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sexta-feira, 8 de março de 2013

Ferreira de Castro
A Selva
[excerto]
       […]
       Não o atraíam esses rios de lendárias fortunas onde os homens se enclausuravam do mundo, numa confrangida labuta para a conquista do oiro negro, lá onde os ecos da civilização só chegavam muito difusamente, como de coisa longínqua, inverosímil quase. Quando desembarcara em Belém, ido de Portugal, a borracha ainda tinha altas cotações e exercia profundo sortilégio sobre todos aqueles que davam ao dinheiro a maior representação da vida. Muitos dos empregados no comércio, vendo a pequenez dos seus ordenados, tão longe do que deles se afirmava na Europa, desertavam dos escritórios e dos balcões e embrenhavam-se Amazonas acima, ansiando maior recompensa ao trabalho, onde quer que ela existisse. Algumas vezes também o haviam tentado essas estradas líquidas que cortavam a selva imensa, mas sempre um pavor instintivo, amálgama do que se dizia de febres perigosas e de vida bárbara e instável, o detivera em Belém. Era então a Amazónia um imã na terra brasileira e para ela convergiam copiosas ambições dos quatro pontos cardeais, porque a riqueza se apresentava de fácil posse, desde que a audácia se antepusesse aos escrúpulos. Com os rebanhos, idos do sertão do Noroeste, demandavam a selva exuberante todos os aventureiros que buscam pepitas de oiro ao longo dos caminhos do Mundo. E como não era na brenha espessa que se encontrava, para os ligeiros de consciência, a aurífera jazida, quedavam-se os ladinos em Belém e Manaus, a traficar com o esforço mitológico dos que, entre todos os perigos, se entregavam à extracção da borracha.
       Fora assim que seu tio enriquecera e tinha já duas quintas em Portugal: fora assim que pobretões sem eira nem beira se transformaram, de um instante para o outro, em donos de «casas aviadoras»1, tão poderosas que sustentavam no dédalo fluvial grande frota de «gaiolas»2. Aos que desbastavam a saúde e a vida no centro da floresta, vendiam por cinquenta aquilo que custava dez e compravam-lhes por dez o que valia cinquenta. E quando o ingénuo conseguia triunfar de toda essa espoliação e descia, sorridente e perturbado pelo contacto com o mundo urbano, a caminho da terra nativa, nos confins do Maranhão ou do Ceará, lá estava Macedo3 com os colegas e as suas hospedarias, que o haviam explorado na subida e agora o exploravam muito mais ainda, com uma intérmina série de ardis, que ia da «vermelhinha», onde se começava por ganhar muito e se acabava por perder tudo, até o latrocínio, executado sob a protecção do álcool.
       De um dia para o outro, o seringueiro de «saldo», que suportava uma dezena de anos na selva, em luta com a natureza implacável, para adquirir os dinheiros necessários ao regresso, via-se sem nada – e sem saber até como o haviam despojado. De novo pobre, com a família e a terra, preocupações constantes do seu exílio, a atraírem-no de longe, ele sufocava, uma vez mais, as saudades, a dor do tempo perdido, e regressava ao seringal, tão miserável como na primeira hora em que lá aportara.
       Todos os cais de Belém a Manaus falavam desses dramas anónimos, dos logros feitos à gente rude que ia desbravando, com desconhecido heroísmo, a selva densa e feroz.
       […]
Castro, Ferreira de (2000). A Selva (39ª ed.).
Lisboa: Guimarães Editores. pp. 28-29.
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__________
Notas nossas:
1 Casas aviadoras: “Situadas em Belém e Manaus, essas casas aviadoras são os estabelecimentos comerciais que se constituíram para abastecer os seringais, deles recebendo, em troca, a borracha produzida e na posse dela realizar as operações de venda para o exterior.” <http://www.colegioweb.com.br/historia-brasil/as-casas-aviadoras.html> Ver outra informação sobre este sistema – o aviamento – no artigo de Fadel David António Filho referido abaixo.
2 “Gaiolas” são pequenas embarcações fluviais usadas na Amazónia.
3 Macedo é o tio da personagem principal.

