quinta-feira, 2 de maio de 2013

Ernst Jünger, Excerto de "Sobre as falésias de mármore"



“Nestas lutas, que descambavam em caça ao homem, emboscadas e crimes de fogo posto, os partidos perderam todo o sentido da medida. Cedo se ficou com a impressão de que eles já mal se consideravam entre si como homens, semeando-se a sua linguagem de palavras ordinariamente só aplicadas aos parasitas, que importa a todo o custo destruir e exterminar pelo fogo. Só sabiam reconhecer o crime no campo oposto, pelo que era entre eles honroso o que no adversário era abjecto. Enquanto cada um considerava os mortos dos outros quanto muito dignos de ser enterrados de noite e às escuras, deviam os do seu campo ser envoltos no lençol de púrpura, devia ressoar o eburnum em sua intenção e subir nos ares a águia, levando até aos deuses a imagem viva de heróis e profetas.
         Em boa verdade, nenhum dos grandes cantores, por mais que os aliciassem a peso de ouro, se dispôs a participar em semelhante profanação. Dirigiram-se então aqueles aos harpistas, que tocam nos bailes das romarias, e aos citaristas cegos que, diante dos triclinia dos lupanares, alegram os embriagados clientes com canções sobre a concha de Vénus e sobre o Hércules glutão. Campeões e bardos eram, pois, dignos uns dos outros.
         É bem sabido, no entanto, como o metro é incorruptível. Os fogos da destruição não alcançam as suas colunas e os seus portais invisíveis. Não há vontade que se imponha à harmonia, e não passam assim de vigaristas que se defraudam a si próprios os que presumiam poder comprar oferendas sacrificiais com a dignidade do eburnum. Assistimos apenas à primeira destas exéquias, e tudo se passou exactamente como tínhamos previsto. O mercenário, de quem se exigia estivesse à altura sublime e ígnea matéria do poema, não tardou a gaguejar e a atrapalhar-se. Mas logo recuperou a fluência servindo-se dos iambos abjectos do ódio e da vingança, que sibilavam no pó. Presenciando este espectáculo, víamos a multidão ostentando as túnicas cor de púrpura que se envergam para o eburnum, e também os magistrados e o clero com as vestes talares. Outrora, quando a águia se elevava nos ares, fazia-se silêncio; agora, deu-se uma explosão de júbilo selvagem.
        […]”

Ernst Jünger (1988). Sobre as falésias de mármore.
Lisboa, Veja, p.. 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Antero de Quental


Sonho Oriental


Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...

O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...

E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.

Quental, Antero de (1991). Poesia Completa
(Vol. 1). [Lisboa]: Círculo de Leitores. p. 206.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Mafalda Ivo Cruz

A Vida é Sonho
[excerto do conto]

       «Tenho aqui estas páginas. Fazem-me lembrar a cauda de um pavão. Vou ter de lhe arrancar as penas.»
       Dias de sol.
       – É que tenho uma mancha num pulmão, sabe? Não me deixam entrar no Curry Cabral por causa desta sina – fala-me pelo postigo da porta que deixei aberto, sorri, um grande sorriso sem dentes, atira a cabeça para trás.
       – Tome – estendo-lhe uma moeda e fecho o postigo. Sei que estás perto do céu.
       A rua desce, estreita, com passeios íngremes, linhas curvas. Roupa estendida às janelas, gritos preguiçosos. «Fernando, Fernando, és tu?» Alguém que fala para um telemóvel. Está sol. Jogam às cartas aqui mesmo em frente à minha porta. Tudo é inocente. Ou parece. Porquê hoje? Anjo, diz-me.
       Nunca sei a que horas vai passar o meu vizinho que pede esmola. E depois corre para o Bairro Alto, para a esquina onde estão os vendedores, os dealers. Vai veloz com o sol a queimar-lhe a pele como se fosse iluminado pelo Espírito Santo. E eu gosto que a vida seja assim. Sangrenta.
       «Isto é sangue, é uma marca de sangue.» Mas não era. Era tinta encarnada que tinha manchado o passeio diante da loja das restauradoras de móveis. Devem ter sido elas. São três raparigas.
       A mancha ficou ali. Que irá acontecer hoje? Misericórdia, porque havia de viver com um escritor? Despediu-se e virou a esquina. Foi ontem à noite, quando a lua estava encoberta.
       «Vou ter de as arrancar.»
       Insistiu muito.
       Sim? Que é que isso me interessa? Ou já te passaste da cabeça? Esquece. Esquece toda a minha vida, anda, vai lá à tua que se faz tarde.
       «Vou ter de as arrancar.» Então vai lá, homem! Pensas que fazes falta? Porque em todas as vidas se faz tarde. Porque hoje.
       «Hoje não» - pedi-lhe.
       E ele insistia, insistiu muito, mas e não quis saber.

