quinta-feira, 25 de abril de 2013

Natália Correia

Poemas a Rebate
[excerto]

Tudo chegava pelo lado da sombra, do terror, da pegajosa ignomínia. Os esbirros amordaçavam a luz. Com as mãos mergulhadas nas estrelas que escondia nos bolsos o poeta assobiava uma pátria de brancura e paz. O poeta dizia-se: quem um só dia amou a liberdade é plenitude de alma que se reconhece. E deu flor: um poema para ensinar risadas de camélias aos animais do medo. O poema foi arrastado para a treva onde os estranguladores das palavras constroem o silêncio da sala de espelhos onde o tirano se masturba. O poema atravessou o inferno e alguns dos seus sons ficaram queimados.
Uma vez exalado o grito de libertação que fez entrar a Cidade no exercício dos seus timbales o poema pediu ao poeta que lhe arrancasse as folhas mais ressequidas e em seu lugar pusesse as gotas de água do canto que quer correr para a vida. E o poeta fez a vontade ao poema que queria cantar. E aqui e além o corrigiu dotando-o da actualidade que as máquinas do inferno lhe roubaram.


Correia, Natália (1975). Poemas a Rebate. Lisboa: Publicações Dom Quixote. p. 16.



Na Introdução a esta colectânea, Natália Correia afirma:

[…] muitos dos poemas recolhidos neste volume foram expulsos da circulação, tendo como único escoamento aquela clandestinidade que nos ia alimentando com os frutos proibidos pela psicopatia censória.
       Outras notas são vibrações de um manifesto de mais longo curso contra as coisas do mundo que morrem onde deviam viver. […]

       Lisboa, 9 de Abril de 1975

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Maria Ondina Braga

Angústia em Pequim

[excerto]

 

ANGÚSTIA EM PEQUIM

            Esta noite acho que chamei pela minha mãe, ouvi-me chamar por ela no sono. Vivíamos à beira de um rio, e não sei quem levou-me para a outra banda e me abandonou lá. Ou teria eu ido de moto próprio, passando o rio a vau, e agora as águas subiam e cobriam-me? Ou foi a família toda que atravessou para a margem oposta deixando-me para trás? Um antigo sonho mau a empecer-me esta noite em Pequim. Sonhar com água, minha filha, águas revoltas a tolher-nos as passadas, sinal de que estamos sós no meio de estranhos, fomos atraiçoados pelos amigos. Para distrair as ideias, ando de cá para lá a perguntar a mim mesma quem morará no andar de baixo. O jornalista sírio que tão bem se entende com o menino mongoloide da senhora francesa? Cuido que sim, mas não tenho a certeza, que as portas aqui não se fecham, encostam-se, e nós desaparecemos no topo de cada lanço de escadas, uns após outros, como sombras. Uma coisa comparante ao teatro: este sai pela esquerda, aquele entra pela direita, e as saídas e as entradas, de papel.
       Ando para trás e para diante, no escuro, afeita à casa no escuro. Do corredor para a cozinha, range a esteira de bambu, e vejo o tigre amarelo-ocre de garras afiadas. A tábua do soalho que cede é a terceira a contar do quarto, a ponta esfiapada da carpete fica do lado da janela, e na base da banheira falha um azulejo por onde decerto se esgueiram baratas. De tudo informada, eu, menos de quem vive por cima e por baixo de mim. Como se os vizinhos mais não fossem do que mitos. Impossível jurar, por exemplo, que aquela música à tardinha provém das traseiras do prédio. E, embora figure uma mulher ao piano, não ouso indagar – com medo de ouvir que não há cá piano nenhum? […]


Braga, Maria Ondina (1984). Angústia em Pequim. Lisboa: Ulmeiro. pp. 153-154.

 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Baptista-Bastos

Elegia para um Caixão Vazio

[excerto]


       […]

       Percorri um caminho incalculável, um tempo de analogias e de conhecimentos, obedecendo, impotente, a leis naturais que me vão destruindo e degradando. Estou cansado de perseguir: notícias, mulheres, o êxito, a felicidade. Ambiciono uma agitação ordenada, saturei-me do alvoroço aflito, já pouquíssimas coisas me melindram, consegui curar-me de chagas e de remorsos, expulsei-me eu próprio do sonho. Reconheço-me por aquilo que fui realizando, seria difícil o contrário, mas tudo o que fiz parece-me inútil, um intolerável lugar-comum; e já perdi todas as disponibilidades: fui reduzido e reduzi-me. O grito, a imprecação, a viva-voz são mais contundentes, mas eficazes do que a palavra escrita. De aí, talvez, que as histórias contadas de geração para geração (a verdade coral, a oralidade) se tenham mantido mais vivas, mais coloridas do que a palavra escrita. Nunca consegui viver e reflectir com rigor e escrúpulo o que vi. Sempre existi num universo de ideias e de alegorias, e a realidade é-me implacavelmente fastidiosa. Mas houve tempo em que julguei ser impossível acreditar em outra gente, em outro local, em outro destino. É; eu sei, tudo isto é deprimente, inacabado até ao fim dos tempos, sem que nada me tenha notificado do prazo. Todavia, só disponho deste povo, deste país, destes hábitos, desta monotonia, deste corpo e desta consciência. Queira ou não, sou impelido a eles, a com eles convizinhar, eis o meu fado, a minha sina.

