Mário de Sá-Carneiro
O recreio
Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar -
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...
- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...
Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma veza folia:
Morre a criança afogada...
- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...
Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...
- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...
Paris - outubro 1915
Mário de Sá-Carneiro (2005). «O Recreio», in: Poemas Completos (3.ª edição). Lisboa: Assírio e Alvim, p. 113.
segunda-feira, 10 de março de 2014
sexta-feira, 7 de março de 2014
Adília Lopes
POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO
(cliché em papel couché)
1
Eu estou nua
eu estou viva
eu sou eu
Eu uso gravata
e, olhe, não foi barata
2
Sou uma poetisa-fêmea
falo do falo
Sou um poeta-macho
sacho
3
Sou um poeta-macho
sou um desmancha-prazeres
sou um empata-fodas
Sou uma poetisa-fêmea para mim
é tudo bestial
4
Sou um poeta-macho
sou arrogante
sou um pé de Dante
Sou um poeta-macho
sou um facto
sou um fato
5
Sou um poeta-macho
tenho um gabinete
sou uma poetisa-fêmea
escrevo na retrete
Sou um poeta-macho
sou um badalo
sou uma poetisa-fêmea
calo-me
6
A poetisa- fêmea
toca viola
o poeta-macho
viola-a
7
Senhora doutora,
os seus seios
são feios
o poeta-macho
assina o despacho
8
Não tenho culpa
não tenho desculpa
não tenho cuspo
não tenho tempo
9
Natália Correia, Mário Soares
antes me ponha
um cacto
mas não me mato
Adília Lopes (2009). «Poestisa-Fêmea, Poeta-Macho». In: Dobra. Poesia Reunida. Lisboa: Assírio e Alvim, pp. 462-463.
POETISA-FÊMEA, POETA-MACHO
(cliché em papel couché)
1
Eu estou nua
eu estou viva
eu sou eu
Eu uso gravata
e, olhe, não foi barata
2
Sou uma poetisa-fêmea
falo do falo
Sou um poeta-macho
sacho
3
Sou um poeta-macho
sou um desmancha-prazeres
sou um empata-fodas
Sou uma poetisa-fêmea para mim
é tudo bestial
4
Sou um poeta-macho
sou arrogante
sou um pé de Dante
Sou um poeta-macho
sou um facto
sou um fato
5
Sou um poeta-macho
tenho um gabinete
sou uma poetisa-fêmea
escrevo na retrete
Sou um poeta-macho
sou um badalo
sou uma poetisa-fêmea
calo-me
6
A poetisa- fêmea
toca viola
o poeta-macho
viola-a
7
Senhora doutora,
os seus seios
são feios
o poeta-macho
assina o despacho
8
Não tenho culpa
não tenho desculpa
não tenho cuspo
não tenho tempo
9
Natália Correia, Mário Soares
antes me ponha
um cacto
mas não me mato
Adília Lopes (2009). «Poestisa-Fêmea, Poeta-Macho». In: Dobra. Poesia Reunida. Lisboa: Assírio e Alvim, pp. 462-463.
quinta-feira, 6 de março de 2014
Civilidade
não tussa madame
reprima a tosse
reprima a tosse
não espirre madame
reprima o espirro
reprima o espirro
não soluce madame
reprima o soluço
reprima o soluço
não cante madame
reprima o canto
reprima o canto
não arrote madame
reprima o arroto
reprima o arroto
não cague madame
reprima a merda
reprima a merda
e quando estourar
que seja devagarinho
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?
ok, monsieur.
Alberto Pimenta (1990). «Civilidade». In: Obra Quase Incompleta. Lisboa: Fenda, p.
175.
quarta-feira, 5 de março de 2014
António Ramos Rosa
É por Ti que EscrevoÉ por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso António Ramos Rosa (2001). «É por ti que escrevo que não és musa nem deusa». In: Antologia Poética. Lisboa: Dom Quixote, p.340.
É por Ti que EscrevoÉ por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso António Ramos Rosa (2001). «É por ti que escrevo que não és musa nem deusa». In: Antologia Poética. Lisboa: Dom Quixote, p.340.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
José Luís Peixoto
Quando
nasci
quando nasci. esperava que a vida.
me trouxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me trouxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era a escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.
me trouxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me trouxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era a escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.
José
Luís Peixoto (2007). «quando nasci», in: A
Criança em Ruínas (6.ª ed.). Vila Nova de Famalicão: Quasi, p. 37.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
José Luís Peixoto
na hora de pôr a mesa, éramos
cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
José
Luís Peixoto (2007). «na hora de pôr a mesa, éramos cinco», in: A Criança em Ruínas (6.ª ed.). Vila Nova
de Famalicão: Quasi, p. 13.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Mário Cesariny
aeroporto
a mala que segue viagem
assim como o avião
têm a grande vantagem
de não terem coração
só formas amplas - metais
de uma brancura de praia -
dentro vão sonhos a mais
é bom que a mala não caia
mala do sonho vais bem
assim deitada de lado?
chega-te a roupa que tens
ou chamamos o criado?
ou chamamos o fantasma
da queda livre no espaço,
vêrga do pássaro de aço
onde a poesia se espasma?
Mário Cesariny, «aeroporto», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 75.
aeroporto
a mala que segue viagem
assim como o avião
têm a grande vantagem
de não terem coração
só formas amplas - metais
de uma brancura de praia -
dentro vão sonhos a mais
é bom que a mala não caia
mala do sonho vais bem
assim deitada de lado?
chega-te a roupa que tens
ou chamamos o criado?
ou chamamos o fantasma
da queda livre no espaço,
vêrga do pássaro de aço
onde a poesia se espasma?
Mário Cesariny, «aeroporto», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 75.
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