Relógio, reprodução da obra disponível no CD 25 de Abril (disponível em 30.04.2013)
quarta-feira, 1 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Antero de Quental
Sonho Oriental
Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...
O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...
E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...
O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...
E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
Quental, Antero de (1991). Poesia Completa
(Vol. 1). [Lisboa]: Círculo de Leitores. p. 206.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Mafalda Ivo Cruz
A Vida é Sonho
[excerto do conto]
«Tenho aqui estas páginas. Fazem-me lembrar a cauda de um pavão. Vou ter de lhe arrancar as penas.»
Dias de sol.
– É que tenho uma mancha num pulmão, sabe? Não me deixam entrar no Curry Cabral por causa desta sina – fala-me pelo postigo da porta que deixei aberto, sorri, um grande sorriso sem dentes, atira a cabeça para trás.
– Tome – estendo-lhe uma moeda e fecho o postigo. Sei que estás perto do céu.
A rua desce, estreita, com passeios íngremes, linhas curvas. Roupa estendida às janelas, gritos preguiçosos. «Fernando, Fernando, és tu?» Alguém que fala para um telemóvel. Está sol. Jogam às cartas aqui mesmo em frente à minha porta. Tudo é inocente. Ou parece. Porquê hoje? Anjo, diz-me.
Nunca sei a que horas vai passar o meu vizinho que pede esmola. E depois corre para o Bairro Alto, para a esquina onde estão os vendedores, os dealers. Vai veloz com o sol a queimar-lhe a pele como se fosse iluminado pelo Espírito Santo. E eu gosto que a vida seja assim. Sangrenta.
«Isto é sangue, é uma marca de sangue.» Mas não era. Era tinta encarnada que tinha manchado o passeio diante da loja das restauradoras de móveis. Devem ter sido elas. São três raparigas.
A mancha ficou ali. Que irá acontecer hoje? Misericórdia, porque havia de viver com um escritor? Despediu-se e virou a esquina. Foi ontem à noite, quando a lua estava encoberta.
«Vou ter de as arrancar.»
Insistiu muito.
Sim? Que é que isso me interessa? Ou já te passaste da cabeça? Esquece. Esquece toda a minha vida, anda, vai lá à tua que se faz tarde.
«Vou ter de as arrancar.» Então vai lá, homem! Pensas que fazes falta? Porque em todas as vidas se faz tarde. Porque hoje.
«Hoje não» - pedi-lhe.
E ele insistia, insistiu muito, mas e não quis saber.
[…]
Cruz, Mafalda Ivo (2003). A Vida é Sonho. In João de Melo et al, Histórias para
Ler à Sombra: Contos (pp. 91-109). Lisboa: Publicações Dom Quixote.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
António Victorino d’Almeida
Um Caso de Bibliofagia
Quando eu for grande: “Maestro António Vitorino de Almeida realiza sonho de criança”(SIC, 18 de fevereiro de 2013). Disponível aqui
Um Caso de Bibliofagia
[excerto]
[…]
Um relâmpago intensíssimo iluminou-lhe a
porta do corredor. Abriu-a devagar e certificou-se de que todos dormiam. Do
quarto do mano Lourenço saíam roncos bestiais. Era um cevado, mesmo a dormir!
Ria-se com as anedotas, mas tinha inveja de quem as fazia, recalcava o despeito
em ódios surdos que explodiam, tempestuosos, nas situações mais imprevistas.
Ameaçava de morte os espanhóis que encontrasse, por causa do sino roubado e
transformado em canhão; e participara numa espera a um palhaço andaluz que
trabalhava num circo… O homem ficara belfo, sem dentes, os lábios abertos,
apresentara queixa na polícia e confessara que era português, natural de Ovar,
jamais passara a fronteira… O mano Lourenço sabia disso, mas tinha-lhe asco por
fazer rir os outros! E por falta de testemunhas, o processo não fora avante,
impunes os agressores… Era uma besta, o mano Lourenço! Ressonava como um porco!
