Miguel Torga
Orfeu Rebelde
Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.
Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.
Miguel Torga (2002). «Orpheu Rebelde». In: Poesia Completa II. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 555.
segunda-feira, 24 de março de 2014
sexta-feira, 21 de março de 2014
Dia Mundial da Poesia
António Ramos Rosa
Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira
com os contornos duros das consoantes
com a clara música das vogais
Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons
e apreendê-lo para além do seu sentido
como se ele fosse um fluente felino verde ou com a cor do fogo
O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo
será a ágil indolência de sucessivas aberturas
em que veremos as labaredas de um outro sentido
tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras
É assim que lemos não as palavras já formadas
mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula
ao nível físico do seu fluir oceânico
António Ramos Rosa (2001). «Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira». In: Deambulações Oblíquas. Lisboa: Quetzal, p. 114.
António Ramos Rosa
Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira
com os contornos duros das consoantes
com a clara música das vogais
Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons
e apreendê-lo para além do seu sentido
como se ele fosse um fluente felino verde ou com a cor do fogo
O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo
será a ágil indolência de sucessivas aberturas
em que veremos as labaredas de um outro sentido
tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras
É assim que lemos não as palavras já formadas
mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula
ao nível físico do seu fluir oceânico
António Ramos Rosa (2001). «Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira». In: Deambulações Oblíquas. Lisboa: Quetzal, p. 114.
quinta-feira, 20 de março de 2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
José Rodrigues Miguéis
Arroz do Céu
Arroz do Céu
|
|
Ao longo dos passeios de Nova Iorque,
por sobre as estações e galerias do subway, abrem-se grandes
respiradouros gradeados por onde cai de tudo: o sol e a chuva, o luar e a
neve, luvas, lunetas e botões, papelada, chewing
gum, tacões de sapatos de
mulheres que ficam entalados, e até dinheiro. […]
O
limpa-vias trabalhava há muitos anos no subway,
sempre de olhos no chão. Uma toupeira, um rato dos canos. Picava papéis na
ponta de um pau com um prego, e metia-os no saco. Varria milhões de pontas de
cigarros, na maioria quase intactos, de fumadores impacientes, raspava das
plataformas o chewing gum odioso,
limpava as latrinas, espalhava desinfectantes, ajudava a pôr graxa nas
calhas, polvilhava as vias de um pó branco e misterioso, e todas as vezes que
o camarada da lanterna soltava um apito estrídulo – lá vem o comboio! – ele
encolhia-se contra a parede negra, onde escorriam águas de infiltração, na
estreita passagem de serviço. […] Sempre de olhos no chão, bisonho e calado,
como quem nada espera do Alto, e não esperava. A vida dele vinha toda do chão
imundo e viscoso. Nem sequer olhava a lívida claridade que resvala dos
respiradouros para o negrume interior, onde tremeluzem lâmpadas eléctricas,
entre as pilastras inumeráveis daquela floresta subterrânea metalizada: nunca
lhos tinham mandado limpar. […] Nem talvez soubesse que existiam os
respiradouros. Era estrangeiro, imigrante, como tanta gente, não brincara nem
vadiara na voragem empolgante das ruas da grande cidade, e vivia
perfeitamente resignado à sua obscuridade. […] Como tinha nascido na
Lituânia, ou talvez na Estónia, só falava em monossílabos; e, debaixo da
pátina oleosa e negra que o ar do subway
nela imprimira com o tempo, a sua face era incolor e a raça indistinta.
Antes disso tinha trabalhado em escavações, um «toupeira». Este emprego era
muito melhor, embora também fosse subterrâneo. E não tinha que falar o
inglês, que mal entendia.
Ora, à esquina de certa rua, no Uptown, há uma igreja, a de São
João Baptista e do Santíssimo Sacramento, a todo o comprimento de cuja
fachada barroca e cinzenta os respiradouros do subway formam uma longa plataforma de aço arrendado. Os
casamentos são frequentes, ali, por ser chique a paróquia e imponente a
igreja. O arroz chove às cabazadas em cima dos noivos, à saída da cerimónia,
num grande estrago de alegria. Metade dele some-se logo pelas grelhas dos
respiradouros, outra parte fica espalhada nas placas de cimento do passeio.
