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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Mário de Carvalho

Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde

[excerto]

Capítulo I

       Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releiro os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?
       Mara, mais além, borda, sentada numa cadeira alta de vime, junto aos degraus da porta. Há pouco, ralhava com as escravas. Agora ri-se com as escravas. Em breve ralhará com as escravas. Do local em que me encontro não consigo ouvi-la, mas quase adivinho as razões dos risos e dos ralhos. É-me agradável saber que Mara está perto, e reconhecer-lhe tão bem, desde há tantos anos, os trejeitos e os modos.
       Momentos atrás, sem nenhuma razão especial, veio até junto de mim, com o seu animal de regaço que é agora um gato cinzento, depois de, em hora nefasta, ter perdido a rola, muito alva, que lhe vinha comer à mão. Este bizarro animal, que dizem de origem egípcia, é uma espécie de pantera em miniatura que conserva todos os rompantes da fera e que, como ela, se compraz na crueldade e no rasgo imprevisto. Ora se relaxa, pacificado, em languidez esparramada, num convite ao sossego universal, ora salta de garras prestes, orelhas derribadas, pêlo tufado, colmilhos em ameaça. Não responde pelo nome e, apesar da sua pequenez, põe em respeito os cães de guarda quando os enfrenta. Foi um mercador que o deixou aí, como reconhecimento pelas compras avultadas, porventura excessivas, a que Mara se prestou. Eu confesso que encaro este animal estrangeiro com alguma desconfiança. Ainda não faz parte da casa, nem sei se algum dia fará…
       Mara admira-se de eu estar às voltas com a Tyrrenika, infindável anedotário etrusco do imperador Cláudio. Que proveito me trará o esforço, pergunta, se temos tão raros convidados a quem deslumbrar? Num gesto faceto, desdobra um dos rolos, soletra umas palavras ao acaso, ri e deixa-o rebolar pelo tampo da mesa. Logo as unhas afiadas do gato ressaltam, aduncas, e se preparam para grifar o papiro, como já tinham antes marcado os braços de Mara. Protesta. Mara aconchega o bicho ao colo e deixa-me, numa pequena corrida. Rito quotidiano, conhecido, trivial e amável. Mara, aprazível, afirmando-me a sua solicitude…
       Preserva Mara uma vivacidade juvenil que ainda me espanta, ao fim de todos estes anos. Nunca teve paciência para desenrolar um livro; boceja e adormece quando chamo um escravo para ler algum trecho, mesmo solerte e ligeiro. Aborrece-se nesta pasmada villa, mas nunca admitiria que se aborrece. Não lhe ocorre queixar-se. «Onde Gaio está, Gaia estará». Assim foi educada. Sob aquela futilidade alegre e volátil, velam solidíssimos princípios, ancestrais, e uma recôndita lucidez que só se expõe quando motivos ponderosos a convocam. Sempre contei com a estrénua lealdade de Mara, embora ela não saiba definir o vocábulo lealdade, nem dissertar sobre ele, nem use nunca o termo «estrénuo».
       Em boa verdade, os Etruscos de Cláudio interessam-me de somenos e a prosa dele flui tão entaramelada como dizem lhe saía a fala. Mas vou lendo, folha a folha, passo a passo, com uma aplicação de discípulo em tormentos de trabalho marcado e férula à espreita. Não tenho outra razão para isso, senão entreter brandamente o meu tédio, que ainda mais se avantajaria naqueloutros portes de caçador ou arroteador de solos ou edificador de pedras, ou diligente administrador de agros, ou praticante de qualquer actividade própria à minha condição… Começada um dia a leitura, impõe-se-me levá-la até ao fim. Assim me educaram e nessa pertinência me reconheço. Propus-me um livro? Há que lê-lo!

[…]

Carvalho, Mário de (1994). Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde.
Lisboa: Editorial Caminho. pp. 13-15.

