quinta-feira, 18 de abril de 2013

Herberto Helder

       estende a tua mão contra a minha boca e respira,
       e sente como respiro contra ela,
       e sem que eu nada diga,
       sente a trémula, tocada coluna de ar
       a sorvo e sopro,
       ó
       táctil, ininterrupta,
       e a tua mão sinta contra mim
       quanto aumenta o mundo

Helder, Herberto (2008). A Faca não Corta o Fogo.
Lisboa: Assírio & Alvim. p. 135-136.




Páginas Paralelas:

Rodrigo Leão interpreta “Poemacto II: Minha cabeça estremece com todo o esquecimento”, de Herberto Hélder (1961)


Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=OYjnxrMUt5s

quarta-feira, 17 de abril de 2013

António Ramos Rosa

A Leitora

 
A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.



António Ramos Rosa (2001). «A Leitora», in: Antologia
Poética. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p. 231.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Jorge de Sena

INDEPENDÊNCIA


Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.


Recuso-me a estar lúcido ou comprado
e a estar sòzinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.


Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!


Sena, Jorge de (1961). Poesia I
Lisboa: Livraria Morais Editora. p. 100.

Nota nossa: Foi mantida a ortografia original.


Páginas Paralelas:

“Ler Jorge de Sena” (vida e obra) na página da UniversidadeFederal do Rio de Janeiro

segunda-feira, 15 de abril de 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Alexandre Herculano
O Bobo
[excerto]
[…]
Tal foi em substância a narração de Dom Bibas, que, fechando a porta, conduzira o monge e o rico-homem ao lado do aposento onde ele abrira entrada para o subterrâneo.
– Por aqui – dizia o bobo com um rir diabólico – é o caminho da salvação para vós, e para mim o de ver realizado o que será de ora avante o único pensamento da minha vida.
O Lidador ficou por algum tempo em silêncio, e por fim exclamou:
– Mas quem há-de salvar os meus bons e leais cavaleiros, que me aguardam?
– Eu – acudiu o bobo. – As portas do castelo ficam abertas, porque os vigias e roldas correm pelas barbacãs. Saí vós outros, e esperai-os à boca do subterrâneo. Dentro de poucas horas todos estarão convosco. Basta que me deis um sinal com que eu possa fazer que eles me obedeçam.
O Lidador pareceu assentir à proposição de Dom Bibas; porque, tirando da escarcela uma tàbuazinha coberta de cera, com um anel que tinha no dedo estampou nela o seu selo de camafeu e, entregando-a ao bobo, lhe disse:
– Vai, apresenta isto ao meu vílico, e serás obedecido em tudo.
– Falta ainda uma cousa! – continuou Dom Bibas. – Reverendo abade, vesti esse trajo de escudeiro que aí vedes, e deixai-me vossa cogula. Não sei o que me diz o coração… Talvez me seja necessária. Será esta a primeira recompensa do serviço que ora vos faço.
Fr. Hilarião hesitou; mas o terror das ameaças que o truão ouvira ao conde só lhe dava lugar a uma ideia: a de sair de Guimarães sem risco. Depois de cinquenta anos de vida monástica, pela primeira vez o monge trocava por trajos profanos o seu santo hábito.
Dom Bibas entregou a lanterna de furta-fogo aos dois amigos, que se internaram no subterrâneo. Tanto que desapareceram, ele abriu às apalpadelas a porta exterior da sua pocilga e, cosendo-se com o muro do pátio, atravessou a ponte levadiça e encaminhou-se para o bairro do senhor da Maia.
[…]