A mana Honorata ressonava em assobio, como as panelas de pressão ao lume… O
mano Joaquim ressonava menos, mas rosnava frases, palavrões, queixumes,
revolvia-se a noite inteira e chegava a cair da cama! A Aidinha parecia uma
rola e dormia com uma boneca que businava [sic] quando lhe mexiam… Dormiam
todos, apesar da trovoada, moídos pelo serão com as visitas, pelo álcool do
espumante, dos licores e dos bagaços. Dormiam sempre que havia festa, cada um
com os seus sonhos, cada um com os seus grunhidos… E de novo a luz de um
relâmpago iluminou o caminho de Leonardo: já estava na sala onde havia uma
estante pomposamente chamada – a biblioteca… Juntos com estatuetas e retratos,
os livros alinhavam-se, lado a lado. Havia livros de todos os tamanhos, de
todas as espessuras, de todas as cores… Eram belos, os livros! E ele, que era
poeta, embora não soubesse fazer versos, deslizava a mão lasciva pela fieira das
lombadas e sentia aquele estranho calor dos poentes cor-de-rosa, ou da espreita
minuciosa de um canto de corredor onde a Aidinha tinha mil dedos…
Detiveram-se os seus dedos na carícia de
um livro amarelado, de capa já esgarçada pelo tempo, nunca pelo uso… Lás fora,
a tempestade uivava num furor de invernia escabrosa. Na sala, abraçado à
estante, Leonardo sorria e recordava, rendia-se ao prazer da memória, ouvia a
voz do Professor chamar-lhe Poeta, revivia o longo diálogo em que falara e fora
ouvido, as palavras justas e cuidadas que escolhera para dar de si a imagem
saudável de um sôfrego devorador da Filosofia que é a base transcendente do
moderno saber…
E numa volúpia gestual de câmara lenta,
levou o livro amarelado à boca e começou a trincá-lo, primeiro suavemente,
mordiscando as folhas do prefácio, depois com mais intensidade, num mastigar
vigoroso, até ao rasgar das páginas em golpes asselvajados de mandíbula gulosa
e insaciável!
Nessa noite devorou o seu primeiro livro.
………………………………………………………………………………………………………………….
[…]
D’Almeida, António Victorino (1985). Um Caso
de Bibliofagia. Lisboa: Edições Rolim. pp. 48-49.
Páginas
Paralelas:
Biografia do autor
disponível aqui Quando eu for grande: “Maestro António Vitorino de Almeida realiza sonho de criança”(SIC, 18 de fevereiro de 2013). Disponível aqui
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Natália Correia
Poemas a Rebate
[excerto]
Tudo chegava pelo lado da sombra, do terror, da pegajosa ignomínia. Os esbirros amordaçavam a luz. Com as mãos mergulhadas nas estrelas que escondia nos bolsos o poeta assobiava uma pátria de brancura e paz. O poeta dizia-se: quem um só dia amou a liberdade é plenitude de alma que se reconhece. E deu flor: um poema para ensinar risadas de camélias aos animais do medo. O poema foi arrastado para a treva onde os estranguladores das palavras constroem o silêncio da sala de espelhos onde o tirano se masturba. O poema atravessou o inferno e alguns dos seus sons ficaram queimados.
Uma vez exalado o grito de libertação que fez entrar a Cidade no exercício dos seus timbales o poema pediu ao poeta que lhe arrancasse as folhas mais ressequidas e em seu lugar pusesse as gotas de água do canto que quer correr para a vida. E o poeta fez a vontade ao poema que queria cantar. E aqui e além o corrigiu dotando-o da actualidade que as máquinas do inferno lhe roubaram.
Correia, Natália (1975). Poemas a Rebate. Lisboa: Publicações Dom Quixote. p. 16.
[…] muitos dos poemas recolhidos neste volume foram expulsos da circulação, tendo como único escoamento aquela clandestinidade que nos ia alimentando com os frutos proibidos pela psicopatia censória.
