quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Jean-Claude Carrière, Excerto da Introdução de "Tertúlia de Mentirosos"


Como as minhocas que, ao que se diz, fecundam a terra que atravessam cegamente, as histórias passam de boca em boca e dizem, há já muito, o que nada mais sabe dizer. Algumas giram e enroscam-se no seio de um mesmo povo, outras, como feitas de uma matéria subtil, perfuram as muralhas invisíveis que nos separam uns dos outros, ignoram o tempo e o espaço e, simplesmente, perpetuam-se. (…)
Se o conto, prazer antigo, universal, que requeremos desde a infância, conserva esta tenacidade é talvez porque encerra uma virtude, um singular princípio de permanência. A sua força primordial é evidentemente a de nos transportar, com umas quantas palavras, para outro mundo, um mundo em que imaginamos as coisas em vez de as sofrer, um mundo onde dominamos o espaço e o tempo, onde pomos em movimento personagens impossíveis, onde povoamos como nos apetece outros planetas, onde insinuamos criaturas sob as ervas dos pauis, entre as raízes dos carvalhos, onde pendem salsichas das árvores, onde os rios sobem para a nascente, onde aves tagarelas raptam crianças, onde defuntos inquietos vêm em silêncio remediar um esquecimento, um mundo sem limites e sem regras onde organizamos à nossa maneira os encontros, os combates, as paixões.
(…)
Neste sentido, é por meio do «era uma vez» que a superação do mundo, isto é, a metafísica, se introduz na infância de cada indivíduo e talvez também na dos povos, muitas vezes ao ponto de aí incrustar uma raiz tão forte que as nossas invenções humanas serão para nós, durante toda a vida, uma realidade indiscutível. Após o deslumbramento, o arrebatamento, a história que nos contaram fica na própria base das nossas crenças.
(…)
Perguntei um dia ao neurologista Oliver Sacks o que é a seu ver um homem normal. (…) Hesitou e depois respondeu-me que um homem normal será talvez aquele que é capaz de contar a sua própria história. Sabe de onde vem (tem uma origem, um passado, uma memória em ordem), sabe onde está (a sua identidade) e crê saber para onde vai (tem projectos e a morte no fim). Situa-se, portanto, no movimento de uma narrativa, é uma história, pode dizer-se.
Se esta relação indivíduo-história se rompe por qualquer razão fisiológica ou mental, o relato quebra-se, a história perde-se, a pessoa é projectada para fora do curso do tempo. Já não sabe nada, nem quem é nem o que deve fazer. Agarra-se a simulacros da existência. Ao olhar do médico, o indivíduo surge então à deriva. Se bem que os seus mecanismos corporais funcionem, perdeu-se no caminho, já não existe.
O que se diz do indivíduo poderá também dizer-se de uma sociedade? Há quem pense que sim. Deixarem de poder contar-se, identificar-se, colocar-se normalmente no correr do tempo poderia levar povos inteiros a apagar-se, separados uns dos outros e sobretudo de si próprios por falta de uma memória constantemente reavivada. Assim, por exemplo, os povos africanos, sul-americanos, estão hoje em risco de silêncio. Expostos à censura número um, que é comercial, e que avança sob o estandarte da «livre concorrência» (a Califórnia e o Mali tem a liberdade de rivalizar, por exemplo, no domínio da produção televisiva: o que significa isso verdadeiramente? Não será uma vez mais a raposa à solta no galinheiro livre?), numerosos são os contadores já amordaçados. Purificação estética e étnica sempre foram irmãs gémeas. Vem hoje juntar-se-lhes o pretenso liberalismo, que chega para muito simplesmente dizer: calem-se.

Jean-Claude Carrière (2000). Tertúlia de Mentirosos: Contos filosóficos do mundo inteiro. (Telma Costa, Trad.). Lisboa: Caminho. pp. 5-9.

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