Mário Cesariny
manhã fresca...
Manhã fresca, reclinada
pela primavera crescente.
O mais pequenino nada
está como se fôra gente.
De um rapaz que finda
(na alameda) uma novela perturbada,
uma mulher ainda linda
esperou mas não foi olhada
E na folhagem também
certo desencontro corre:
a primavera que vem
na trovoada que morre
Mário Cesariny (1981). «manhã fresca...», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 78.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Mário Cesariny
arte de inventar os personagens
Pomo-nos de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos seus nomes
e os personagens aparecem
Mário Cesariny (1981), «arte de inventar os personagens», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 137.
arte de inventar os personagens
Pomo-nos de pé, com os braços muito abertos
e olhos fitos na linha do horizonte
Depois chamamo-los docemente pelos seus nomes
e os personagens aparecem
Mário Cesariny (1981), «arte de inventar os personagens», in: manual de prestidigitação. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 137.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
António Ramos Rosa
É aqui: talvez uma cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é, ela a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
António Ramos Rosa (1975). «E aqui: talvez uma cidade». In Respirar a sombra viva. Lisboa: Plátano Editora, p. 39.
É aqui: talvez uma cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é, ela a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
António Ramos Rosa (1975). «E aqui: talvez uma cidade». In Respirar a sombra viva. Lisboa: Plátano Editora, p. 39.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
António Ramos Rosa
O ignorante absoluto o imóvel nómada
no imponderável acorde da deriva da terra
com as velas do sangue voltadas para o mar
na incendiada inércia da sombra como um fruto
ouve o único canto que nunca se repete
e os lúcidos animais acaçapados
por detrás de arbustos invisíveis
A sua lucidez é o abandono às marés sem margens
e a sua sabedoria uma distracção que o conduz ao centro
António Ramos Rosa (1996). «O ignorante absoluto o imóvel nómada». In: Delta seguido de Pela Primeira Vez. Lisboa: Quetzal Editores, p. 23.
O ignorante absoluto o imóvel nómada
no imponderável acorde da deriva da terra
com as velas do sangue voltadas para o mar
na incendiada inércia da sombra como um fruto
ouve o único canto que nunca se repete
e os lúcidos animais acaçapados
por detrás de arbustos invisíveis
A sua lucidez é o abandono às marés sem margens
e a sua sabedoria uma distracção que o conduz ao centro
António Ramos Rosa (1996). «O ignorante absoluto o imóvel nómada». In: Delta seguido de Pela Primeira Vez. Lisboa: Quetzal Editores, p. 23.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
António Ramos Rosa
No limiar
Uma qualidade nocturna e quase amante
talvez violenta e no entanto branca
desperta uma abóbada de arvoredo
um rumor lento uma nudez de sono
e grandes tufos de contornos negros
É um domínio aqui uma convergência de fluxos
Nenhuma imagem se abre na clareira igual
Uma palavra ou o silêncio a ligeireza do ar.
António Ramos Rosa (1983). «No Limiar». In Gravitações. S.l.: Litexa, p. 55.
No limiar
Uma qualidade nocturna e quase amante
talvez violenta e no entanto branca
desperta uma abóbada de arvoredo
um rumor lento uma nudez de sono
e grandes tufos de contornos negros
É um domínio aqui uma convergência de fluxos
Nenhuma imagem se abre na clareira igual
Uma palavra ou o silêncio a ligeireza do ar.
António Ramos Rosa (1983). «No Limiar». In Gravitações. S.l.: Litexa, p. 55.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
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