quarta-feira, 3 de abril de 2013

Pedro Rosa Mendes
O Medo
[excerto]
[…]
            Na estrada de Bendu Malem, na remota província de Pujehun, Serra Leoa, os pirilampos vinham ter comigo, connosco, batendo-nos no peito enquanto nós, em pé na carroçaria de uma “pick-up”, avançávamos para eles, com o nosso silêncio, com a nossa noite. Há muita noite, a qualquer hora, na estrada de Bendu Malem: valas comuns, uma atrás da outra, à esquerda, à direita, centenas, milhares de mortos da guerra civil, corpos deixados naqueles pântanos, sem luto, nem repouso. (O repouso é uma avaliação feita por nós: num espelho em que nos vemos uivando com os olhos fechados, com os olhos dos mortos. Dizemos “o repouso dos mortos” e queremos, na verdade, dizer “o repouso de nós”.) A guerra foi terrível em Pujehun, especialmente em aldeias perdidas como Bendun Malem, onde os rebeldes entraram, uma manhã, e mataram toda – toda – a população. Mil e duzentos homens, mulheres e crianças, de manhã à noite. Não sobrou ninguém. Num só dia. Apenas houve, digamos, um sobrevivente: o pequeno Morie. Tinha cinco ou seis anos quando atacaram Bendun Malem. Os rebeldes encontraram-no, no meio da matança, escondido numa cabana. Decidiram poupá-lo. Nomearam-no “chefe da aldeia” e obrigaram-no a procurar o seu pai no apocalipse dos mortos (pessoas em escombros misturadas com os animais, o gado, as galinhas – na Serra Leoa, os rebeldes seguiram a sua doutrina de “No Living Thing…”). Morie lá encontrou o corpo do pai: degolado e de barriga aberta. No fim da jornada, os rebeldes foram-se embora e deixaram-no sozinho com o seu pesadelo. Durante dois dias, Morie vagueou e chorou pela devastação do seu mundo, até caminhar para fora da aldeia e ser encontrado por outro grupo de combatentes.
            O padre John Garrick, da missão católica de Pujehun, levou-me até Morie. Experiência insuportável: como falar ao horror? As minhas palavras não são suficientes para comunicar com uma violência tão grande. O medo é uma faca e eu não quero pegar-lhe pela lâmina. Retiro a minha mão, mas os meus dedos já foram cortados…
            No alto da “pick-up”, entre outros rapazes como Morie, com histórias terríveis, escuto o vento e o uivo de Bendun Malen. Os pirilampos atingem-nos e dissolvem-se contra nós: acendendo, apagando. Acendendo, apagando. Acendendo, apagando, acendendo… Morrendo.
            E fazemos a estrada dos mortos, e da dor que nos assusta, aos poucos, para fora dos pântanos, da noite, dos demónios que lambem a estreita picada porque não há fogo que os assuste…
Bali, 13 de Julho de 2004
Mendes, Pedro Rosa (2006). O Medo. Revista de artes e ideias, 8, 6-7.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Faíza Hayat
Recordando as suas “Conversas com o espelho” e a última edição da Revista Xis, do Público (17.02.2007)
O homem dos meus sonhos
Sonho com um homem com a cabeça entre as mãos. Sorri para mim. Não tem mãos, não tem cabeça, sorri com o que lhe resta: a vontade de sorrir. Mais tarde hei-de encontrar esse mesmo homem num jardim de Lisboa, a dar de comer aos pombos. Reconheço-o, não obstante nunca lhe ter visto o rosto, pelo sorriso – pela vontade com que sorri. O homem vem ter comigo. Fala-me em inglês:
“Bom dia! Não nos conhecemos?”
Digo-lhe que não. Julgar-me-ia louca se lhe dissesse: “Estive consigo ontem, num sonho. Você estava sentado com a cabeça entre as mãos, mas não tinha cabeça nem mãos. O que tinha era esse sorriso”.
O homem hesita um pouco. Por fim recua: “desculpe, deve ser engano”.
E então, volto a sonhar com ele. Desta vez sonho-o ainda sem cabeça, mas já com as mãos. Umas belas mãos, ao mesmo tempo fortes e delicadas, de dedos longos. Pombas volteiam em seu redor, não como as pombas volteiam em torno de alguém, ou seja, num fragor de asas e vis dejectos, mas como borboletas – silenciosamente. É um sonho, tenham paciência, e num sonho as pombas podem voar como borboletas. Acho que as minhas, inclusive, tinham asas de borboleta. No meu sonho eu apaixono-me por aquele homem. Apaixono-me por aquele homem com uma tal intensidade – ferocidade, desvario, inquietação, escolham o termo que preferirem – que quando acordo, de manhã, continuo a pensar nele. Ainda estou a pensar nele quando o vejo, por acaso, à tarde, no mesmo jardim onde antes o encontrara com as pombas. Está agora sentado num banco, a ler um jornal, e ergue a cabeça quando passo. O seu olhar pousa no meu e logo o meu coração dispara num tropel. Tenho a certeza que corei, que estou estupidamente corada, e apresso o passo. Não olho para trás, mas sei que ele continua a olhar para mim. Sinto o seu olhar preso à minha nuca. Nessa noite preparo um banho, com óleos aromáticos, e deixo-me ficar muito tempo, a flutuar, de olhos fechados. Visto o meu pijama mais bonito. Um presente de despedida de um antigo namorado com sentido de humor. O homem reaparece no meu sonho, finalmente completo, rosto e mãos, e inclusive com um nome e uma profissão. Chama-se Filipe e é um domador de pesadelos, o que, no mundo dos sonhos, parece ser ofício muito respeitado. Quanto mais o conheço mais me apaixono. Tudo nele está feito para me agradar, desde o tom da sua voz, ao tom da sua pele. Reconheço-me nas suas indignações, partilho as suas paixões, aprendo com ele artes e mistérios para os quais, sinto-o, já estava preparada desde que nasci. Acordo feliz, iluminada, e só quando o procuro ao meu lado, e o não encontro, me dou conta de que acordei no lado errado. Todo o dia me dói o peito. Sinto a falta dele, angustiadamente, como um paraquedista, a meio do salto, sente a falta do paraquedas.