Depois dos casamentos, o sacristão ou porteiro da igreja, de cigarro ao canto
da boca, varre o arroz para dentro das grades, por comodidade. […] O que se derramou
no pavimento da rua, lá fica: é com os varredores municipais. […]
Aquela chuva de grãos atravessa as grades, resvala no plano inclinado
do respiradouro, e […] ressalta para dentro do subterrâneo, numa estreita
passagem de serviço vedada aos passageiros.
A
primeira vez que viu aquele arroz derramado no chão, e sentiu os bagos a
estalar-lhe debaixo das botifarras, o limpa-vias não fez caso […]. Mas como
ia agora por ali com mais frequência, notou que a coisa se repetia. O arroz
limpo e polido brilhava como as pérolas de mil colares desfeitos no escuro da
galeria. O homem matutou: donde é que viria tanto arroz? Intrigado, ergueu os
olhos pela primeira vez para o Alto, e avistou a vaga luz de masmorra que
escorria da parede. […] Era dali, com certeza, que caía o arroz, como as
moedas, a poeira, a água da chuva e o resto. O limpa-vias encolheu os ombros
sem entender. Desconhecia os ritos e as elegâncias. No casamento dele não
tinha havido arroz de qualidade nenhuma, nem cru, nem doce, nem de galinha.
Até que um dia, depois de olhar em roda, não andasse alguém a
espiá-lo, abaixou-se, ajuntou os bagos com a mão, num montículo, e encheu com
eles um bolso do macaco. Chegado a casa, a mulher cruzou as mãos de assombro:
alvo, carolino, de primeira! Dias depois, sempre sozinho, varreu o arroz para
dentro de um cartucho que apanhara abandonado num cesto de lixo da estação, e
levou-o para casa. Pobres, aquela fartura de arroz enchia-lhes a barriga, a
ele, à patroa e aos seis ou sete filhos. […]
José Rodrigues Miguéis (1995).
“Arroz do Céu”.
In:
Gente da Terceira Classe. S. l.: Círculo de Leitores, pp.
63-66.
|
terça-feira, 18 de março de 2014
José Gomes Ferreira
O Graxa
José Gomes Ferreira (2004). “O «Graxa»”. In O
Mundo dos Outros . Rio de Mouro: Círculo de Leitores: pp. 133-134.
O Graxa
[…] [A]quele
garotão de ontem à tarde encheu-me as medidas. Era um engraxador aloirado, com
doze anos talvez, fato-macaco roto nos joelhos, olhos de zinco, pescoço
penugento e chancas enormes, que um polícia surpreendera empoleirado num
eléctrico, em riscos de cair estatelado no basalto.
O guarda, cara de boa pessoa, disfarçado
de voz de trovão, agarrou-o pelo braço:
– Seu malandrete! Venha já comigo para a
esquadra.
Molemente, com a caixa do ofício ao ombro,
o engraxador desceu do estribo e, com um desafio mudo nos olhos de metal,
deixou-se levar sem resistência.
Logo correu muita gente faminta de dor do
próximo. Os passageiros do eléctrico ergueram-se ávidos de Lágrima. As damas
extraíram os lenços das malinhas. E um senhor de idade que seguia num táxi mandou
parar o carro para sofrer melhor…
Contra o previsto, porém, o garotão não
soltava um queixume nem se espojava de protestos, ante o espanto do guarda, que
não escondia a sua incompreensão daquele silêncio fora de todas as regras. Que
diabo! Um garoto naquelas circunstâncias devia escabujar, chamar pela mãezinha,
avermelhar-se de gritos de aflição, varar o mundo, espolinhar-se na poeira da
rua. Assim não valia!
