António Lobo Antunes
Dorme que eu velo sedutora imagem
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segunda-feira, 5 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Alexandre O'Neill
FALA!
FALA!
Fala a sério e fala no gozo
fá-la p'la calada e fala claro
fala deveras saboroso
fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
falinhas mansas ou palavrão
Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala francês fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
desentulha a garganta levanta o pescoço
Fala como se falar fosse andar
fala com elegância - muita e devagar.
Alexandre O'Neill (2004). «Fala!». In Poemário 2004. Lisboa: Assírio & Alvim.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Bertolt Brecht
PERGUNTAS DUM OPERÁRIO LEITOR
Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E a várias vezes destruída Babilónia –
Quem é que tantas vezes a reconstruiu? Em que casas
Da Lima refulgente de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
A Muralha da China? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou? Sobre quem
Triunfaram os Césares? Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu, bramavam
Os afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe de Espanha chorou, quando a Armada
Se afundou. Não chorou mais ninguém?
Frederico Segundo venceu na Guerra dos Sete Anos. Quem
Venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos.
Tantas perguntas.
Bertolt Brecht, Poemas e Canções, selecção e versão portuguesa de Paulo
Quintela,
Livraria Almedina, Coimbra, 1975.
Paulo Quintela, Obras Completas, vol. IV, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.
Poema transcrito a partir de:
Carlos Castilho Pais (2006). «NOITE e DIA na tradução dos poemas de B. Brecht». Jornadas sobre Bertolt Brecht, Universidade Aberta, 26 e 27 de outubro de 2006. Disponível em: http://www.univ-ab.pt/~castilho/noite%20e%20dia.pdf (consultado a 1 de maio de 2014).
Paulo Quintela, Obras Completas, vol. IV, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.
Poema transcrito a partir de:
Carlos Castilho Pais (2006). «NOITE e DIA na tradução dos poemas de B. Brecht». Jornadas sobre Bertolt Brecht, Universidade Aberta, 26 e 27 de outubro de 2006. Disponível em: http://www.univ-ab.pt/~castilho/noite%20e%20dia.pdf (consultado a 1 de maio de 2014).
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Vasco Graça Moura
sobre a minha cidade
sobre
a minha cidade, falei-te ontem, mostrei-te
as
esquinas do tempo, a imagem de
fachadas
que
ainda conheci, de outras que
eu
próprio ignorava; sobre
a
minha cidade e suas pedras, seus espaços
de
árvores graves; e o que foi arrasado,
ou
está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição
dos homens; e o que foi
violentamente
arrancado por negócios sucessivos,
erros,
brutalidades: o que era e o que foi
o
que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário
ser: costumes e conflitos,
maneiras
de falar, a gente
e
a confusão das ruas, as casas do barredo;
sobre
a minha cidade achei que tu
tiveste
gratidão, a viste.
que
percorreste as pontes que da minha
cidade
a ti me trazem, entre
gaivotas
alastrando e músicas diferentes,
e
foste nascer nela.
Vasco Graça Moura (1996). «sobre a minha cidade». In: Poemas Escolhidos. Venda Nova: Bertrand,
p. 222.
terça-feira, 29 de abril de 2014
JORGE MARMELO
MÁQUINAS DE SONHAR
Quem tenha lido o D. Quixote de la Mancha, o
engenhoso romance de Miguel de Cervantes, recordará que, após o primeiro
regresso a casa do cavaleiro da triste figura, bastante amachucado por sinal,
um padre e um barbeiro, de conluio com a governanta, se dedicam a deitar fogo à
biblioteca do fidalgo. Convencidos de que os romances de cavalaria tinham sido
os responsáveis pelo desatino que acometeu Quixote e o levou à insana aventura
de ser cavaleiro andante pelas terras de Espanha, barbeiro e cura chegam ao
ponto de emparedar a biblioteca, para que não ficasse rasto nenhum daquela
máquina de sonhar e imaginar que, pelos vistos, são os romances impressos.
Queimar livros é, aliás,
uma prática quase tão antiga como a própria existência dos livros. A Biblioteca
de Alexandria, após séculos de incidentes menores, acabou reduzida a cinzas no
ano de 391, às ordens de um bispo cujo nome não quero recordar, o qual fez
questão de guardar para si o prestígio de inaugurar a era de intolerância e
trevas que reinaria pelos séculos seguintes.
