sexta-feira, 4 de abril de 2014

Gonçalo M. Tavares

BATER PALMAS



Um homem está de tronco nu, com calças pretas, os braços atrás das costas, as mãos algemadas. Mesmo assim consegue bater palmas. Está a bater palmas atrás das costas, com as mãos a fazer um pequeníssimo movimento.
E agora, sim, percebemos por que razão ele bate palmas. Está em pé, a ver uma peça de teatro. Alguém actua para ele, mas não só. Ao seu lado, vemos agora, estão mais de quinze presos, todos em tronco nu, todos com os braços atrás das costas e todos com algemas. E esses homens rudes, dada a dificuldade de movimentos, batem palmas de uma forma que parece gentil, nobre, delicada, pudica. 

  


Gonçalo M. Tavares (2011). «Bater Palmas». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, p. 91.


Página Paralela:

Texto de Eduardo Madalena, sobre a "técnica da câmara de filmar" usada por Gonçalo M. Tavares em Short Movies. Ler aqui.

Eduardo Madalena (2011, 9 de dezembro). «O escritor da câmara de filmar». Público. Disponível em:  http://p3.publico.pt/cultura/livros/1659/o-escritor-da-camara-de-filmar. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Gonçalo M. Tavares


O VENTO, A ROUPA


Uma janela, mas vista de dentro de casa. Lá fora, meninos brincam debaixo de pedaços de roupa que devem estar a secar. São pedaços de roupa estranhos, pois não os reconhecemos, não conseguimos associar aqueles pedaços de roupa a partes concretas de um corpo humano normal. Não se percebem calças para duas pernas, nem camisas com duas mangas, nem sequer a roupa interior, as meias, nada aparece ali que se possa identificar. É uma roupa informe e quase nos assustamos ao pensar em quem vestirá aquelas roupas, que não parecem feitas para corpos com as formas humanas. E por momentos pensamos que quem vive naquela casa são seres sem pernas, sem braços, sem partes vitais do corpo, seres que sobraram de algum sítio. Mas depois vemos que não e não e não, são pedaços de roupa estranhos sim, mas é o vento que os empurra, que os faz dobrar sobre si próprios, e aquilo que nos parecia roupa informe, roupa de loucos ou de estropiados, vemos agora, por breves instantes, quando os caprichos do vento o permitem, vemos que são peças de roupa normais que o vento torna informes e defeituosas.
Mas o vento tem razão, e o vento faz coisas que nos anunciam momentos trágicos, muito antes de a nossa inteligência perceber. E por isso é que, graças ao esperto do vento, não nos choca tanto o aparecimento daquele homem estropiado, que vem ― com poucos membros e com muita ajuda ― mostrar que o vento sabe bem o que faz, que não é assim tão caótico e burro.




Gonçalo M. Tavares (2011). «O Vento, A Roupa». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, pp. 53-54.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Gonçalo M. Tavares

O PIANO

Um piano com as teclas partidas, rodeado de água, talvez num pequeno lago.
O dono do piano chega até ele, com água pelos tornozelos.
A mulher e os filhos morreram na catástrofe, mas agora ele localizou o piano que, com o desabamento da casa, desaparecera.
Chegado ao pé do piano, o homem toca numa tecla quase por instinto, para ver se ainda funciona.
Há muito barulho na cidade, há sirenes de ambulância por todo o lado e por isso ele não tem a certeza se o que ouviu foi resultado do seu toque no piano. Mas o piano está de tal forma desfeito que é impossível alguma tecla ainda funcionar.
De qualquer forma, o homem ― que acabou de perder a mulher e os filhos ― terá perdido também por completo a razão ou então terá ganhado uma outra forma de olhar para o que lhe acontece; e isto porque, em pleno alvoroço, na altura em que há mortos por todo o lado, e no momento em que cada um procura encontrar os seus familiares e confirmar se eles ainda estão vivos, é nessa altura que esse homem subitamente grita ― e pede ajuda.
Mas naquele momento ninguém o vai ajudar a resgatar um piano.


