segunda-feira, 17 de março de 2014

Lídia Jorge

O Dia dos Prodígios

Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que crêem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração. 



Lídia Jorge (1995). O Dia dos Prodígios (7.ª edição). Lisboa: Dom Quixote, p. 9.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Eugénio de Andrade

ELEGIA

Às vezes era bom que tu viesses.
Falavas de tudo com modos naturais:
em ti havia
a harmonia dos frutos
e dos animais. 

Maio trouxe cravos como outrora, 
cravos morenos, como tu dizias, 
mas cada hora
passa e não se demora
nas tristezas das nossas alegrias.

Ainda sabemos cantar, 
só a nossa voz é que mudou: 
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude,
tu quebraste o ritmo e o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude. 

Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão. 
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direcção.


Eugénio de Andrade (1987). «Elegia». In: Poesia e Prosa. Lisboa: Círculo de Leitores, pp. 36-37.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Alexandre O'Neill

O PAÍS RELATIVO

País por conhecer, por escrever, por ler...

                        
País purista a prosear bonito,
a versejar tão chique e tão pudico,
enquanto a língua portuguesa se vai rindo,
galhofeira, comigo.

                         
País que me pede livros andejantes
com o dedo, hirto, a correr as estantes.

                         
País engravatado todo o ano
e a assoar-se na gravata por engano.

                         
País onde qualquer palerma diz,
a afastar do busílis o nariz:
-Não, não é para mim este país!
mas quem é que bàquestica sem lavar
o sovaco que lhe dá o ar?

                         
Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes
que há neste país.

                         
País do cibinho mastigado
devagarinho.

                         
País amador do rapapé,
do meter butes e do parlapié,
que se espaneja, cobertas as miúdas,
e as desleixa quando já ventrudas.

                         
O incrível país da minha tia,
trémulo de bondade e de aletria.

                         
Moroso país da surda cólera,
de repente que se quer feliz.

                         
Já sabemos, país, que és um homenzinho...

                         
País tunante que diz que passa a vida
a meter entre parêntesis a cedilha.

                         
A damisela passeia
no país da alcateia,
tão exterior a si mesma
que não é senão a fome
com que este país a come.

                         
País do eufemismo, à morte dia a dia
pergunta mesureiro: - Como vai a vida?

                         
País dos gigantones que passeiam
a importância e o papelão,
inaugurando esguichos no engonço
do gesto e do chavão.

E ainda há quem os ouça, quem os leia,
lhes agradeça a fontanária ideia!

                         
Corre boleada, pelo azul,
a frota de nuvens do país.

                         
País desconfiado a reolhar para cima
dum ombro que, com razão, duvida.

                         
Este país que viaja a meu lado,
vai transido mas transistorizado.

                         
Nhurro país que nunca se desdiz.

                         
Cedilhado o cê, país, não te revejas
na cedilha, que a palavra urge.

                         
Este país, enquanto se alivia,
manda-nos à mãe, à irmã, à tia,
a nós e à tirania,
sem perder tempo nem caligrafia.

                         
Nesta mosquitomaquia
que é a vida,
ó país,
que parece comprida!

                         
A Santa Paciência, país, a tua padroeira,
já perde a paciência à nossa cabeceira.

                         
País pobrete e nada alegrete,
baú fechado com um aloquete,
que entre dois sudários não contém senão
a triste maçã do coração.

                         
Que Santa Sulipanta nos conforte
na má vida, país, na boa morte!

                         
País das troncas e delongas ao telefone
com mil cavilhas para cada nome.

                         
De ramona, país, que de viagens
tens, tão contrafeito...

                         
Embezerra, país, que bem mereces,
prepara, no mutismo, teus efes e teus erres.

                         
Desaninhada a perdiz,
não a discutas, país!
Espirra-lhe a morte pra cima
com os dois canos do nariz!

                         
Um país maluco de andorinhas
tesourando as nossas cabecinhas
de enfermiços meninos, roda-viva
em que entrássemos de corpo e alegria!

                         
Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro
e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro.

Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar,
já o passo a meu filho, cansado de o olhar...

                                               
No sumapau seboso da terceira,
contigo viajei, ó país por lavar,
aturei-te o arroto, o pivete, a coceira,
a conversa pancrácia e o jeito alvar.


Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha;
entornado de sono, resvalaste para mim.
Mas também me ofereceste a cordial botelha,
empinada que foi, tal e qual clarim!