Durante a época medieval, a
Inquisição dedicou especial atenção à queima dos livros proibidos e tidos por
pecaminosos. Queimaram-se uma boa quantidade deles, quase sempre reunidos,
segundo ficou escrito, em canastras cheias para os autos-de-fé em que, ainda
assim, a atracção principal era o sacrifício às chamas de gente viva que, por
exemplo, praticasse o suspeitíssimo hábito da higiene pessoal ou atentasse
contra Deus através de palavras, actos ou omissões.
Na Alemanha de 1933, os
nazis empenharam-se igualmente na queima de livros, juntando aqueles que
tivessem sido escritos por autores inconvenientes e chegando-lhes o fogo
purificador em grandes pilhas armadas nas praças públicas das cidades.
Impunha-se, afinal, eliminar os elementos estranhos que pudessem "alienar
a cultura alemã". E daí ao Holocausto foi, como se sabe, um ápice.
De volta à literatura, Ray
Bradbury imaginou também, em Fahrenheit
451, uma sociedade do futuro, extremamente bem comportada (como alguns
políticos gostam), na qual todos os livros estariam proibidos - e, com eles, a
opinião individual e o pensamento crítico. Para garantir o bem-estar da nação,
um corpo de bombeiros dedica-se exclusivamente à queima dos perversos volumes
impressos, à temperatura de 451 graus Fahrenheit. É uma parábola eficaz, mas
peca por falta de ambição ou de espírito visionário.
Ray Bradbury não imaginou,
por exemplo, que o futuro, seja lá o que venha a ser, talvez não conte sequer
com livros impressos, mas antes com dispositivos digitais de leitura. Nessas
maquinetas se poderão ler ficheiros adquiridos virtualmente, os quais, pelos
vistos, terão morada numa espécie de nuvem de éter (cloud), a partir da
qual podem ser descarregados. Daí que, correndo-lhes as coisas de feição, os
inquisidores do porvir já não precisarão de recorrer ao fogo. Basta-lhes soprar
a nuvem de liberdade, loucura e sonho que, eventualmente, ainda ajude o Homem a
pensar pela sua cabeça.
Fonte: Jorge Marmelo (2011). «Máquinas de Sonhar». Público. Disponível em: http://www.publico.pt/opiniao/jornal/maquinas-de-sonhar-22673043
(consultado a 28 de abril de 2014).
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Radiohead
Let Down
Transport
Motorways and tramlines
Starting and then stopping
Taking off and landing
Motorways and tramlines
Starting and then stopping
Taking off and landing
The emptiest of feelings
Disappointed people
Clinging onto bottles
And when it comes it's so so disappointing
Disappointed people
Clinging onto bottles
And when it comes it's so so disappointing
Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around
Shell smashed, juices flowing
Wings twitch legs are going
Don't get sentimental
It always ends up drivel
Wings twitch legs are going
Don't get sentimental
It always ends up drivel
One day I am gonna grow wings
A chemical reaction
Hysterical and useless
Hysterical and
A chemical reaction
Hysterical and useless
Hysterical and
Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around
Let down and hanging
Let down
Let down
Let down
Let down
You know, you know where you are with
You know where you are with
Floor collapsing, floating
Bouncing back and
You know where you are with
Floor collapsing, floating
Bouncing back and
One day I am gonna grow wings
A chemical reaction
(You know where you are)
Hysterical and useless
(You know where you are)
Hysterical and
(You know where you are)
A chemical reaction
(You know where you are)
Hysterical and useless
(You know where you are)
Hysterical and
(You know where you are)
Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around
Fontes:
Vídeo: Radiohead (1997). «Let Down» [live]. The Hammerstein Ballroom/New York City. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M_wGLZmwZ8o (consultado a 28 de abril de 2014).
Vídeo: Radiohead (1997). «Let Down» [live]. The Hammerstein Ballroom/New York City. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M_wGLZmwZ8o (consultado a 28 de abril de 2014).
Letra: Yorke, Thomas et al. (s.d.).
«Let Down». Disponível em: http://www.metrolyrics.com/let-down-lyrics-radiohead.html
(consultado a 28 de abril de 2014).
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Sophia de Mello Breyner Andresen
Revolução
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
27 de Abril de 1974
Sophia de Mello Breyner
Andresen (2000). «Revolução». In: Cem Poemas de Sophia. Lisboa:
Visão/Jornal de Letras, p. 94.
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