segunda-feira, 15 de abril de 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Alexandre Herculano
O Bobo
[excerto]
[…]
Tal foi em substância a narração de Dom Bibas, que, fechando a porta, conduzira o monge e o rico-homem ao lado do aposento onde ele abrira entrada para o subterrâneo.
– Por aqui – dizia o bobo com um rir diabólico – é o caminho da salvação para vós, e para mim o de ver realizado o que será de ora avante o único pensamento da minha vida.
O Lidador ficou por algum tempo em silêncio, e por fim exclamou:
– Mas quem há-de salvar os meus bons e leais cavaleiros, que me aguardam?
– Eu – acudiu o bobo. – As portas do castelo ficam abertas, porque os vigias e roldas correm pelas barbacãs. Saí vós outros, e esperai-os à boca do subterrâneo. Dentro de poucas horas todos estarão convosco. Basta que me deis um sinal com que eu possa fazer que eles me obedeçam.
O Lidador pareceu assentir à proposição de Dom Bibas; porque, tirando da escarcela uma tàbuazinha coberta de cera, com um anel que tinha no dedo estampou nela o seu selo de camafeu e, entregando-a ao bobo, lhe disse:
– Vai, apresenta isto ao meu vílico, e serás obedecido em tudo.
– Falta ainda uma cousa! – continuou Dom Bibas. – Reverendo abade, vesti esse trajo de escudeiro que aí vedes, e deixai-me vossa cogula. Não sei o que me diz o coração… Talvez me seja necessária. Será esta a primeira recompensa do serviço que ora vos faço.
Fr. Hilarião hesitou; mas o terror das ameaças que o truão ouvira ao conde só lhe dava lugar a uma ideia: a de sair de Guimarães sem risco. Depois de cinquenta anos de vida monástica, pela primeira vez o monge trocava por trajos profanos o seu santo hábito.
Dom Bibas entregou a lanterna de furta-fogo aos dois amigos, que se internaram no subterrâneo. Tanto que desapareceram, ele abriu às apalpadelas a porta exterior da sua pocilga e, cosendo-se com o muro do pátio, atravessou a ponte levadiça e encaminhou-se para o bairro do senhor da Maia.
[…]