À noite, no jornal, encontro o rosto de Filipe. É australiano, psiquiatra, e veio a Lisboa apresentar um livro. Já regressou ao seu país. Deito-me, derrotada. Depois reflicto um pouco e recupero o ânimo. Talvez se o sonhar de novo, se o sonhar bem sonhado, ele reapareça. Dessa vez não o deixarei partir. x
Hayat, Faíza (2007, 17 de fevereiro). O homem dos meus sonhos. Xis, 398, 4.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Luís Afonso
O Comboio das Cinco
[excerto]
A REUNIÃO JÁ ESTAVA quase no fim quando surgiu a questão que viria a originar a polémica. Proponho que se peça à Junta de Freguesia o terreno anexo ao nosso campo de futebol para construir uma bancada e novos balneários. Falou Serafim Augusto, presidente do Santa Bárbara FC, principal clube da localidade de Santa Bárbara Bendita, sobretudo depois de o seu rival SC Benditense ter sido expulso de todos os campeonatos por prática de corrupção, materializada com o pagamento de uma jantarada a um árbitro. Confessou o subornado que comeu uma cabeça de borrego e uns tordos fritos, que estavam muito bons, dias antes de ter inventado três penáltis a favor do dito clube. Mais confessou que inventou três penaltis porque os primeiros dois foram chutados para fora, o que não se compreende com tantos treinos que há hoje em dia. Mas voltemos a Serafim Augusto e à reunião da direcção do Santa Bárbara FC. Sim, acho boa ideia, é um terreno que está ali ao abandono, disse o vice-presidente. Além disso, não deves ter problemas em convencer a Junta, Serafim, acrescentou um dos vogais, provocando a risota geral, ou quase, porque o presidente manteve o seu ar circunspecto. E tratou de pôr a proposta a votação, tendo como resultado a inevitável unanimidade. Passadas três semanas, na reunião ordinária da Junta de Freguesia de Santa Bárbara Bendita, o ofício proveniente do Santa Bárbara FC mereceu a maior atenção dos presentes, os quais, um após outro, manifestaram total disponibilidade para satisfazer o pedido e ceder o terreno em causa. Mas o presidente da Junta, Serafim Augusto, ele mesmo, achou que não era bem assim. Que na freguesia haveria outras colectividades que poderiam reivindicar o terreno, com a mesma legitimidade. Que se corria o risco de aparecer alguém a acusar a Junta de privilegiar o clube. Que o terreno faz falta à Junta. E que, não menos importante (last but not least ficava aqui bem, com aquele ar pedante q. b. que dá sempre jeito, mas o facto de esta história se passar em meio rural faz a expressão ficar assim um nadinha deslocada), não percebia para que raio queria o clube construir uma nova bancada e novos balneários se estava muito bem servido, com obras de remodelação realizadas recentemente, que custaram um dinheirão e tiveram a comparticipação da Junta em mais de noventa por cento. Os restantes membros da Junta olharam uns para os outros, talvez a pensar que Serafim Augusto estivesse a brincar com eles. Ó Serafim, vamos lá ver, então tu não és o presidente do Santa Bárbara, atirou-lhe corajosamente o secretário, também ele sócio e antigo atleta do clube. A resposta saiu logo. Sou, claro que sou, mas também sou o presidente aqui da Junta. E se há coisa que eu não admito é a Junta ser prejudicada por ninguém. Que vais fazer, insistiu o secretário. Indeferir o pedido, é a única coisa que pode ser feita, disse solenemente o presidente. Quem vota contra, quis saber, procurando o olhar de cada um dos eleitos. Alguém se abstém, questionou. Então está aprovado por unanimidade, agora há que enviar um ofício ao Santa Bárbara FC a comunicar o indeferimento. O ofício foi recebido só quatro dias depois, devido a uma greve dos carteiros. Não ocorreu a ninguém que a carta poderia ser entregue em mão, estando a sede da Junta paredes-meias com a sede do clube. Mas não teria o carimbo dos correios. A vida sem carimbos pode ficar facilitada, é certo, mas não tem carimbos. Quando Serafim Augusto entrou no clube nessa manhã, a mulher da limpeza entregou-lhe a correspondência. Ao abrir o envelope remetido pela Junta, o presidente do Santa Bárbara FC não conteve um berro. Merda. Se eu apanho estes filhos da puta da Junta. E marcou logo uma reunião extraordinária com apenas um ponto na ordem de trabalhos, o indeferimento da Junta de Freguesia. Sem conseguir disfarçar o estado de nervos em que se encontrava, Serafim Augusto deu início à reunião com uma tomada de posição. Vamos mostrar a esses gajos da Junta que não se trata assim uma instituição que tanto tem prestigiado esta terra. Vamos fazer um comunicado à população a denunciar a forma como estamos a ser tratados. E assim fizeram. […]
Afonso, Luís (2012). O Comboio das Cinco: O livro de LOPES,
o escritor pós-moderno. Lisboa: Abysmo. pp. 45-49.

