quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

António Ramos Rosa

O ignorante absoluto o imóvel nómada
no imponderável acorde da deriva da terra
com as velas do sangue voltadas para o mar
na incendiada inércia da sombra como um fruto
ouve o único canto que nunca se repete
e os lúcidos animais acaçapados
por detrás de arbustos invisíveis
A sua lucidez é o abandono às marés sem margens
e a sua sabedoria uma distracção que o conduz ao centro

António Ramos Rosa (1996). «O ignorante absoluto o imóvel nómada». In: Delta seguido de Pela Primeira Vez. Lisboa: Quetzal Editores, p. 23.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

António Ramos Rosa

No limiar

Uma qualidade nocturna e quase amante
talvez violenta e no entanto branca
desperta uma abóbada de arvoredo
um rumor lento uma nudez de sono
e grandes tufos de contornos negros

É um domínio aqui uma convergência de fluxos
Nenhuma imagem se abre na clareira igual
Uma palavra ou o silêncio a ligeireza do ar.

António Ramos Rosa (1983).  «No Limiar». In Gravitações. S.l.: Litexa, p. 55.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

António Ramos Rosa

Não pensar
é mais difícil
do que pensar
e o pensamento
é tanto mais rico e fluído
quanto inclui em si
o vazio do não pensar

António Ramos Rosa (2012). Em torno do imponderável. S.l.: Edições Licorne, p. 29.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

António Ramos Rosa

Ninguém morre
como se chegasse
ao fim da vida
A morte é sempre um corte
extemporâneo


António Ramos Rosa (2012). Em torno do imponderável. S.l.: Editora Licorne, p. 23.


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Mia Couto
No ano em que Mia Couto recebe o Prémio Camões, recordamos um dos seus primeiros poemas publicados em Raiz do Orvalho.
Recordemos o que nos diz o autor na introdução à reedição destes seus poemas iniciais:
            “Hesitei muito e muito tempo até aceitar republicar este livro de versos. A edição original foi publicada em Maputo, em 1983. Rapidamente o livro se esgotou e tenho, ao longo deste tempo, recebido várias sugestões para o reeditar. Desde então, porém, a minha escrita derivou para outros universos e hoje sou um poeta cuja prosa é muito distante daquilo que se pode pressentir em Raiz do Orvalho. Eu próprio não me reconheço em muitos desses versos. Alguns não resistiram ao tempo, outros adoeceram de serem tão íntimos. Assim, ao aceder a publicar a minha poesia inicial eu senti que devia escolher apenas alguns dos poemas da primeira versão de Raiz do Orvalho. Acrescentei outros versos inéditos, todos eles datados da década de oitenta. Assumo estes versos como parte do meu percurso. Foi daqui que eu parti a desvendar outros terrenos. O que me liga a este livro não é apenas memória. Mas o reconhecimento de que, sem esta escrita, eu nunca experimentaria outras dimensões da palavra.” (Mia Couto)

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço

Setembro de 1977

Couto, Mia (2001). Raiz de Orvalho e Outros Poemas
(3ª ed.). Lisboa: Editorial Caminho. p. 13.

Também disponível em Citador


Terminamos com a epígrafe de Cada Homem é uma Raça, de Mia Couto:

            Inquirido sobre a sua raça, respondeu:
            – A minha raça sou eu, João Passarinheiro.
Convidado a explicar-se, acrescentou:
            – Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.

                               (Extracto das declarações do vendedor de pássaros.)

Couto, Mia (1992). Cada Homem é uma Raça (2ª ed.). Lisboa: Editorial Caminho. p. 9.


A equipa de “Uma página por dia” deseja-vos Boas Férias!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Onésimo Teotónio Almeida
A Ilha desconhecida
[excerto]
       Ou a Bela Adormecida. Hoje apetece-me falar de algo que a quase totalidade dos leitores conhece apenas de nome. Vou meter-me na contradição de fazer alarde da quinta-essência da ilha – São Jorge – esperando que poucos ou nenhuns queiram ir verificar a fonte do meu entusiasmo, porque esse seria o fim dela como museu, não sei se do Tempo, do Silêncio, do Verde ou da Paz.
       Raul Brandão, quem melhor viu os Açores de fora e quem ajudou as gerações de dentro, que vieram depois dele, a olhar o arquipélago, não parece ter lá estado muito tempo. Nesse belo livro de viagens As Ilhas Desconhecidas, chamou-lhe “ilha fúnebre”. “Pastagens, pastagens… Terra triste, impressão severa.” Confessava que lhe falavam do nobre pitoresco, mas tudo perdera para si o interesse desde que topara com um pastor, cara de estranho, a falar-lhe inexpressivamente da vida. Com indiferença. O isolamento comunicara-lhe a mudez.
       Por São Jorge caí de amores à primeira vista há um quarto de século. A ilha ficou-me um vício a matar periodicamente, mas tem piorado com o remédio da cura.
       São Jorge não se escreve, embora alguns poetas tenham experimentado. Da sua Lisboa, Carlos Faria, o mais antigo e mais fanático jorgense de coração que conheço, por lá ia em serviço e não se cansava de tentar: “Sentado no ponto mais alto da Ilha, (…) toda a paz me acontece. (…) Nenhuma altitude nos tira do pé do mar. (…) Longe do mar, aqui no mar?” Ou: “A Costa Norte rebenta de silêncio.” “ Um silêncio / corre dos meus ouvidos…”. “Salto verde entre o céu e o mar”. Ou ainda: “São asas estes dias de bruma, este / cobrir de distância a viagem / que nos cerca!”
       […]
       Em São Jorge, só a conversa não é ruído. Por isso aquele rapaz da Beira, povoação de umas escassas centenas de pessoas, me dizia no seu falar arrastado: “ Eu já não podia com o barulho e mudei-me para a Fajã de João Dias”. Desce-se também só a pé e a caminhada não é fácil. Dizem, porque eu nunca fui, nem me devem querer lá. Ou deve, no singular, pois resta saber se morará mais alguém ao fundo daqueles quatrocentos metros de rocha íngreme, diante do mar Atlântico que se estende até ser Árctico.
       O leitor dirá que escrevo tocado pela nostalgia da distância. Alguns amigos açorianos dizem-me que sim, que da América a insularidade é mais romântica. E o meu amigo Daniel de Sá deve ter pensado em gente como eu quando escreveu no seu Ilha Grande Fechada (já lhe leram esse belo romance?) que emigrar é a pior maneira de ficar na ilha.
       Ponto de vista dele, claro. Do meu, se calhar diria que emigrar é, afinal, a melhor maneira de lá ficar.

Almeida, Onésimo Teotónio (1997). Rio Atlântico.
Lisboa: Edições Salamandra. pp. 175-178.