segunda-feira, 3 de junho de 2013

Hanif Kureishi
Midnight All Day
[excerpt]

Ian lay back in the only chair in the room in Paris, waiting for Marina to finish in the bathroom. She would be some time, since she was applying unguents – seven different ones, she had told him – over most of her body, rubbing them in slowly. She was precious to herself.
            He was glad to have a few minutes alone. There had been many important days recently; he suspected that this would be the most important and that his future would turn on it.
            For the past few mornings, before they went out for breakfast, he had listened to Schubert’s Sonata in B Flat Major, which he had not previously known. Apart from a few pop tapes, it was the only music in Anthony’s flat. Ian had pulled it out from under the futon on their first day there.
            Now, as he got up to play the CD, he glimpsed himself in the wardrobe mirror and saw himself as a character in a Lucian Freud painting; a middle-aged man in a thin, tan raincoat, ashen-faced, standing beside a dying pot plant, overweight and with, to his surprise, an absurd expression of hope, or the desire to please, in his eyes. He would have laughed, had he not lost his sense of humour.
[…]
Kureishi, Hanif (1999). Midnight All Day. In Midnight All Day.
London: Faber and Faber. p. 157.

Páginas paralelas:
The official Hanif Kureishi web site (includes original writing)
Schubert: Sonata in B Flat D. 960, performed by Alicia de Larrocha (1923-2009)
Lucian Freud’s Art available here

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Mário Zambujal

O Repórter


Todo o mundo é imperfeito, mesmo redacção de jornal. Em trinta fatigantes anos de ofício, Roseiral foi a única reportagem de Cacildo Tavares alheia à sua especialidade: desastres. Repórter de tanta tarimba, jornalista de pena leve, e não o sobem aos altos temas, artigos requerendo experiência e ponderação. Só desastres. Má vontade, vexame e, como se não bastasse, sempre o azar pendurado à perna. […]

Bom, cheguei ao local do sinistro. Quantas vezes, na minha longa carreira, escrevi eu «local do sinistro»? No mínimo duas páginas em corpo sete, só para locais de sinistros. Espreitei o carro espalmado debaixo do camião.
Tiraram gente?
Dois, disse o bombeiro.
Dois, aponto. O número é que varia. Mas dois ou quatro, os corpos são retirados de uma amálgama de ferros torcidos. Escrevo: «Amálgama de ferros torcidos», a caneta já vai sozinha, é como desenhar a assinatura. Compreende: são anos e anos de amálgama de ferros torcidos. E a caneta vai por aí fora, adiantando-se às informações: «ao fazer uma ultrapassagem...»
Foi ultrapassagem, não foi?
Fatal como o destino, confirmou o bombeiro.
E do «violento embate resultou...» Violento embate, desnecessário perguntar. Basta ver a amálgama de ferros torcidos.
Morreram os dois?
Logo.
Pois: «do violento embate resultou a morte imediata do condutor e do seu acompanhante».
Penso: mil vezes, já escrevi esta notícia mil vezes. Diferente, só o local do sinistro e a identidade das vítimas. E isso que importa aos leitores do jornal? Interessa às famílias, coitadas, cabe às autoridades a informação.
Há por aí uma autoridade?, reclamei.
Diga, ofereceu-se o republicano.
Já se conhece a identidade das vítimas?
Vá à morgue, talvez lá.
Vá à morgue, a conversa dele! E o tempo? Jornal tem horas, a partir das tantas todo o chefe é histérico. Boa vida na redacção. Ele há colunista, colador de telegrama, telefonador para todo o sítio, legendador de fotografias, subchefe, chefe, superchefe, maxichefe. E fora, no picanço, quem? Cacildo Tavares, repórter de desastres.
Ó sô guarda, o carro ia na esgalha, não?
A uns cento e sessenta.
Evidente: «lançado a louca velocidade...» E o motorista do camião? Ferido?
Nada. Foi ao hospital mas era só nervoso, disse o guarda.
Claro: «vítima de forte comoção, o motorista do veículo pesado recebeu assistência no estabelecimento hospitalar mais próximo, recolhendo depois a casa». Recolheu?
Não o vejo por aí.
Então recolheu. Depois disto, o homem não ia ao cinema. Bem, só me falta a identificação dos sinistrados. A chapinha do carro: não tem nome lá?
Qual carro, um monte de sucata.
Bem vejo: uma amálgama de ferros torcidos.

Olhei as horas: nove e meia, já? [...]
Ó sô guarda, vou indo, jornal às tantas fecha. Importa-se de me telefonar logo que conheça a identidade das vítimas? Pronto, agradecido. Não acrescenta nada, claro, cem mil leitores querem lá saber se eram Manuel ou Alfredo, Timóteo ou Ezequiel. Mas são as regras: quem, onde, quando, o quê e porquê, está a compreender?



Zambujal, Mário (1986). “O Repórter”. In À Noite Logo se Vê. S. l.: Círculo de Leitores, pp. 39-42.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Beirut

Postcards from Italy


Beirut/Alma Har'el (2007). Postcards from Italy. The Gulag Orkestar. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RjzVbXeD_8E [consultado a 30 de maio de 2013].