       […]

Cruz, Mafalda Ivo (2003). A Vida é Sonho. In João de Melo et al, Histórias para
 Ler à Sombra: Contos (pp. 91-109). Lisboa: Publicações Dom Quixote.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

António Victorino d’Almeida
 
Um Caso de Bibliofagia

[excerto]


       […]
       Um relâmpago intensíssimo iluminou-lhe a porta do corredor. Abriu-a devagar e certificou-se de que todos dormiam. Do quarto do mano Lourenço saíam roncos bestiais. Era um cevado, mesmo a dormir! Ria-se com as anedotas, mas tinha inveja de quem as fazia, recalcava o despeito em ódios surdos que explodiam, tempestuosos, nas situações mais imprevistas. Ameaçava de morte os espanhóis que encontrasse, por causa do sino roubado e transformado em canhão; e participara numa espera a um palhaço andaluz que trabalhava num circo… O homem ficara belfo, sem dentes, os lábios abertos, apresentara queixa na polícia e confessara que era português, natural de Ovar, jamais passara a fronteira… O mano Lourenço sabia disso, mas tinha-lhe asco por fazer rir os outros! E por falta de testemunhas, o processo não fora avante, impunes os agressores… Era uma besta, o mano Lourenço! Ressonava como um porco! A mana Honorata ressonava em assobio, como as panelas de pressão ao lume… O mano Joaquim ressonava menos, mas rosnava frases, palavrões, queixumes, revolvia-se a noite inteira e chegava a cair da cama! A Aidinha parecia uma rola e dormia com uma boneca que businava [sic] quando lhe mexiam… Dormiam todos, apesar da trovoada, moídos pelo serão com as visitas, pelo álcool do espumante, dos licores e dos bagaços. Dormiam sempre que havia festa, cada um com os seus sonhos, cada um com os seus grunhidos… E de novo a luz de um relâmpago iluminou o caminho de Leonardo: já estava na sala onde havia uma estante pomposamente chamada – a biblioteca… Juntos com estatuetas e retratos, os livros alinhavam-se, lado a lado. Havia livros de todos os tamanhos, de todas as espessuras, de todas as cores… Eram belos, os livros! E ele, que era poeta, embora não soubesse fazer versos, deslizava a mão lasciva pela fieira das lombadas e sentia aquele estranho calor dos poentes cor-de-rosa, ou da espreita minuciosa de um canto de corredor onde a Aidinha tinha mil dedos…
       Detiveram-se os seus dedos na carícia de um livro amarelado, de capa já esgarçada pelo tempo, nunca pelo uso… Lás fora, a tempestade uivava num furor de invernia escabrosa. Na sala, abraçado à estante, Leonardo sorria e recordava, rendia-se ao prazer da memória, ouvia a voz do Professor chamar-lhe Poeta, revivia o longo diálogo em que falara e fora ouvido, as palavras justas e cuidadas que escolhera para dar de si a imagem saudável de um sôfrego devorador da Filosofia que é a base transcendente do moderno saber…
       E numa volúpia gestual de câmara lenta, levou o livro amarelado à boca e começou a trincá-lo, primeiro suavemente, mordiscando as folhas do prefácio, depois com mais intensidade, num mastigar vigoroso, até ao rasgar das páginas em golpes asselvajados de mandíbula gulosa e insaciável!
       Nessa noite devorou o seu primeiro livro.
………………………………………………………………………………………………………………….
[…]

D’Almeida, António Victorino (1985). Um Caso
de Bibliofagia. Lisboa: Edições Rolim. pp. 48-49.