Alexandre O'Neill (1986). «O País Relativo», in: tomai lá do O'Neill! S.l.: Círculo de Leitores, pp. 153-156. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Alexandre O'Neill

PORTUGAL


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill (1986). «Portugal», in: tomai lá do O'Neill! S.l.: Círculo de Leitores, p. 149.

terça-feira, 11 de março de 2014

VIAGEM PELA IDEIA DA CRISE
João de Melo

Não sei há quantos anos ouço falar de crise — a ideológica, a religiosa, a sentimental, a artística, a literária; e também a social, a económica, a financeira, a laboral, a política, a mundial ou a universal. Uma crise sem paredes que circula entre todos os espaços em branco – esta espécie invasora que já não se detém no limiar de nenhuma fronteira; que não precisa de passaporte nem de santo e senha para entrar, insinuar-se, insurgir-se e instalar-se sentada no meio de nós, ou erguida no pavor sombrio dos nossos sonhos, na roupa, na pele, na alma (para quem ainda a possua ou nela creia, obviamente!).
Nenhuma ideia de felicidade nos pertence (seria no mínimo ridículo que um escritor ousasse confessar-se uma pessoa feliz). Nascemos portugueses, mas para sobreviver a um permanente e absoluto estado de crise, em Portugal. Aqui mesmo ao lado, em Paris, a cidade do exílio e dos mitos ideológicos de outrora, Jean-Paul Sartre morreu com as mesmas dúvidas que o levaram a inventar uma teoria para a angústia do homem moderno, à qual chamou "existencialismo". Para mim, a única e verdadeira crise dá pelo nome de hiperidentidade — ao mesmo tempo individual e colectiva. Assistem-me portanto o direito e o dever de a invocar. Não sei que fazer de mim, do meu excesso de identidade. Sei muito bem quem sou, mas ignoro a minha missão e não sei em que morada deixei esquecida a chave do meu próximo destino.
Nenhuma possibilidade de se ser feliz em Portugal? Seja pelo facto de nada de bom ou de extremamente mau nos acontecer, seja porque em Portugal simplesmente já não acontece nada. Falamos pouco, mas ouvimos muito. Come-se mal, bebe-se melhor. O resto é uma chaga, uma deriva, um sentimento de que nada aqui nos pertence. Não sei quem veio de fora, nem por que motivo as coisas deixaram de ser nossas — mas voga por aí uma presença estranha, o rosto invisível e absoluto de um qualquer ocupante estrangeiro. Ele mudou o nome das coisas e a precisão doméstica dos nossos sítios. Tomou conta dos lugares públicos. Aquartelou-se nas casas, nas tribunas e nos templos. E agora impõe-nos uma ordem social e espiritual que nunca foi nossa: ou seja, uma religião sem princípios, a confraria da imoralidade, o coro, as matinas, as vésperas de um convento para as almas. E uma sabatina histórica que não nos deixa regras nem palavras. Mas se de facto não acontece nada, tudo porém se vai fazendo em nome de uma imensa maioria silenciosa, a mesma que dá sustento e legitimidade aos diques de que é feita a conjura, digo, a conjuntura do medo e do regime.
Hoje, em Portugal, é Deus quem parte e reparte com o Diabo, ficando este com a melhor parte. São populares e risonhos os amanuenses e os ditadores do país onde já não acontece nada. Basta-nos, para que isto ainda exista, haver lá no alto um cardeal primeiro-ministro, alguns bispos e curas nos ministérios e uns quantos noviços por secretários de Estado – mantendo-se assim a nossa ilusão acerca da existência do país. Bastam-lhe os lugares sentados no Parlamento e um talentoso orador a gritar ao povo; bastam-lhe dois escritores e meio para falar por todos; doze actores de teatro e cinema, dez polícias e um general, um maestro de batuta erguida ante as cinquenta e duas cabeças de uma orquestra, zero vírgula um arrependidos políticos confessos, dois vírgula zero seis professores e sindicalistas, três médicos e meio engenheiro, um cantor de fados e treze guarda-costas, um agricultor e oito industriais, um futebolista e três quartos de outro, um careca idoso e outro careca que ainda exibe o cartão jovem ou o título de novo empreendedor — e fica completo o comício.
Não posso nem devo queixar-me de um país que já não existe. Lamento tudo aquilo que aqui me cerca: este território de ocupação e de gente possuída, este novo “silêncio do mar” de que falou um dia o proscrito Vercors, e o tempo de agora que parece eterno enquanto dura, como diria o poeta Vinícius; o tempo em que, em silêncio oficial, vão morrendo (indignados, desgostosos) mulheres e homens de cultura, gente honrada que assistiu à nova invasão dos Hunos e à sua barbárie e que ainda assim permaneceu honrada. Vão-se os homens desta terra que em tudo deixou de valer a pena desde que sua alma se fez pequena. Vão-se os anéis e os dedos, os pomares e as vinhas, as searas de trigo e os pinhos, os pássaros e o milho — e calam-se pouco a pouco as vozes e os sinos. Já tudo foi dito e escrito, ó André Gide; mas, visto que a memória é tão breve, deve-se escrever e dizer tudo de novo. E aprender no vento os nomes de tudo aquilo que agora é e que dantes não estava aqui. Havia a agricultura e os campos, o canto e a lida (Fernando Pessoa), a poesia e o sonho, os barcos, as veredas e as sombras. Havia algo por que ainda fosse possível e preciso gritar. Não este silêncio e este sepulcro, nem este desmazelo prepotente, nem esta arte de que usam e abusam eles, os ocupantes, para nos fazerem calar a boca e ter paciência. O caso é que eu aprendi a revolução e a história na escola primária. Vivi-as no gesto largo dos heróis, colhi-as como as flores do mal e do vinho em Baudelaire. Não vim para assistir a isto de chegar uma gente sem idade nem memória de nada e obrigar-me a crer que tudo aquilo que vivi e amei não passou afinal de uma ficção ou de uma mentira. No meu tempo, havia livros escritos só para que os comessem os subalimentados do sonho, ó Natália Correia, e não esta gente que nos vira a cara, que cospe para o lado e diz entre dentes que a cultura é cega surda e muda como a pedra, como a “mula da cooperativa” (canção da ilha da Madeira, onde também vibram e morrem alguns dos sonhos que nos foram comuns).
Uma breve história de logros. A história súbita, devassada e oprimida dos meus logros portugueses. De pouco adianta escrevê-la: ninguém ma leria, querido Eça de Queirós. Não devo sequer contá-la: não há quem ouça. Fosse eu um príncipe com orelhas de burro (ou burro com orelhas de príncipe) e com mãos ou patas abriria a terra, a única confidente portuguesa, para a ela contar a longa relação dos logros lusitanos. Quem sou eu, porém, para duvidar da evidência e mesmo da certeza, da versão oficial e do comunicado semanal do conselho de ministros, das notícias do bloqueio e daquele que foi eleito para não ter dúvidas — no país onde já um dia vi passar ciências sociais e humanas como a Filosofia, a Geografia, a Historiografia, a Literatura, a História Universal da Infâmia, Jorge Luis Borges, a ditadura, a guerra colonial, o golpe de estado, a revolução; neste mesmo país onde hoje já não se é nem se está vivo pelos próprios meios da inteligência e da vontade; onde pouco ou nada vale a pena, e cuja consciência nos dói – mas onde já nem a consciência disso vale a pena ou a paixão?
 A crise é uma viagem pelo tempo acima – e esta a minha crónica dela. Penso-a e vivo-a com palavras. As sempre belas e amadas palavras. Amo-as tanto como às mulheres e às nuvens brancas que pairam sobre o azul plano e luminoso do mar. Porque eu gosto dos amores secretos que também a mim me escondem da evidência em pleno campo de batalha. Mas a minha guerra não defende o rei. Armei-me contra a crise que levou daqui a alma e trouxe consigo o exército estrangeiro. Atacar o ocupante, mandar prender o rei e o eleito na ilha mais distante de todas as ilhas, fora do coração do povo, para que um e outro vejam e provem deste mesmo exílio; e morram ambos, como nós morremos, do nosso desgosto de sabermos quem somos – e afinal termos perdido o navio do regresso a casa, à terra dos nossos pais, ao mar que um dia já foi só nosso e agora, definitivamente, não nos pertence. 
Escritor
Comunicação para o encontro literário Correntes d' Escritas 2014.

