eu visse cada uma das imagens por onde passei,
restituindo-lhes uma respiração humana. Procurei-te
enquanto imaginei que me procuravas ― e
cada passo que dava, na minha descida, afastava
tudo o que eu perdia enquanto descia. Nesse outro
mundo, em que nos reduzimos a nós, afastando
do que somos tudo o que nos opunha,
não dei por que um cansaço de ser me obrigava
ao regresso. Tê-lo-ei feito cedo demais? Por
que me voltei, então, como se soubesse que
as sombras não pedem que as olhemos,
e deixei que te prendessem com a sua
inquietação de fumo?

No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.


Nuno Júdice (2009). «Carta de Orfeu a Eurídice». In: Pedro, Lembrando Inês. Lisboa: Publicações Dom Quixote, pp. 57-58.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Nuno Júdice, "Fragmento de ode"

Como o esboço de uma rosa,
um caule de verão sobe o rio
do teu corpo.

Os seus remos são versos
nesta barca de palavras que
procura a tua fonte.

E quando te encontrar,
a frase do amor abrirá a porta
dos lábios.

Página Paralela:
Blogue de Nuno Júdice, A a Z

segunda-feira, 11 de junho de 2012


Nuno Júdice
RECEITA PARA FAZER O AZUL 

Se quiseres fazer azul, 
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande, 
que possas levar ao lume do horizonte; 
depois mexe o azul com um resto de vermelho 
da madrugada, até que ele se desfaça; 
despeja tudo num bacio bem limpo, 
para que nada reste das impurezas da tarde. 
Por fim, peneira um resto de ouro da areia 
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal. 
Se quiseres, para que as cores se não desprendam 
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado. 
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez 
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre 
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor 
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico. 
Ambas a s cores te parecerão semelhantes, sem que 
possas distinguir entre uma e outra. 
Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim, 
iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser, 
algum dia, imitar o céu. 

Fonte: Nuno Júdice (2000). «Receita para fazer o azul», in: Poesia Reunida 1967-2000. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 600.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nuno Júdice, "A varanda de Julieta"


Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas Julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.


Nuno Júdice (2001). “A Varanda de Julieta”. In: Pedro, Lembrando Inês. Lisboa: Dom Quixote.