Herculano, Alexandre (1978). O Bobo.
Amadora: Livraria Bertrand. pp. 153-154.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Miguel Medina
Alem do Maar
[excertos]
II
Durante os últimos três dias, a frota só conseguira avançar pouco mais de vinte léguas. Num fim de tarde cinzento, avistaram-se uns picos fragosos, tal como Tristão anotaria. Nessa altura, o piloto de Mocimba propusera ao capitão esperarem a mudança da lua; quando o vento rodasse, ser-lhes-ia mais fácil contrariar a força das águas e atingir a ilha de Quylee. O capitão concordara e dera ordem à frota para regressar ao ilhéu do santo-Lenho; ou do lenho, como já lhe chamavam a bordo. As reservas estavam quase esgotadas; os enfermos tornavam-se cada dia mais exigentes; os pedidos de água nunca abrandavam. Os conveses das três naves cheiravam a doença; os tripulantes iam-se abaixo uns atrás dos outros.
Antes de tocarem Mocimba, tinham pousado na foz dum grande rio, que ficara pelo dos Bõos Signaes. Porém, aquela estadia de mais dum mês acabara por se revelar amaldiçoada, e agora não havia dia ou noite em que não atirassem alguém para as águas do cemitério do mar. O capitão foi obrigado a ceder, e teve que redistribuir as suas forças. Tanto ele como o seu irmão dispensaram alguns homens da Gabriel e da Rafael, para reforçar a tripulação exausta do rival Nuno Castro. Os franges conheciam muitos percursos marítimos, mas os seus físicos ainda não tinham aprendido a navegar nos rios de sangue e de força dum homem. As pestes espalhavam-se; os de melhor condição começavam a temer vir ao convés, e acotovelar-se com a maruja.
Antes do quarto da prima arriaram os batéis em silêncio. O capitão tomou o comando no da mor, com uma mão-cheia de homens escolhidos entre os mais saudáveis. Mandou embarcar o piloto mouro de Mocimba, que respondia pelo nome de Ysuf, e o marujo Antão, como língua, para entender as indicações que o outro parecia disposto a dar-lhe. A acreditar no que ele afirmava, tinham de transpor a baía e procurar a aguada num extenso palmeiral em terra firma, perto da aldeia de Mocimba; a da Praia.
[…]
III
Mustafa de Anafé levantou-se muito cedo. Os pássaros aproveitavam o sossego do pequeno dia para voltearem sobre o cais, saciando-se com os mosquitos gordos que zuniam por lá. Assistiu à retirada cautelosa dos franges, que contornaram Mocimba longe do alcance das suas defesas. Foi uma precaução desnecessária. Os guerreiros da lua ainda dormiam. Ninguém parecia ter-se dado conta de que a frota dos alvos regressara àquelas águas, e fundeara à entrada da baía, junto ao ilhéu da Lua. Só depois de ter visto as duas embarcações desaparecerem atrás duma ponta arborizada da ilha é que se dispôs a subir a alameda que levava ao palacete de Sacoeja. Os guardas ainda tinham os olhos pesados de sono, e estranharam-no a uma hora tão temperana; o seu amo devia estar a preparar-se para as primeiras orações. Mas, calculando que o outro desejasse recebê-lo, franquearam-lhe a porta; mal ele se afastou, lavaram-se e estenderam no chão os tapetes puídos para o sabah.
Um criado veio ter com Mustafa ao pátio fresco e branco que dava para a entrada. Quando o mercador lhe disse ao que vinha, retirou-se, e foi espreitar os aposentos do soldão, para ver se Sacoeja já começara as suas preces. O mercador esperou, enquanto se ouviam as ladainhas subir das torres esguias da lua, cruzando monotonamente o espaço em todas as direcções. Mustafa orou em paz, rolando nos dedos as contas de ouro do terço novo, que comparara no mercado da cidade depois do encontro com Antão. Sacoeja não se apressou. Em dias como o de hoje, em que decidira não ir ao templo logo pela manhã, como era seu hábito, mantinha o mesmo costume das cinco preces diárias, tão certas nele como o ritmo secreto do tempo. No fim, calçou-se, enrolou-se nos seus panos mais frescos e procurou o mercador no pequeno pátio caiado da entrada.
– Os franges voltaram – disse-lhe Mustafa, mal o viu. – Devem estar outra vez ancorados no ilhéu da Lua. E, ou me engano muito, ou eles andaram esta noite em terra.
– O que quererão agora? – perguntou-lhe Sacoeja, vagamente inquieto com a notícia. – Achas mesmo que estiveram em terra? E a fazer o quê?
Mustafa pensou um instante, rolando o terço nos dedos.
– Deve ser por causa da água – respondeu-lhe por fim. – Não vejo outro motivo. Não há ali nada que se roube…
Sacoeja impacientou-se:
– Mas eles não deviam estar agora lá para o norte, a caminho de Quylee? O que é que fazem cá?
Mustafa acalmou-o:
– Não te exaltes, Sacoeja. Só te digo o que penso.
O soldão suspirou, esvaziando o peito de ar:
– Desculpa… É esta situação que me enerva – pediu-lhe, tentando sorrir. – Deves ter razão. O piloto, que não chegou a embarcar, disse-me que as reservas deles não lhe pareceram grandes. Ainda por cima, com esta lua, têm muita dificuldade em subir a costa.
Bateu palmas a chamar a guarda. Na altura em que já se julgava livre dos franges, ei-los que voltavam, e agora para ameaçá-lo na sua própria cidade.
[…]

GLOSSÁRIO:
Bõos Signaes, rio dos – possivelmente o Zambeze, Moçambique
franges – povos latinos, genericamente; portugueses
Lenho, ilhéu do santo – actual ilha de Goa, perto da ilha de Moçambique
lua – religião islâmica
Quylee, ilha de – Kilwa Kisivan, Tanzânia
soldão - sultão