 

 

Páginas Paralelas:


Informação sobre esta obra, “a mais premiada do autor” – nova edição da Porto Editora (2013)
 
 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Luís Afonso
O Comboio das Cinco
[excerto]
A REUNIÃO JÁ ESTAVA quase no fim quando surgiu a questão que viria a originar a polémica. Proponho que se peça à Junta de Freguesia o terreno anexo ao nosso campo de futebol para construir uma bancada e novos balneários. Falou Serafim Augusto, presidente do Santa Bárbara FC, principal clube da localidade de Santa Bárbara Bendita, sobretudo depois de o seu rival SC Benditense ter sido expulso de todos os campeonatos por prática de corrupção, materializada com o pagamento de uma jantarada a um árbitro. Confessou o subornado que comeu uma cabeça de borrego e uns tordos fritos, que estavam muito bons, dias antes de ter inventado três penáltis a favor do dito clube. Mais confessou que inventou três penaltis porque os primeiros dois foram chutados para fora, o que não se compreende com tantos treinos que há hoje em dia. Mas voltemos a Serafim Augusto e à reunião da direcção do Santa Bárbara FC. Sim, acho boa ideia, é um terreno que está ali ao abandono, disse o vice-presidente. Além disso, não deves ter problemas em convencer a Junta, Serafim, acrescentou um dos vogais, provocando a risota geral, ou quase, porque o presidente manteve o seu ar circunspecto. E tratou de pôr a proposta a votação, tendo como resultado a inevitável unanimidade. Passadas três semanas, na reunião ordinária da Junta de Freguesia de Santa Bárbara Bendita, o ofício proveniente do Santa Bárbara FC mereceu a maior atenção dos presentes, os quais, um após outro, manifestaram total disponibilidade para satisfazer o pedido e ceder o terreno em causa. Mas o presidente da Junta, Serafim Augusto, ele mesmo, achou que não era bem assim. Que na freguesia haveria outras colectividades que poderiam reivindicar o terreno, com a mesma legitimidade. Que se corria o risco de aparecer alguém a acusar a Junta de privilegiar o clube. Que o terreno faz falta à Junta. E que, não menos importante (last but not least ficava aqui bem, com aquele ar pedante q. b. que dá sempre jeito, mas o facto de esta história se passar em meio rural faz a expressão ficar assim um nadinha deslocada), não percebia para que raio queria o clube construir uma nova bancada e novos balneários se estava muito bem servido, com obras de remodelação realizadas recentemente, que custaram um dinheirão e tiveram a comparticipação da Junta em mais de noventa por cento. Os restantes membros da Junta olharam uns para os outros, talvez a pensar que Serafim Augusto estivesse a brincar com eles. Ó Serafim, vamos lá ver, então tu não és o presidente do Santa Bárbara, atirou-lhe corajosamente o secretário, também ele sócio e antigo atleta do clube. A resposta saiu logo. Sou, claro que sou, mas também sou o presidente aqui da Junta. E se há coisa que eu não admito é a Junta ser prejudicada por ninguém. Que vais fazer, insistiu o secretário. Indeferir o pedido, é a única coisa que pode ser feita, disse solenemente o presidente. Quem vota contra, quis saber, procurando o olhar de cada um dos eleitos. Alguém se abstém, questionou. Então está aprovado por unanimidade, agora há que enviar um ofício ao Santa Bárbara FC a comunicar o indeferimento. O ofício foi recebido só quatro dias depois, devido a uma greve dos carteiros. Não ocorreu a ninguém que a carta poderia ser entregue em mão, estando a sede da Junta paredes-meias com a sede do clube. Mas não teria o carimbo dos correios. A vida sem carimbos pode ficar facilitada, é certo, mas não tem carimbos. Quando Serafim Augusto entrou no clube nessa manhã, a mulher da limpeza entregou-lhe a correspondência. Ao abrir o envelope remetido pela Junta, o presidente do Santa Bárbara FC não conteve um berro. Merda. Se eu apanho estes filhos da puta da Junta. E marcou logo uma reunião extraordinária com apenas um ponto na ordem de trabalhos, o indeferimento da Junta de Freguesia. Sem conseguir disfarçar o estado de nervos em que se encontrava, Serafim Augusto deu início à reunião com uma tomada de posição. Vamos mostrar a esses gajos da Junta que não se trata assim uma instituição que tanto tem prestigiado esta terra. Vamos fazer um comunicado à população a denunciar a forma como estamos a ser tratados. E assim fizeram. […]
Afonso, Luís (2012). O Comboio das Cinco: O livro de LOPES,
o escritor pós-moderno. Lisboa: Abysmo. pp. 45-49.

Páginas Paralelas:
Notícia sobre o lançamento de O Comboio das Cinco, com o texto de apresentação do livro, da autoria de Mário de Carvalho (Público. 13.12.2012)