Gonçalo M. Tavares (2011). «O Piano». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, pp. 13-14.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Gonçalo M. Tavares

O RELÓGIO DA TORRE


Um homem bem vestido pára no meio da praça e levanta a cabeça. Com os movimentos de quem parece confirmar as horas pelo relógio gigante da praça central, o homem bem vestido vai acertando o seu relógio de pulso.
Olhamos agora para o relógio da praça central e vemos que ele está a ser arranjado: há vários homens em seu redor. E se esses homens parecem macacos que, em vez de se apoiarem em galhos, se apoiam em ponteiros metálicos gigantes, se por instantes parecem macacos, segundos depois parecem médicos em redor de um corpo qualquer que está a sucumbir e eles ― meio eléctricos e acelerados, outras vezes com uma calma que não se percebe ― ali estão, em redor daquele corpo em forma de círculo, tentando recuperar os batimentos do único coração que, de facto, faz falta.
De qualquer maneira, o homem lá em baixo continua à espera.



Gonçalo M. Tavares (2011). «O Relógio da Torre». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, p. 143-144.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Gonçalo M. Tavares

Os Soldados


Numa estação de comboios, dois soldados, debruçados sobre o guiché, compram os bilhetes. As suas mãos tremem. Estão nervosos.
Passa um homem, um vendedor, que traz três muletas na mão. Espera que os soldados comprem o seu bilhete para se aproximar, oferecendo as muletas por bom preço.
Mas os dois soldados têm as pernas intactas, caminham normalmente.



Gonçalo M. Tavares (2011). «Os Soldados». In: Short Movies. Alfragide: Caminho, p. 89.


quinta-feira, 27 de março de 2014


Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice
[excerto]



[…]

7

Iludia-me. A morte, que é o fim
do amor, corria à solta nos temporais
da alma. Eu podia ter uma consciência
da sua presença nalguns intervalos bruscos,
quando os teus passos me faltavam, e
só uma nova respiração, atrás de mim, me
restituía o ânimo da ascensão. Tu,
liberta dessa morte que te prendia os lábios,
dizias-me: não me deixes! Como se fosse
preciso dizê-lo! E não fosses tu a única
razão dessa viagem a que dei o nome
vida, sabendo que a sua única verdade é esse
amor. Porém, os nossos lábios não se
encontravam na certeza do tempo.
O futuro instalou a sua distância naquilo
que é o presente, com a sua duração inscrita
no destino dos que conheceram uma
coincidência de um e outro, o olhar uníssono
dos amantes, o brusco repouso de uma
ânsia de espaço. Aqui, a distância é o que não
separa; o medo da mudança dissipa-se;
e a recordação é o que está depois do que foi
vivido, como se fosse a memória a construir
o dia de amanhã.

Quis arrancar-te, assim, ao destino ― e
libertar-me, eu próprio, da sua sujeição. Quantos
rostos se fixaram no teu, para que em ti
eu visse cada uma das imagens por onde passei,
restituindo-lhes uma respiração humana. Procurei-te
enquanto imaginei que me procuravas ― e
cada passo que dava, na minha descida, afastava
tudo o que eu perdia enquanto descia. Nesse outro
mundo, em que nos reduzimos a nós, afastando
do que somos tudo o que nos opunha,
não dei por que um cansaço de ser me obrigava
ao regresso. Tê-lo-ei feito cedo demais? Por
que me voltei, então, como se soubesse que
as sombras não pedem que as olhemos,
e deixei que te prendessem com a sua
inquietação de fumo?

No entanto, um eco responde-me: estou
aqui. E por trás dele outros ecos se sucedem,
multiplicando os lugares, até ao fim
do caminho. No teu quarto, prendendo o cabelo,
esperas que um incêndio de poço entreabra
a noite, e rompa os muros que o silêncio
ergueu à tua volta. Mas o canto envolve-te: e
despe-te, com a solidão dos seus dedos, até
à nudez do caule.


Nuno Júdice (2009). «Carta de Orfeu a Eurídice». In: Pedro, Lembrando Inês. Lisboa: Publicações Dom Quixote, pp. 57-58.