Medina, Miguel (1990). Alem do Maar.
s. l.: Círculo de Leitores. pp. 73-76.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Fernando Campos
A Casa do Pó
[excerto]
 – Vê tu, irmão Diogo – digo eu –, como a minha vida se assemelha no presente momento a esta encruzilhada de caminhos!
Trazemos os pés macerados das longas caminhadas e a garganta seca do pó das sendas de terra batida e do sol violento, a pino. Recorta-se já na linha do horizonte o perfil de Évora, aonde contamos chegar a meio da tarde, a horas de vésperas. Vimos de longe, no nosso tirocínio de noviços. Há mais de um mês andamos calcorreando toda a região. Seguimos pelo trilho que corre a par com o aqueduto em obras de reconstituição. O sábio André de Resende descobrira os vestígios do antigo aqueduto romano de Sertório e el-rei D. João III convenceu-se da bondade de tal empreendimento.
Súbito bifurca-se o caminho e, hesitantes, paramos a perscrutar o rumo. «A encruzilhada da vida? Como assim?», pergunta o meu companheiro. É ele o coração mais bondoso e temente a Deus que eu jamais vi, mas a cabeça um tanto dura e não dada à leitura dos livros. A horta ou a cozinha, depois dos deveres da oração na capela, são o lugar certo, nunca a biblioteca. Sentamo-nos à sombra de uma azinheira, numa grossa raiz que emerge coleante da terra. «Ali estavam dois caminhos diante de nós: um virava à esquerda, o outro à direita, e era forçoso que tomássemos por um deles. Estranho dilema se patenteava ao caminheiro se não queria perder a tramontana. Isto para mim era simbólico. Não sabia que fazer. Conhecia Diogo o mito de Hércules e a encruzilhada?»
– Não.
– Tinha Hércules chegado à adolescência e seguia por um caminho, quando se lhe deparou uma bifurcação. Indeciso, sentou-se…
– Tal como nós…
– … a pensar por qual deles meteria…
– Tal como nós…
– … Eis que ao seu encontro e vindas de cada um dos caminhos se aproximam duas mulheres jovens. A que avançava da esquerda vestia uma túnica tão diáfana que permitia se lhe vissem as formas extremamente bem proporcionadas do corpo, as ancas, o busto, as pernas, o rosado da carne, o carmim dos bicos dos seios, a sombra violeta do púbis…
– Jesus!” – benzeu-se irmão Diogo.
– … Os olhos, pintados, eram dois abismos de promessas e os lábios, carnudos, vermelhos, sensuais, inculcavam beijos que…
– … que?...
– … que nem tenho nomes adjectivos, irmão Diogo, para os caracterizar. E dirigindo-se a Hércules fez-lhe ver, em palavras suaves e numa voz quente e maviosa, quanto era boa a saudável juventude dele, tão apta aos prazeres da vida, do lazer, da riqueza, da luxúria… E enlaçava-o com os seus braços roliços e quentes, perfumados, nos olhos cintilando revérberos de desejo, a boca aflorando-lhe a pele em carícias indizíveis. Hércules sentia-se extasiado, enleado, tentado, e ia a levantar-se para seguir a jovem, quando a outra lhe fez sinal que esperasse. Era igualmente jovem, mas a sua beleza vinha de dentro, como que se lhe espelhava no semblante a formosura da alma, todo o seu porte era recatado e sem artifícios de pinturas ou perfumes, sem requebros do corpo nem desafios dos olhos, isenta de sorrisos equívocos e de provocações na voz. Falou-lhe com aquela contenção grave e sisuda que é timbre dos prudentes e avisados, mostrando-lhe como eram falazes e ilusórios os prazeres do mundo e como a virtude só se alcança seguindo o duro caminho do domínio do espírito sobre a carne, dos sacrifícios e privações, da humildade, do esforço e do trabalho. Ao fim desta penosa caminhada encontrar-se-ia, então, o prémio que a divindade reserva aos justos e virtuosos. Não lhe prometia, se escolhesse segui-la, senão canseiras e renúncias, mas o prémio final a coroar merecidamente a labuta e as atribulações da vida.
– Qual dos caminhos escolheu Hércules?
– O segundo – respondo eu, enquanto desenho no pó do chão a figura da estrada que se bifurca.
[…]
«Tomássemos então o caminho da direita», exclamava o meu companheiro levantando-se. Ergo-me também. Reparasse no entanto que neste caso era o da esquerda que parecia dirigir-se para Évora. Mas Diogo, supersticioso, teima em que havemos de ir pelo da direita e é por esse que metemos. […]

Campos, Fernando (s.d.). A Casa do Pó (3ª ed.).
Lisboa: Difel. pp. 35-37.

terça-feira, 9 de abril de 2013

João Aguiar

A Voz dos Deuses

[excerto]

(Ilustração de Vasco Lopes para esta edição de A Voz dos Deuses)
 
