quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vasco Graça Moura

sobre a minha cidade

sobre a minha cidade, falei-te ontem, mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre

a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi

violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,

maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.

que percorreste as pontes que da minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.


Vasco Graça Moura (1996). «sobre a minha cidade». In: Poemas Escolhidos. Venda Nova: Bertrand, p. 222.

terça-feira, 29 de abril de 2014

JORGE MARMELO
MÁQUINAS DE SONHAR
Quem tenha lido o D. Quixote de la Mancha, o engenhoso romance de Miguel de Cervantes, recordará que, após o primeiro regresso a casa do cavaleiro da triste figura, bastante amachucado por sinal, um padre e um barbeiro, de conluio com a governanta, se dedicam a deitar fogo à biblioteca do fidalgo. Convencidos de que os romances de cavalaria tinham sido os responsáveis pelo desatino que acometeu Quixote e o levou à insana aventura de ser cavaleiro andante pelas terras de Espanha, barbeiro e cura chegam ao ponto de emparedar a biblioteca, para que não ficasse rasto nenhum daquela máquina de sonhar e imaginar que, pelos vistos, são os romances impressos.
Queimar livros é, aliás, uma prática quase tão antiga como a própria existência dos livros. A Biblioteca de Alexandria, após séculos de incidentes menores, acabou reduzida a cinzas no ano de 391, às ordens de um bispo cujo nome não quero recordar, o qual fez questão de guardar para si o prestígio de inaugurar a era de intolerância e trevas que reinaria pelos séculos seguintes.
Durante a época medieval, a Inquisição dedicou especial atenção à queima dos livros proibidos e tidos por pecaminosos. Queimaram-se uma boa quantidade deles, quase sempre reunidos, segundo ficou escrito, em canastras cheias para os autos-de-fé em que, ainda assim, a atracção principal era o sacrifício às chamas de gente viva que, por exemplo, praticasse o suspeitíssimo hábito da higiene pessoal ou atentasse contra Deus através de palavras, actos ou omissões.
Na Alemanha de 1933, os nazis empenharam-se igualmente na queima de livros, juntando aqueles que tivessem sido escritos por autores inconvenientes e chegando-lhes o fogo purificador em grandes pilhas armadas nas praças públicas das cidades. Impunha-se, afinal, eliminar os elementos estranhos que pudessem "alienar a cultura alemã". E daí ao Holocausto foi, como se sabe, um ápice.
De volta à literatura, Ray Bradbury imaginou também, em Fahrenheit 451, uma sociedade do futuro, extremamente bem comportada (como alguns políticos gostam), na qual todos os livros estariam proibidos - e, com eles, a opinião individual e o pensamento crítico. Para garantir o bem-estar da nação, um corpo de bombeiros dedica-se exclusivamente à queima dos perversos volumes impressos, à temperatura de 451 graus Fahrenheit. É uma parábola eficaz, mas peca por falta de ambição ou de espírito visionário.
Ray Bradbury não imaginou, por exemplo, que o futuro, seja lá o que venha a ser, talvez não conte sequer com livros impressos, mas antes com dispositivos digitais de leitura. Nessas maquinetas se poderão ler ficheiros adquiridos virtualmente, os quais, pelos vistos, terão morada numa espécie de nuvem de éter (cloud), a partir da qual podem ser descarregados. Daí que, correndo-lhes as coisas de feição, os inquisidores do porvir já não precisarão de recorrer ao fogo. Basta-lhes soprar a nuvem de liberdade, loucura e sonho que, eventualmente, ainda ajude o Homem a pensar pela sua cabeça.

Fonte: Jorge Marmelo (2011). «Máquinas de Sonhar». Público. Disponível em: http://www.publico.pt/opiniao/jornal/maquinas-de-sonhar-22673043 (consultado a 28 de abril de 2014).











segunda-feira, 28 de abril de 2014

Radiohead

Let Down



Transport
Motorways and tramlines
Starting and then stopping
Taking off and landing

The emptiest of feelings
Disappointed people
Clinging onto bottles
And when it comes it's so so disappointing

Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around

Shell smashed, juices flowing
Wings twitch legs are going
Don't get sentimental
It always ends up drivel

One day I am gonna grow wings
A chemical reaction
Hysterical and useless
Hysterical and

Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around

Let down and hanging
Let down
Let down

You know, you know where you are with
You know where you are with
Floor collapsing, floating
Bouncing back and

One day I am gonna grow wings
A chemical reaction
(You know where you are)
Hysterical and useless
(You know where you are)
Hysterical and
(You know where you are)

Let down and hanging around
Crushed like a bug in the ground
Let down and hanging around


Fontes:

Vídeo: Radiohead (1997). «Let Down» [live]. The Hammerstein Ballroom/New York City. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M_wGLZmwZ8o (consultado a 28 de abril de 2014). 


Letra: Yorke, Thomas et al. (s.d.). «Let Down». Disponível em: http://www.metrolyrics.com/let-down-lyrics-radiohead.html (consultado a 28 de abril de 2014).

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Revolução

Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 
 
Como a voz do mar 
Interior de um povo 
 
Como página em branco 
Onde o poema emerge 
 
Como arquitectura 
Do homem que ergue 
Sua habitação

27 de Abril de 1974



Sophia de Mello Breyner Andresen (2000). «Revolução». In: Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/Jornal de Letras, p. 94.

quinta-feira, 24 de abril de 2014


Zeca Afonso

Filhos da Madrugada

 

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de manhã clara
Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
[C]á do cimo de uma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos p’la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

Fontes: 
Música: Zeca Afonso. «Filhos da Madrugada». Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=CbVQV1XNOCY (acedido a 24 de abril de 2014).

Letra: Zeca Afonso. «Filhos da Madrugada». Disponível em: http://www.animaramalta.com/musica-portuguesa-tuga/zeca-afonso-canto-moco (acedido a 24 de abril de 2014).

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pranto pelo dia de hoje

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas



Sophia de Mello Breyner Andresen (2004). «Pranto pelo dia de hoje», in: Cem Poemas de Sophia. Lisboa: Visão/Jornal de Letras, p. 62.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Gabriel García Márquez
Cem Anos de Solidão
[excerto]

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana, construídas na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de Março, uma família de ciganos andrajosos montava a sua tenda perto da aldeia e, num grande alvoroço de apitos e timbales, davam a conhecer as novas invenções. Primeiro levaram o íman. Um cigano corpulento, de barba ferina e mãos de pardal-dos-telhados, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração que ele próprio denominava de oitava maravilha dos sábios alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa a arrastar dois lingotes metálicos, e toda a gente ficou espantada ao ver como as caldeiras, os tachos, as tenazes e os fogareiros caíam dos seus lugares, e as madeiras rangiam pelo desespero dos pregos e dos parafusos que tentavam despregar-se, e até os objectos perdidos há muito tempo apareciam por onde mais se procurara e arrastavam-se em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades. «As coisas têm vida própria», apregoava o cigano com um sotaque áspero, «é tudo uma questão de lhes acordar a alma.»




Gabriel García Márquez (2000). Cem Anos de Solidão, 15.ª ed. (trad. Margarida Santiago). Lisboa: Dom Quixote, p.9.