segunda-feira, 6 de maio de 2013

Daniel Pennac, Excerto de "Mágoas da Escola"

     [...]
     A verdade é que fui um mau aluno e que a minha mãe nunca se refez completamente desse desgosto. Hoje que a sua consciência de senhora muito idosa abandona os limites do presente e reflui lentamente para os longínquos arquipélagos da memória, os primeiros recifes que emergem recordam-lhe a inquietação que a devorou durante toda a minha escolaridade.
     Pousa em mim um olhar inquieto e, lentamente:
      O que fazes na vida?  
 
     [...]  

     Nenhum futuro.
     Crianças que nunca virão a ser alguém.
     Crianças desesperantes.
     No ensino primário, no preparatório, depois no secundário, eu também acreditava piamente nesta existência sem futuro.
     É mesmo a primeira coisa de que se convence um mau aluno.
    Com essas notas, a que podes tu aspirar?

    – Acreditas que alguma vez chegarão ao sexto ano? (Ao sétimo, ao oitavo, ao nono, ao décimo, ao décimo primeiro, ao décimo segundo...)

       – Que probabilidade terás de fazer o bac, diz-me, por favor, faz as contas, que probabilidade em cem?
     [...]
Daniel Pennac (2009). Mágoas da escola. Porto: Porto Editora: p. 15 e 51

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Ernst Jünger, Excerto de "Sobre as falésias de mármore"



“Nestas lutas, que descambavam em caça ao homem, emboscadas e crimes de fogo posto, os partidos perderam todo o sentido da medida. Cedo se ficou com a impressão de que eles já mal se consideravam entre si como homens, semeando-se a sua linguagem de palavras ordinariamente só aplicadas aos parasitas, que importa a todo o custo destruir e exterminar pelo fogo. Só sabiam reconhecer o crime no campo oposto, pelo que era entre eles honroso o que no adversário era abjecto. Enquanto cada um considerava os mortos dos outros quanto muito dignos de ser enterrados de noite e às escuras, deviam os do seu campo ser envoltos no lençol de púrpura, devia ressoar o eburnum em sua intenção e subir nos ares a águia, levando até aos deuses a imagem viva de heróis e profetas.
         Em boa verdade, nenhum dos grandes cantores, por mais que os aliciassem a peso de ouro, se dispôs a participar em semelhante profanação. Dirigiram-se então aqueles aos harpistas, que tocam nos bailes das romarias, e aos citaristas cegos que, diante dos triclinia dos lupanares, alegram os embriagados clientes com canções sobre a concha de Vénus e sobre o Hércules glutão. Campeões e bardos eram, pois, dignos uns dos outros.
         É bem sabido, no entanto, como o metro é incorruptível. Os fogos da destruição não alcançam as suas colunas e os seus portais invisíveis. Não há vontade que se imponha à harmonia, e não passam assim de vigaristas que se defraudam a si próprios os que presumiam poder comprar oferendas sacrificiais com a dignidade do eburnum. Assistimos apenas à primeira destas exéquias, e tudo se passou exactamente como tínhamos previsto. O mercenário, de quem se exigia estivesse à altura sublime e ígnea matéria do poema, não tardou a gaguejar e a atrapalhar-se. Mas logo recuperou a fluência servindo-se dos iambos abjectos do ódio e da vingança, que sibilavam no pó. Presenciando este espectáculo, víamos a multidão ostentando as túnicas cor de púrpura que se envergam para o eburnum, e também os magistrados e o clero com as vestes talares. Outrora, quando a águia se elevava nos ares, fazia-se silêncio; agora, deu-se uma explosão de júbilo selvagem.
        […]”

Ernst Jünger (1988). Sobre as falésias de mármore.
Lisboa, Veja, p..