III – ENDOVÉLICO
I
Um clamor feito de milhares de vozes ressoou pelas fragas do Monte no momento em que as chamas subiram na gigantesca pira.
       Em redor, centenas de outras fogueiras mais pequenas consumiam os restos dos sacrifícios – ovelhas, cabras, porcos e bois, rebanhos inteiros trazidos da planície ou das povoações serranas. O cavalo de Viriato fora imolado em primeiro lugar e deposto aos seus pés, com as armas, o escudo e o capacete.
       Nada mais podíamos fazer senão lamentar a nossa perda e manifestar ao espírito do Comandante, antes que ele se afastasse, a dor que a sua morte nos causara. Enquanto o fogo devorava as madeiras, o corpo e as oferendas, formámos em ordem de batalha e desfilámos à volta da pira, soltando os gritos rituais e os lamentos fúnebres que devem saudar um grande chefe. Porém, gritos e lamentos saíam do coração dos guerreiros, não eram o simples cumprimento de um dever. Nenhum rei ibérico teve do seu povo a homenagem que a hoste lusitana e os habitantes do Monte da Deusa prestaram a Viriato.
       A realeza que os deuses não lhe conferiram em vida foi-lhe reconhecida por nós todos naquele último adeus. Viriato não partiu só; nos jogos que se realizaram sobre o sepulcro que acolheu as suas cinzas, mais de duzentos guerreiros combateram até à morte, para que no Além ele tivesse a sua escolta, uma verdadeira guarda real.
[…]
Aguiar, João (1999). A Voz dos Deuses (21ª ed.).
Porto: Asa Editores. pp. 342-344.
 
 
Páginas Paralelas:
“Autobiografia de João Aguiar. Momentos de Não-Glória” – autobiografia escrita para o JL em 2005

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Mário de Carvalho

Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde

[excerto]

Capítulo I

       Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releiro os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer. Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu. Também a mim, como ao Orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?
       Mara, mais além, borda, sentada numa cadeira alta de vime, junto aos degraus da porta. Há pouco, ralhava com as escravas. Agora ri-se com as escravas. Em breve ralhará com as escravas. Do local em que me encontro não consigo ouvi-la, mas quase adivinho as razões dos risos e dos ralhos. É-me agradável saber que Mara está perto, e reconhecer-lhe tão bem, desde há tantos anos, os trejeitos e os modos.
       Momentos atrás, sem nenhuma razão especial, veio até junto de mim, com o seu animal de regaço que é agora um gato cinzento, depois de, em hora nefasta, ter perdido a rola, muito alva, que lhe vinha comer à mão. Este bizarro animal, que dizem de origem egípcia, é uma espécie de pantera em miniatura que conserva todos os rompantes da fera e que, como ela, se compraz na crueldade e no rasgo imprevisto. Ora se relaxa, pacificado, em languidez esparramada, num convite ao sossego universal, ora salta de garras prestes, orelhas derribadas, pêlo tufado, colmilhos em ameaça. Não responde pelo nome e, apesar da sua pequenez, põe em respeito os cães de guarda quando os enfrenta. Foi um mercador que o deixou aí, como reconhecimento pelas compras avultadas, porventura excessivas, a que Mara se prestou. Eu confesso que encaro este animal estrangeiro com alguma desconfiança. Ainda não faz parte da casa, nem sei se algum dia fará…
       Mara admira-se de eu estar às voltas com a Tyrrenika, infindável anedotário etrusco do imperador Cláudio. Que proveito me trará o esforço, pergunta, se temos tão raros convidados a quem deslumbrar? Num gesto faceto, desdobra um dos rolos, soletra umas palavras ao acaso, ri e deixa-o rebolar pelo tampo da mesa. Logo as unhas afiadas do gato ressaltam, aduncas, e se preparam para grifar o papiro, como já tinham antes marcado os braços de Mara. Protesta. Mara aconchega o bicho ao colo e deixa-me, numa pequena corrida. Rito quotidiano, conhecido, trivial e amável. Mara, aprazível, afirmando-me a sua solicitude…
       Preserva Mara uma vivacidade juvenil que ainda me espanta, ao fim de todos estes anos. Nunca teve paciência para desenrolar um livro; boceja e adormece quando chamo um escravo para ler algum trecho, mesmo solerte e ligeiro. Aborrece-se nesta pasmada villa, mas nunca admitiria que se aborrece. Não lhe ocorre queixar-se. «Onde Gaio está, Gaia estará». Assim foi educada. Sob aquela futilidade alegre e volátil, velam solidíssimos princípios, ancestrais, e uma recôndita lucidez que só se expõe quando motivos ponderosos a convocam. Sempre contei com a estrénua lealdade de Mara, embora ela não saiba definir o vocábulo lealdade, nem dissertar sobre ele, nem use nunca o termo «estrénuo».
       Em boa verdade, os Etruscos de Cláudio interessam-me de somenos e a prosa dele flui tão entaramelada como dizem lhe saía a fala. Mas vou lendo, folha a folha, passo a passo, com uma aplicação de discípulo em tormentos de trabalho marcado e férula à espreita. Não tenho outra razão para isso, senão entreter brandamente o meu tédio, que ainda mais se avantajaria naqueloutros portes de caçador ou arroteador de solos ou edificador de pedras, ou diligente administrador de agros, ou praticante de qualquer actividade própria à minha condição… Começada um dia a leitura, impõe-se-me levá-la até ao fim. Assim me educaram e nessa pertinência me reconheço. Propus-me um livro? Há que lê-lo!