 
Páginas Paralelas:

“Riqueza e miséria do ciclo da borracha na Amazônia brasileira: um olhar geográfico através de Euclides da Cunha”, artigo de Fadel David António Filho (s.d.), disponível no site da Casa de CulturaEuclides da Cunha 

 


Leia o Prefácio escrito por José Saramago para Terra, álbum fotográfico de Sebastião Salgado, sobre a luta dos sem-terra, disponível na página Web do Movimento dos Trabalhadores Rurais semTerra



“Menina eternizada em foto de Sebastião Salgado ainda é sem-terra”, artigo de Paulo Cezar Farias (24.08.2012), na Folha de S. Paulo

quinta-feira, 7 de março de 2013

Ferreira de Castro
A Selva
[excerto]
[…]
O «varador» era estreita senda que não daria passagem a um automóvel, pequeno que fosse; e cortavam-no, aqui e ali, grossas árvores que tinham caído e apodreciam sem que ninguém as removesse. Dum lado e outro, a selva. Até esse instante Alberto vira apenas as suas linhas marginais; surgia, agora, o coração.
Surgia com um aglomerado exuberante, arbitrário e louco, de troncos e hastes, ramaria pegada e multiforme, por onde serpeava, em curvas imprevistas, em balanços largos, em anéis repetidos e fatais, todo um mundo de lianas e parasitas verdes, que faziam de alguns trechos uma rede intransponível. Não havia caule que subisse limpo de tentáculos a expor a crista ao sol; a luz descia muito dificilmente e vinha, esfarrapando-se entre folhas, galhos e palmas, morrer na densa multidão de arbustos, cujo verde intenso e fresco nunca esmorecia com os ardores do Estio. Primeiro a folhagem seca dos gigantes, que cobria o chão, putrefazendo-se em irmandade com troncos mortos e esfarelados, dos quais já brotavam, vitoriosas para a vida, folhitas petulantes como orelhas de coelho. Alastravam, depois, as largas palmas de tajás e de outra plantaria, de tudo quanto vinha nascendo e ocultava a terra onde as árvores sepultavam as raízes. Crescia a mata até à altura de dois homens, posto um sobre o outro, e só então os olhos podiam encontrar algum espaço em branco, riscado, ainda assim, polos coleios dos cipós que iam de tronco a tronco, dando ponte a capijubas e demais macacaria pequena, que não quisesse saltar. De lá para cima abriam-se as umbelas seculares e constituíam série interminável os seus portentosos cabos. E era aí que a luz dava um ar da sua graça, branqueando e tornando luzidio o pescoço de algumas árvores mais altas e restituindo, pela transparência, às asas de milhares de borboletas, as suas verdadeiras cores de arco-íris fantástico.
De longe a longe, uma palmeira muito esguia e clara subia, em arranco de foguete, para olhar a selva por cima do ondeado em que terminava todo o arvoredo. E eram, então, quatro palmas solitárias lá no alto, como se quisessem fugir dos homens – dos homens que, apesar de tudo, lhes iam roubar o cacho saboroso, de onde extraíam o açaí.
A princípio, ainda os olhos fixavam o revestimento deste e daquele tronco e de outro, e outro, e outro, mas depois abandonavam-se ao conjunto, porque não havia memória nem pupila que pudesse recolher tão grande variedade. Só de frutos que não se comiam e se corrompiam na terra, porque nunca ninguém se arriscara a saber se davam apenas volúpia ou se envenenavam também, havia mais espécies do que todas as que se cultivavam em pomares europeus. Somente a colectividade imperava ali: o indivíduo vegetal despersonalizava-se e era amesquinhado pelos vizinhos, tantos, tantos, que apesar de Firmino ter já nomeado centenas, restavam muitos milhares ainda no anonimato. De quando em quando, golfando por súbita abertura, o sol iluminava um inverosímil claustro.
E por toda a parte o silêncio. Um silêncio sinfónico, feito de milhões de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio suavíssimo da folhagem, tão suave que parecia estar a selva em êxtase.
Às vezes, era certo, uma imprevista e pânica restolhada de folhas e de asas levava Alberto a parar, agarrando-se instintivamente ao braço do companheiro.
– É uma inambu – disse Firmino, sorrindo daquele temor.
Mais adiante, ruidoso lagarto, correndo subitamente sobre a folhagem morta, de novo o galvanizava.
Mas o silêncio volvia. E com ele, uma longa, uma indecifrável expectativa. Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de maravilhosa e incognoscível presa.
[…]
Castro, Ferreira de (2000). A Selva (39ª ed.).
Lisboa: Guimarães Editores. pp. 78-80.


Páginas Paralelas:



A Selva, o filme de Leonel Vieira (2002) – trailer.