       […]


Baptista-Bastos (1987). Elegia para um Caixão Vazio
(3ª ed.). Lisboa: Edições “O Jornal”. p. 126.

 
 
Páginas Paralelas:

Lugares bem lidos: "O bairro onde cresceu Baptista-Bastos" - vídeo (DN, 14 de agosto de 2012)

Biografia de Baptista-Bastos. Disponível em Jornal deNegócios
 
Leia também as suas crónicas no Jornal de Negócios; “Agora, para aonde vamos?” (19 Abril de 2013)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Hélia Correia

O Separar das Águas
[excerto]

II
       Se bem que a vila parecesse protegida pelos cuidados mágicos da bruxa, não tendo sido lobrigado um único demónio ou bolchevique à espreita nos quintais, a chegada de Saca causou perturbação.
       Saca era o nome público do homem que aparecia, duas vezes por ano, trazendo na carroça, dentro de tabuleiros, uma explosão de coisas miúdas e doiradas, dedais, anéis, relógios, saca-rolhas. Parando onde queria, ou porque houvesse riso de espanholas, ou porque alguém tocasse concertina, ou porque o velho macho que o ia carregando de terra para terra lhe desse a entender que precisava de descanso, Saca levava normalmente um mês no seu caminho de Lisboa até Vilerma.
       Assim que lobrigava o casario, Saca fazia ouvir o seu sino de cobre. E parava no adro da igreja, o que uns anos atrás enfurecera o padre, até que o vendedor lhe trouxe um crucifixo debruado a rosinhas-de-toucar.
       Saca piscava o olho ao rapazio fiel e, enquanto dispunha os tabuleiros com os seus conteúdos reluzentes, fazia a narração das novidades. Nunca ninguém o ouvir a fazer propaganda da sua mercadoria. As pessoas chegavam, mexiam, experimentavam, perguntavam o preço e olhavam pensativas. Saca contava, imperturbavelmente, uma, duas, dez vezes os crimes dos ciganos, as modas de Paris e as saídas à rua dos grandes estadistas. Como dizia o professor Cristóvão, passando pela testa o dedo filosófico, naquele vendedor havia alma de cronista e ele mesmo, professor, se o Saca resolvesse assentar em Vilerma, lhe ensinaria a ler e a compor redacções.
       Mas Saca recusava, com um gesto vivido, a repetida oferta. “Pois pode ser – dizia – que eu aprendesse a ler. E de que me servia? Ficava sem assunto. Em Lisboa é que as coisas acontecem. Para não falar da França, que é de lá que vem tudo!...”.
       Passava, soberano, a mão pela cabeça do macho melancólico. O povo, à sua volta, estremecia de admiração. E Saca retomava o fio das novidades.
       […]


Correia, Hélia (1986). O Separar das Águas (2ª ed.). Lisboa: Ulmeiro. pp. 13-14.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Natália Correia

A DEFESA DO POETA

Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou o vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não verei.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.


Correia, Natália (1993). O Sol nas Noites e o Luar nos
Dias I. [Lisboa]: Círculo de Leitores. pp. 443-444.



“A Defesa do Poeta”, dito pela autora

Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=NBYimM6XdAA


Páginas Paralelas:
“Centro de Estudos Natália Correia é alicerce de dinamização cultural”. DN (16 Março, 2013)

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Herberto Helder

       estende a tua mão contra a minha boca e respira,
       e sente como respiro contra ela,
       e sem que eu nada diga,
       sente a trémula, tocada coluna de ar
       a sorvo e sopro,
       ó
       táctil, ininterrupta,
       e a tua mão sinta contra mim
       quanto aumenta o mundo

Helder, Herberto (2008). A Faca não Corta o Fogo.
Lisboa: Assírio & Alvim. p. 135-136.




Páginas Paralelas:

Rodrigo Leão interpreta “Poemacto II: Minha cabeça estremece com todo o esquecimento”, de Herberto Hélder (1961)


Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=OYjnxrMUt5s

quarta-feira, 17 de abril de 2013

António Ramos Rosa

A Leitora

 
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.



António Ramos Rosa (2001). «A Leitora», in: Antologia
Poética. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 231.