João de Melo (2014, 26 Fev.). «Viagem pela ideia da crise». Público. Disponível em:


segunda-feira, 10 de março de 2014

Mário de Sá-Carneiro

O recreio


Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar - 
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma veza folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...


Paris - outubro  1915

Mário de Sá-Carneiro (2005). «O Recreio», in: Poemas Completos (3.ª edição). Lisboa: Assírio e Alvim, p. 113.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Adília Lopes


POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO 
(cliché em papel couché)

1
Eu estou nua
eu estou viva
eu sou eu

Eu uso gravata
e, olhe, não foi barata

2
Sou uma poetisa-fêmea
falo do falo

Sou um poeta-macho
sacho

3
Sou um poeta-macho
sou um desmancha-prazeres
sou um empata-fodas

Sou uma poetisa-fêmea para mim
é tudo bestial

4
Sou um poeta-macho
sou arrogante
sou um pé de Dante

Sou um poeta-macho
sou um facto
sou um fato

5
Sou um poeta-macho
tenho um gabinete
sou uma poetisa-fêmea
escrevo na retrete

Sou um poeta-macho
sou um badalo
sou uma poetisa-fêmea
calo-me

6
A poetisa- fêmea
toca viola
o poeta-macho
viola-a


7
Senhora doutora,
os seus seios
são feios

o poeta-macho
assina o despacho


8
Não tenho culpa
não tenho desculpa
não tenho cuspo
não tenho tempo

9
Natália Correia, Mário Soares
antes me ponha
um cacto
mas não me mato

Adília Lopes (2009). «Poestisa-Fêmea, Poeta-Macho». In: Dobra. Poesia Reunida. Lisboa: Assírio e Alvim, pp. 462-463.