E para o acordar bem, para o trazer à tona
dos hábitos, sacudiu-o outra vez com falsa cólera:
– Percebeste? Vou meter-te no calabouço,
para aprenderes a não andar agarrado aos eléctricos. Percebeste?
Pois, sim, rala-te. Nem pio. Apenas os
olhos de cinza, secos e refilões.
Em redor, começava a criar-se um ambiente
de logro. Os passageiros, perdidas as esperanças de assistir ao espectáculo do
Lamento e da Lágrima a correr, desabavam os corpos nos bancos, em decepções de
fadiga. E até o pobre polícia, boa pessoa no fundo, com dois pequenos lá em
casa, que pretendia apenas pregar um susto ao malandrim, parecia acabrunhado.
Os seus olhos imploravam nitidamente: «Chora, malandro!», «Chora para eu ter
pena!», embora a sua voz trovejasse:
– Olha que vais para o calabouço!
Percebeste?
Mas o garotão, filho da teimosia dos pedregulhos,
das ervas e das manhãs duras de trabalho, mantinha-se firme no seu silêncio, a
olhar, com desprezo distante, para toda aquela matulagem que queria vê-lo
chorar, a ele, o «Graxa».
– Sai da minha frente, meu malandro, se
não racho-te! – acabou por exclamar o polícia em último recurso de desespero
fingido para se livrar daquela complicação. – Põe-te a cavar. Ala!
E outra vez feliz por não prender ninguém,
por persistir tudo na monotonia uniforme das mesmas ruas, na repetição sem
surpresas do mesmo todos-os-dias, desfez o ajuntamento com dois trovões:
– Vamos! Circulem! Circulem!
Circulei.
Mas, assim como quem não quer a coisa,
segui o engraxador de perto durante algum tempo.
A vitória dera-lhe maior lentidão nos
gestos e no andar. Torcia agora a boca, mais refilona sob os olhos escarninhos,
e escarafunchava nos bolsos, com uma das mãos, à procura de não sei quê.
Acabou por encontrar. Era uma beata, que
acendeu a custo, a puxar fumaças trabalhosas, crepitantes de saliva.
Depois, sempre com o «piano» às costas,
cuspiu com desdém longo e, do fundo do orgulho dos seus doze anos de calos, de
miséria, de trabalho, de chulipas, de trambolhões, de abandono, de pão duro, de
restos de rancho, de cama sem lençóis, envolveu o mundo num insulto roufenho:
– Palermas!
[…]
segunda-feira, 17 de março de 2014
Lídia Jorge
O Dia dos Prodígios
O Dia dos Prodígios
Um personagem
levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história.
Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os
eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro
ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para
que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os
que crêem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar.
Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve
tempo de uma demonstração.
Lídia Jorge (1995). O Dia dos Prodígios (7.ª edição).
Lisboa: Dom Quixote, p. 9.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Eugénio de Andrade
ELEGIA
Às vezes era bom que tu viesses.
Falavas de tudo com modos naturais:
em ti havia
a harmonia dos frutos
e dos animais.
Maio trouxe cravos como outrora,
cravos morenos, como tu dizias,
mas cada hora
passa e não se demora
nas tristezas das nossas alegrias.
Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.
Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude,
tu quebraste o ritmo e o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude.
Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão.
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direcção.
Eugénio de Andrade (1987). «Elegia». In: Poesia e Prosa. Lisboa: Círculo de Leitores, pp. 36-37.
ELEGIA
Às vezes era bom que tu viesses.
Falavas de tudo com modos naturais:
em ti havia
a harmonia dos frutos
e dos animais.
Maio trouxe cravos como outrora,
cravos morenos, como tu dizias,
mas cada hora
passa e não se demora
nas tristezas das nossas alegrias.
Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.
Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude,
tu quebraste o ritmo e o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude.
Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão.
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direcção.
Eugénio de Andrade (1987). «Elegia». In: Poesia e Prosa. Lisboa: Círculo de Leitores, pp. 36-37.
Subscrever:
Mensagens (Atom)