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Jacques Brel
"Ne me quitte pas"


Fonte: Jacques Brel, «Ne me quitte pas». Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=Vz6r0TP4FBI (acedido a 28 de maio de 2013).

terça-feira, 28 de maio de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen

Guerra ou Lisboa 72

Partiu vivo jovem forte
Voltou bem grave e calado
Com morte no passaporte

Sua morte nos jornais
Surgiu em letra pequena
É preciso que o país
Tenha a consciência serena

Sophia de Mello Breyner Andresen (s.d.). "Guerra ou Lisboa 72" In Poemas Escolhidos. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 127.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Poeta Trágico

No princípio era o labirinto
O secreto palácio do terror calado
- Ele trouxe para o exterior o medo
Disse-o na lisura dos pátios no quadrado
De sol de nudez e de confronto
Expôs o medo como um toiro debelado

Sophia de Mello Breyner Andresen (s.d.). "O Poeta Trágico" In Poemas Escolhidos. Lisboa: Círculo de Leitores, p. 117.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Anselmo Borges, "Animais humanos e os outros"

Na reflexão sobre o ser humano, divulga-se hoje a tese do animalismo, isto é, entre o homem e os outros animais não haveria uma diferença qualitativa, mas apenas de grau. Por mim, continuo a pensar que a diferença é qualitativa e essencial. Com isto, não estou a retirar-lhes valor intrínseco e até penso que lhes é devido tratamento adequado, recusando sofrimentos cruéis e inúteis.
Como escreveu Edgar Morin, "embora muito próximo dos chimpanzés e gorilas, e tendo 98% de genes idênticos, o ser humano traz uma novidade à animalidade". Há, apesar de tudo, entre etólogos e antropobiólogos, convergência bastante no reconhecimento de que entre o animal e o homem se deu um salto qualitativo essencial. Esse salto manifesta-se, em termos gerais, na autoconsciência, na autoposse de si mesmo como eu único e centro de identidade, na linguagem simbólica e reflexiva, na capacidade de abstrair e formar conceitos, na transcendência em relação ao espaço e ao tempo, na criação e assunção de valores éticos e estéticos, no pré-saber da morte própria vinculado às crenças religiosas, na pergunta pelo ser e pelo seu ser.
O médico e filósofo Pedro Laín Entralgo chamou a atenção para o facto de haver um conjunto de características que mostram essa diferença e chamou-lhes "notas", precisamente porque são observáveis.
O homem não se encontra na simples continuidade da vida no sentido biológico. Como escreveu Max Scheler, o homem é "o asceta da vida", pois é capaz de dizer não aos impulsos instintivos. Perante a comida apropriada, o animal não resiste a comer, mas o homem é capaz de dizer não, por motivos de ascese ou pura e simplesmente para mostrar a si mesmo e aos outros que tem a capacidade de resistir e dizer não. F. J. Ayala vê aqui "a base biológica da conduta moral da espécie humana, nota essencialmente específica dela". Porque é capaz de renunciar, abster-se, deliberar, optar, o homem é um animal livre e moral.
Evidentemente, os outros animais também comunicam, mas a linguagem duplamente articulada, que nos permite o pensamento simbólico e abstracto e nos dá acesso à reflexão, ao mundo da cultura, à abertura ao ser, ao passado e ao futuro, ao que há e ao que não há, à transcendência, à distinção entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, como já Aristóteles viu, manifesta a singularidade única do ser humano, a ponto de, por causa dela, o Prémio Nobel J. Eccles concluir por uma descontinuidade ontológica entre o homem e os outros animais.
Mesmo biólogos (por exemplo, Jakob von Uexküll) notaram que só o homem tem mundo (Welt), já que os animais têm meio (Umwelt, mundo circundante). Por isso, estes vivem na imediatidade da estimulação enquanto o homem vive no real, é um "animal de realidades", como repetia Zubiri.
O repouso de O Pensador, de Rodin, não é simples repouso. O que nele se mostra é a capacidade de ensimesmamento, descida à sua intimidade e submersão na sua subjectividade pessoal. Paradoxalmente, porque o ser humano é abertura à totalidade do ser, vem a si como único, na experiência de um eu pessoal. Escreveu Lacan: "Possuir o Eu na sua representação: este poder eleva o homem infinitamente acima de todos os outros seres vivos sobre a terra. Por isso, é uma pessoa."
Na abertura ilimitada ao ser, tem o seu fundamento a pergunta sem limites, que caracteriza o homem: toda a resposta dá sempre lugar a novas perguntas. Por isso, o homem é criador do novo e ser do transcendimento, de tal modo que não pode deixar de perguntar pelo próprio Deus, pelo Fundamento e Sentido últimos.
Se admitimos a evolução, não é de estranhar que encontremos já nos chimpanzés, gorilas, bononos, antecedentes do que caracteriza os humanos. No entanto, com o homem, o salto foi para uma realidade essencialmente nova. Para lá das notas apontadas e outras que poderíamos apresentar, como a criação e contemplação da beleza, o levantamento de edifícios jurídicos para dirimir pleitos, o sorriso e a sepultura, está o facto de só o homem levar consigo precisamente a questão da diferença entre ele e os outros animais. Só ele tem deveres para com eles, sem reciprocidade.
Anselmo Borges, "Animais humanos e os outros",
in Diário de Notícias, 11.05.2013; disponível neste endereço