Herculano, Alexandre (1978). O Bobo.
Amadora: Livraria Bertrand. pp. 153-154.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Miguel Medina
Alem do Maar
[excertos]
II
Durante os últimos três dias, a frota só conseguira avançar pouco mais de vinte léguas. Num fim de tarde cinzento, avistaram-se uns picos fragosos, tal como Tristão anotaria. Nessa altura, o piloto de Mocimba propusera ao capitão esperarem a mudança da lua; quando o vento rodasse, ser-lhes-ia mais fácil contrariar a força das águas e atingir a ilha de Quylee. O capitão concordara e dera ordem à frota para regressar ao ilhéu do santo-Lenho; ou do lenho, como já lhe chamavam a bordo. As reservas estavam quase esgotadas; os enfermos tornavam-se cada dia mais exigentes; os pedidos de água nunca abrandavam. Os conveses das três naves cheiravam a doença; os tripulantes iam-se abaixo uns atrás dos outros.
Antes de tocarem Mocimba, tinham pousado na foz dum grande rio, que ficara pelo dos Bõos Signaes. Porém, aquela estadia de mais dum mês acabara por se revelar amaldiçoada, e agora não havia dia ou noite em que não atirassem alguém para as águas do cemitério do mar. O capitão foi obrigado a ceder, e teve que redistribuir as suas forças. Tanto ele como o seu irmão dispensaram alguns homens da Gabriel e da Rafael, para reforçar a tripulação exausta do rival Nuno Castro. Os franges conheciam muitos percursos marítimos, mas os seus físicos ainda não tinham aprendido a navegar nos rios de sangue e de força dum homem. As pestes espalhavam-se; os de melhor condição começavam a temer vir ao convés, e acotovelar-se com a maruja.
Antes do quarto da prima arriaram os batéis em silêncio. O capitão tomou o comando no da mor, com uma mão-cheia de homens escolhidos entre os mais saudáveis. Mandou embarcar o piloto mouro de Mocimba, que respondia pelo nome de Ysuf, e o marujo Antão, como língua, para entender as indicações que o outro parecia disposto a dar-lhe. A acreditar no que ele afirmava, tinham de transpor a baía e procurar a aguada num extenso palmeiral em terra firma, perto da aldeia de Mocimba; a da Praia.
[…]
III
Mustafa de Anafé levantou-se muito cedo. Os pássaros aproveitavam o sossego do pequeno dia para voltearem sobre o cais, saciando-se com os mosquitos gordos que zuniam por lá. Assistiu à retirada cautelosa dos franges, que contornaram Mocimba longe do alcance das suas defesas. Foi uma precaução desnecessária. Os guerreiros da lua ainda dormiam. Ninguém parecia ter-se dado conta de que a frota dos alvos regressara àquelas águas, e fundeara à entrada da baía, junto ao ilhéu da Lua. Só depois de ter visto as duas embarcações desaparecerem atrás duma ponta arborizada da ilha é que se dispôs a subir a alameda que levava ao palacete de Sacoeja. Os guardas ainda tinham os olhos pesados de sono, e estranharam-no a uma hora tão temperana; o seu amo devia estar a preparar-se para as primeiras orações. Mas, calculando que o outro desejasse recebê-lo, franquearam-lhe a porta; mal ele se afastou, lavaram-se e estenderam no chão os tapetes puídos para o sabah.
Um criado veio ter com Mustafa ao pátio fresco e branco que dava para a entrada. Quando o mercador lhe disse ao que vinha, retirou-se, e foi espreitar os aposentos do soldão, para ver se Sacoeja já começara as suas preces. O mercador esperou, enquanto se ouviam as ladainhas subir das torres esguias da lua, cruzando monotonamente o espaço em todas as direcções. Mustafa orou em paz, rolando nos dedos as contas de ouro do terço novo, que comparara no mercado da cidade depois do encontro com Antão. Sacoeja não se apressou. Em dias como o de hoje, em que decidira não ir ao templo logo pela manhã, como era seu hábito, mantinha o mesmo costume das cinco preces diárias, tão certas nele como o ritmo secreto do tempo. No fim, calçou-se, enrolou-se nos seus panos mais frescos e procurou o mercador no pequeno pátio caiado da entrada.
– Os franges voltaram – disse-lhe Mustafa, mal o viu. – Devem estar outra vez ancorados no ilhéu da Lua. E, ou me engano muito, ou eles andaram esta noite em terra.
– O que quererão agora? – perguntou-lhe Sacoeja, vagamente inquieto com a notícia. – Achas mesmo que estiveram em terra? E a fazer o quê?
Mustafa pensou um instante, rolando o terço nos dedos.
– Deve ser por causa da água – respondeu-lhe por fim. – Não vejo outro motivo. Não há ali nada que se roube…
Sacoeja impacientou-se:
– Mas eles não deviam estar agora lá para o norte, a caminho de Quylee? O que é que fazem cá?
Mustafa acalmou-o:
– Não te exaltes, Sacoeja. Só te digo o que penso.
O soldão suspirou, esvaziando o peito de ar:
– Desculpa… É esta situação que me enerva – pediu-lhe, tentando sorrir. – Deves ter razão. O piloto, que não chegou a embarcar, disse-me que as reservas deles não lhe pareceram grandes. Ainda por cima, com esta lua, têm muita dificuldade em subir a costa.
Bateu palmas a chamar a guarda. Na altura em que já se julgava livre dos franges, ei-los que voltavam, e agora para ameaçá-lo na sua própria cidade.
[…]

GLOSSÁRIO:
Bõos Signaes, rio dos – possivelmente o Zambeze, Moçambique
franges – povos latinos, genericamente; portugueses
Lenho, ilhéu do santo – actual ilha de Goa, perto da ilha de Moçambique
lua – religião islâmica
Quylee, ilha de – Kilwa Kisivan, Tanzânia
soldão - sultão