Outras notas são vibrações de um manifesto de mais longo curso contra as coisas do mundo que morrem onde deviam viver. […]
Lisboa, 9 de Abril de 1975
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Maria Ondina Braga
Angústia em Pequim
[excerto]
ANGÚSTIA EM PEQUIM
Esta
noite acho que chamei pela minha mãe, ouvi-me chamar por ela no sono. Vivíamos à
beira de um rio, e não sei quem levou-me para a outra banda e me abandonou lá. Ou
teria eu ido de moto próprio, passando o rio a vau, e agora as águas subiam e
cobriam-me? Ou foi a família toda que atravessou para a margem oposta
deixando-me para trás? Um antigo sonho mau a empecer-me esta noite em Pequim. Sonhar
com água, minha filha, águas revoltas a tolher-nos as passadas, sinal de que
estamos sós no meio de estranhos, fomos atraiçoados pelos amigos. Para distrair
as ideias, ando de cá para lá a perguntar a mim mesma quem morará no andar de
baixo. O jornalista sírio que tão bem se entende com o menino mongoloide da
senhora francesa? Cuido que sim, mas não tenho a certeza, que as portas aqui
não se fecham, encostam-se, e nós desaparecemos no topo de cada lanço de
escadas, uns após outros, como sombras. Uma coisa comparante ao teatro: este
sai pela esquerda, aquele entra pela direita, e as saídas e as entradas, de
papel.
Ando para trás e para diante, no escuro,
afeita à casa no escuro. Do corredor para a cozinha, range a esteira de bambu,
e vejo o tigre amarelo-ocre de garras afiadas. A tábua do soalho que cede é a
terceira a contar do quarto, a ponta esfiapada da carpete fica do lado da janela,
e na base da banheira falha um azulejo por onde decerto se esgueiram baratas.
De tudo informada, eu, menos de quem vive por cima e por baixo de mim. Como se
os vizinhos mais não fossem do que mitos. Impossível jurar, por exemplo, que
aquela música à tardinha provém das traseiras do prédio. E, embora figure uma
mulher ao piano, não ouso indagar – com medo de ouvir que não há cá piano
nenhum? […]
Braga, Maria Ondina (1984). Angústia em Pequim. Lisboa: Ulmeiro. pp. 153-154.
terça-feira, 23 de abril de 2013
Baptista-Bastos
Páginas
Paralelas:
Lugares bem lidos: "O bairro onde cresceu Baptista-Bastos" - vídeo (DN, 14 de agosto de 2012)
Elegia para um Caixão Vazio
[excerto]
[…]
Percorri um caminho incalculável, um
tempo de analogias e de conhecimentos, obedecendo, impotente, a leis naturais
que me vão destruindo e degradando. Estou cansado de perseguir: notícias,
mulheres, o êxito, a felicidade. Ambiciono uma agitação ordenada, saturei-me do
alvoroço aflito, já pouquíssimas coisas me melindram, consegui curar-me de
chagas e de remorsos, expulsei-me eu próprio do sonho. Reconheço-me por aquilo
que fui realizando, seria difícil o contrário, mas tudo o que fiz parece-me
inútil, um intolerável lugar-comum; e já perdi todas as disponibilidades: fui
reduzido e reduzi-me. O grito, a imprecação, a viva-voz são mais contundentes,
mas eficazes do que a palavra escrita. De aí, talvez, que as histórias contadas
de geração para geração (a verdade coral, a oralidade) se tenham mantido mais vivas,
mais coloridas do que a palavra escrita. Nunca consegui viver e reflectir com
rigor e escrúpulo o que vi. Sempre existi num universo de ideias e de alegorias,
e a realidade é-me implacavelmente fastidiosa. Mas houve tempo em que julguei
ser impossível acreditar em outra gente, em outro local, em outro destino. É;
eu sei, tudo isto é deprimente, inacabado até ao fim dos tempos, sem que nada
me tenha notificado do prazo. Todavia, só disponho deste povo, deste país,
destes hábitos, desta monotonia, deste corpo e desta consciência. Queira ou
não, sou impelido a eles, a com eles convizinhar, eis o meu fado, a minha sina.
[…]
Baptista-Bastos (1987). Elegia para um Caixão
Vazio
(3ª ed.). Lisboa: Edições “O Jornal”. p. 126.
Lugares bem lidos: "O bairro onde cresceu Baptista-Bastos" - vídeo (DN, 14 de agosto de 2012)
Biografia de Baptista-Bastos. Disponível em Jornal deNegócios
Leia também as suas crónicas no Jornal de Negócios; “Agora, para aonde vamos?” (19 Abril de 2013)
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