[…]

Carvalho, Mário de (1994). Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde.
Lisboa: Editorial Caminho. pp. 13-15.

 

 

Páginas Paralelas:


Informação sobre esta obra, “a mais premiada do autor” – nova edição da Porto Editora (2013)
 
 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Inês Pedrosa

Fazes-me Falta
[excerto]

1. Não basta morrer para conhecer o sorriso de Deus – mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira. Quando o pior acontecia, aquele sorriso descia às minhas trevas com um soluço de baloiço, um gingar de gonzos arrancado às cordas da infância. Eu sentava-me nele e subia, balouçando, até à luz. O pior aconteceu-me cedo, tive sorte. Deus procura primeiro os que sofrem antes do conhecimento específico da dor, talvez porque os outros sabem demasiado para poderem ser salvos.

    Tu dizias que era ao contrário: que Deus nasce da ignorância própria dos sofrimentos prematuros. Mas tu, meu aluno dilecto, cedo te deixaste povoar pelo excesso do saber. Deus não sabia nada do Universo quando o criou. Imagino que se sentiria só. Imagino que num momento impreciso essa solidão se terá tornado maior do que Ele próprio, estourando numa gigantesca flor de luz. E imagino-O, depois, tentando dar um sentido particular a cada uma das pétalas dessa luz dispersa. Agora que saí do corpo que fui – para me tornar pólen, poeira nos teus olhos, pura imaginação de mim – imagino-o melhor ainda, ébrio de luz, lúcido, encandeado por um Lúcifer oculto e criador incrustado no seu próprio ser, em estado de paixão com a história desencadeada pela sua omnipotente solidão. E balouço no Seu sorriso outra vez, a vez definitiva porque o meu corpo está lá em baixo, num caixão, contemplado e lembrado e chorado pela última vez.

[…]


1. Estou sozinho. Sozinho com o coração em bocados espalhados pelas tuas imagens. Já não posso oferecer-te o meu coração numa salva de prata. Alguma vez o quis? Alguma vez o quiseste? Dava-me agora jeito um deus qualquer para moço de recados. Um deus que te afagasse os cabelos e me recordasse como eram macios. Um deus que me libertasse desta imagem fixa do teu corpo encaixotado. Logo tu, que tantas vezes te rias daquilo a que chamavas o meu «encaixotamento compulsivo»:

    – Um dia chego cá e encontro-te no meio dessa papelada, morto de cansaço, pronto a encaixotar. Olha, eu é que não te empacoto – ganhei medo a mortos.

    Sempre te disse que o medo atrai a desgraça – podes rir-te. Ri agora tudo que ninguém te ouve. Isso; se o teu Deus existe solta uma gargalhada forte para que eu acredite. Mas não, é melhor que não te incomodes: essa gargalhada póstuma destoaria do meu belo arquivo de gargalhadas tuas. Estragava-lhe a estética, entendes? E a estética, para falarmos com franqueza, nunca foi o teu forte. Não suportavas as meias-tintas. Odiavas a renúncia engatilhada sobre os paradoxos da vida. Não podias ter morrido de uma coisa menos esdrúxula, por exemplo? Não podias aguardar a dignidade das primeiras rugas? Que tendência para o kitsch, minha querida – mas Deus sai-se sempre em kitsch, não é verdade?

    Descansa em paz. […]


Pedrosa, Inês (2002). Fazes-me Falta (8ª ed.).
Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. 9-12.