Páginas Paralelas:
Biografia do autor disponível aqui

Quando eu for grande: “Maestro António Vitorino de Almeida realiza sonho de criança”(SIC, 18 de fevereiro de 2013). Disponível aqui

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Natália Correia

Poemas a Rebate
[excerto]

Tudo chegava pelo lado da sombra, do terror, da pegajosa ignomínia. Os esbirros amordaçavam a luz. Com as mãos mergulhadas nas estrelas que escondia nos bolsos o poeta assobiava uma pátria de brancura e paz. O poeta dizia-se: quem um só dia amou a liberdade é plenitude de alma que se reconhece. E deu flor: um poema para ensinar risadas de camélias aos animais do medo. O poema foi arrastado para a treva onde os estranguladores das palavras constroem o silêncio da sala de espelhos onde o tirano se masturba. O poema atravessou o inferno e alguns dos seus sons ficaram queimados.
Uma vez exalado o grito de libertação que fez entrar a Cidade no exercício dos seus timbales o poema pediu ao poeta que lhe arrancasse as folhas mais ressequidas e em seu lugar pusesse as gotas de água do canto que quer correr para a vida. E o poeta fez a vontade ao poema que queria cantar. E aqui e além o corrigiu dotando-o da actualidade que as máquinas do inferno lhe roubaram.


Correia, Natália (1975). Poemas a Rebate. Lisboa: Publicações Dom Quixote. p. 16.



Na Introdução a esta colectânea, Natália Correia afirma:

[…] muitos dos poemas recolhidos neste volume foram expulsos da circulação, tendo como único escoamento aquela clandestinidade que nos ia alimentando com os frutos proibidos pela psicopatia censória.
       Outras notas são vibrações de um manifesto de mais longo curso contra as coisas do mundo que morrem onde deviam viver. […]

       Lisboa, 9 de Abril de 1975

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Maria Ondina Braga

Angústia em Pequim

[excerto]

 

ANGÚSTIA EM PEQUIM

            Esta noite acho que chamei pela minha mãe, ouvi-me chamar por ela no sono. Vivíamos à beira de um rio, e não sei quem levou-me para a outra banda e me abandonou lá. Ou teria eu ido de moto próprio, passando o rio a vau, e agora as águas subiam e cobriam-me? Ou foi a família toda que atravessou para a margem oposta deixando-me para trás? Um antigo sonho mau a empecer-me esta noite em Pequim. Sonhar com água, minha filha, águas revoltas a tolher-nos as passadas, sinal de que estamos sós no meio de estranhos, fomos atraiçoados pelos amigos. Para distrair as ideias, ando de cá para lá a perguntar a mim mesma quem morará no andar de baixo. O jornalista sírio que tão bem se entende com o menino mongoloide da senhora francesa? Cuido que sim, mas não tenho a certeza, que as portas aqui não se fecham, encostam-se, e nós desaparecemos no topo de cada lanço de escadas, uns após outros, como sombras. Uma coisa comparante ao teatro: este sai pela esquerda, aquele entra pela direita, e as saídas e as entradas, de papel.
       Ando para trás e para diante, no escuro, afeita à casa no escuro. Do corredor para a cozinha, range a esteira de bambu, e vejo o tigre amarelo-ocre de garras afiadas. A tábua do soalho que cede é a terceira a contar do quarto, a ponta esfiapada da carpete fica do lado da janela, e na base da banheira falha um azulejo por onde decerto se esgueiram baratas. De tudo informada, eu, menos de quem vive por cima e por baixo de mim. Como se os vizinhos mais não fossem do que mitos. Impossível jurar, por exemplo, que aquela música à tardinha provém das traseiras do prédio. E, embora figure uma mulher ao piano, não ouso indagar – com medo de ouvir que não há cá piano nenhum? […]


Braga, Maria Ondina (1984). Angústia em Pequim. Lisboa: Ulmeiro. pp. 153-154.