Páginas Paralelas:
Notícia sobre o lançamento de O Comboio das Cinco, com o texto de apresentação do livro, da autoria de Mário de Carvalho (Público. 13.12.2012)

sexta-feira, 29 de março de 2013

Ruy Belo
O Portugal Futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
 
Belo, Ruy (2004). Todos os Poemas (2ª ed.). Lisboa: Assírio & Alvim. p. 264.
Páginas Paralelas:
O poema dito por Mário Viegas

Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=VlRg2nG-MbE

quinta-feira, 28 de março de 2013

Pedro Tamen
Que é isto de silêncio?
Não ouve o marinheiro o mar
e ele ruge. Nem o mar
ouvirá jamais o marinheiro.

Que é isto de silêncio?
O cavador não ouve a cegarrega
nem pressentem ralos e cigarras
o aço da enxada.

Eis o ruído que não é connosco
por de nós ser parte:
– silêncio, pétala arriscada
da flor em tumulto.
Tamen, Pedro (2004). Que é isto de silêncio? Textos e Pretextos, 4, 177. Publicado pela primeira vez em 2001, em Retábulo das Matérias (Lisboa: Gótica).

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Biografia de Pedro Tamen disponível aqui

quarta-feira, 27 de março de 2013

Ruy Belo
A flor da solidão

Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
Belo, Ruy (1997). Transporte no Tempo. Lisboa: Editorial presença. p. 28.
Páginas Paralelas:
Biografia de Ruy Belo na página Web do Instituto Camões

terça-feira, 26 de março de 2013

Ana Hatherly
O Poeta é um Guardador

o poeta é um guardador

guarda a diferença
guarda da indiferença

no incerto
guarda a certeza da voz

Hatherly, Ana (2001). O Poeta é um Guardador.
In Um Calculador de Improbabilidades. Lisboa: Quimera.

Páginas Paralelas:
Biografia e poemas de Ana Hatherly em um buraco na sombra
Conheça outros poemas de Ana Hatherly em POEMARGENS
Ana Hatherly – “O poeta é”, no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II