quinta-feira, 6 de março de 2014


Civilidade


não tussa madame
reprima a tosse

não espirre madame
reprima o espirro

não soluce madame
reprima o soluço

não cante madame
reprima o canto

não arrote madame
reprima o arroto

não cague madame
reprima a merda

e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?

ok, monsieur.


Alberto Pimenta (1990). «Civilidade». In: Obra Quase Incompleta. Lisboa: Fenda, p. 175.


quarta-feira, 5 de março de 2014

António Ramos Rosa

É por Ti que EscrevoÉ por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 
António Ramos Rosa (2001). «É por ti que escrevo que não és musa nem deusa». In: Antologia Poética. Lisboa: Dom Quixote, p.340.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

José Luís Peixoto

Quando nasci

quando nasci. esperava que a vida.
me trouxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me trouxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era a escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.


José Luís Peixoto (2007). «quando nasci», in: A Criança em Ruínas (6.ª ed.). Vila Nova de Famalicão: Quasi, p. 37.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

José Luís Peixoto

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais 
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde 
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto (2007). «na hora de pôr a mesa, éramos cinco», in: A Criança em Ruínas (6.ª ed.). Vila Nova de Famalicão: Quasi, p. 13.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Mário Cesariny

aeroporto

a mala que segue viagem
assim como o avião
têm a grande vantagem
de não terem coração

só formas amplas - metais
de uma brancura de praia -
dentro vão sonhos a mais
é bom que a mala não caia

mala do sonho vais bem
assim deitada de lado?
chega-te a roupa que tens
ou chamamos o criado?

ou chamamos o fantasma
da queda livre no espaço,
vêrga do pássaro de aço
onde a poesia se espasma?

Mário Cesariny, «aeroporto», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 75.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Mário Cesariny

manhã fresca...

Manhã fresca, reclinada
pela primavera crescente.
O mais pequenino nada
está como se fôra gente.

De um rapaz que finda
(na alameda) uma novela perturbada,
uma mulher ainda linda
esperou mas não foi olhada

E na folhagem também
certo desencontro corre:
a primavera que vem
na trovoada que morre

Mário Cesariny (1981). «manhã fresca...», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 78.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Mário Cesariny

arte de inventar os personagens

Pomo-nos de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos seus nomes
e os personagens aparecem

Mário Cesariny (1981), «arte de inventar os personagens», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 137.