Medina, Miguel (1990). Alem do Maar.
s. l.: Círculo de Leitores. pp. 73-76.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Fernando Campos
A Casa do Pó
[excerto]
 – Vê tu, irmão Diogo – digo eu –, como a minha vida se assemelha no presente momento a esta encruzilhada de caminhos!
Trazemos os pés macerados das longas caminhadas e a garganta seca do pó das sendas de terra batida e do sol violento, a pino. Recorta-se já na linha do horizonte o perfil de Évora, aonde contamos chegar a meio da tarde, a horas de vésperas. Vimos de longe, no nosso tirocínio de noviços. Há mais de um mês andamos calcorreando toda a região. Seguimos pelo trilho que corre a par com o aqueduto em obras de reconstituição. O sábio André de Resende descobrira os vestígios do antigo aqueduto romano de Sertório e el-rei D. João III convenceu-se da bondade de tal empreendimento.
Súbito bifurca-se o caminho e, hesitantes, paramos a perscrutar o rumo. «A encruzilhada da vida? Como assim?», pergunta o meu companheiro. É ele o coração mais bondoso e temente a Deus que eu jamais vi, mas a cabeça um tanto dura e não dada à leitura dos livros. A horta ou a cozinha, depois dos deveres da oração na capela, são o lugar certo, nunca a biblioteca. Sentamo-nos à sombra de uma azinheira, numa grossa raiz que emerge coleante da terra. «Ali estavam dois caminhos diante de nós: um virava à esquerda, o outro à direita, e era forçoso que tomássemos por um deles. Estranho dilema se patenteava ao caminheiro se não queria perder a tramontana. Isto para mim era simbólico. Não sabia que fazer. Conhecia Diogo o mito de Hércules e a encruzilhada?»
– Não.
– Tinha Hércules chegado à adolescência e seguia por um caminho, quando se lhe deparou uma bifurcação. Indeciso, sentou-se…
– Tal como nós…
– … a pensar por qual deles meteria…
– Tal como nós…
– … Eis que ao seu encontro e vindas de cada um dos caminhos se aproximam duas mulheres jovens. A que avançava da esquerda vestia uma túnica tão diáfana que permitia se lhe vissem as formas extremamente bem proporcionadas do corpo, as ancas, o busto, as pernas, o rosado da carne, o carmim dos bicos dos seios, a sombra violeta do púbis…
– Jesus!” – benzeu-se irmão Diogo.
– … Os olhos, pintados, eram dois abismos de promessas e os lábios, carnudos, vermelhos, sensuais, inculcavam beijos que…
– … que?...
– … que nem tenho nomes adjectivos, irmão Diogo, para os caracterizar. E dirigindo-se a Hércules fez-lhe ver, em palavras suaves e numa voz quente e maviosa, quanto era boa a saudável juventude dele, tão apta aos prazeres da vida, do lazer, da riqueza, da luxúria… E enlaçava-o com os seus braços roliços e quentes, perfumados, nos olhos cintilando revérberos de desejo, a boca aflorando-lhe a pele em carícias indizíveis. Hércules sentia-se extasiado, enleado, tentado, e ia a levantar-se para seguir a jovem, quando a outra lhe fez sinal que esperasse. Era igualmente jovem, mas a sua beleza vinha de dentro, como que se lhe espelhava no semblante a formosura da alma, todo o seu porte era recatado e sem artifícios de pinturas ou perfumes, sem requebros do corpo nem desafios dos olhos, isenta de sorrisos equívocos e de provocações na voz. Falou-lhe com aquela contenção grave e sisuda que é timbre dos prudentes e avisados, mostrando-lhe como eram falazes e ilusórios os prazeres do mundo e como a virtude só se alcança seguindo o duro caminho do domínio do espírito sobre a carne, dos sacrifícios e privações, da humildade, do esforço e do trabalho. Ao fim desta penosa caminhada encontrar-se-ia, então, o prémio que a divindade reserva aos justos e virtuosos. Não lhe prometia, se escolhesse segui-la, senão canseiras e renúncias, mas o prémio final a coroar merecidamente a labuta e as atribulações da vida.
– Qual dos caminhos escolheu Hércules?
– O segundo – respondo eu, enquanto desenho no pó do chão a figura da estrada que se bifurca.
[…]
«Tomássemos então o caminho da direita», exclamava o meu companheiro levantando-se. Ergo-me também. Reparasse no entanto que neste caso era o da esquerda que parecia dirigir-se para Évora. Mas Diogo, supersticioso, teima em que havemos de ir pelo da direita e é por esse que metemos. […]

Campos, Fernando (s.d.). A Casa do Pó (3ª ed.).
Lisboa: Difel. pp. 35-37.