segunda-feira, 1 de abril de 2013

Luís Afonso
O Comboio das Cinco
[excerto]
A REUNIÃO JÁ ESTAVA quase no fim quando surgiu a questão que viria a originar a polémica. Proponho que se peça à Junta de Freguesia o terreno anexo ao nosso campo de futebol para construir uma bancada e novos balneários. Falou Serafim Augusto, presidente do Santa Bárbara FC, principal clube da localidade de Santa Bárbara Bendita, sobretudo depois de o seu rival SC Benditense ter sido expulso de todos os campeonatos por prática de corrupção, materializada com o pagamento de uma jantarada a um árbitro. Confessou o subornado que comeu uma cabeça de borrego e uns tordos fritos, que estavam muito bons, dias antes de ter inventado três penáltis a favor do dito clube. Mais confessou que inventou três penaltis porque os primeiros dois foram chutados para fora, o que não se compreende com tantos treinos que há hoje em dia. Mas voltemos a Serafim Augusto e à reunião da direcção do Santa Bárbara FC. Sim, acho boa ideia, é um terreno que está ali ao abandono, disse o vice-presidente. Além disso, não deves ter problemas em convencer a Junta, Serafim, acrescentou um dos vogais, provocando a risota geral, ou quase, porque o presidente manteve o seu ar circunspecto. E tratou de pôr a proposta a votação, tendo como resultado a inevitável unanimidade. Passadas três semanas, na reunião ordinária da Junta de Freguesia de Santa Bárbara Bendita, o ofício proveniente do Santa Bárbara FC mereceu a maior atenção dos presentes, os quais, um após outro, manifestaram total disponibilidade para satisfazer o pedido e ceder o terreno em causa. Mas o presidente da Junta, Serafim Augusto, ele mesmo, achou que não era bem assim. Que na freguesia haveria outras colectividades que poderiam reivindicar o terreno, com a mesma legitimidade. Que se corria o risco de aparecer alguém a acusar a Junta de privilegiar o clube. Que o terreno faz falta à Junta. E que, não menos importante (last but not least ficava aqui bem, com aquele ar pedante q. b. que dá sempre jeito, mas o facto de esta história se passar em meio rural faz a expressão ficar assim um nadinha deslocada), não percebia para que raio queria o clube construir uma nova bancada e novos balneários se estava muito bem servido, com obras de remodelação realizadas recentemente, que custaram um dinheirão e tiveram a comparticipação da Junta em mais de noventa por cento. Os restantes membros da Junta olharam uns para os outros, talvez a pensar que Serafim Augusto estivesse a brincar com eles. Ó Serafim, vamos lá ver, então tu não és o presidente do Santa Bárbara, atirou-lhe corajosamente o secretário, também ele sócio e antigo atleta do clube. A resposta saiu logo. Sou, claro que sou, mas também sou o presidente aqui da Junta. E se há coisa que eu não admito é a Junta ser prejudicada por ninguém. Que vais fazer, insistiu o secretário. Indeferir o pedido, é a única coisa que pode ser feita, disse solenemente o presidente. Quem vota contra, quis saber, procurando o olhar de cada um dos eleitos. Alguém se abstém, questionou. Então está aprovado por unanimidade, agora há que enviar um ofício ao Santa Bárbara FC a comunicar o indeferimento. O ofício foi recebido só quatro dias depois, devido a uma greve dos carteiros. Não ocorreu a ninguém que a carta poderia ser entregue em mão, estando a sede da Junta paredes-meias com a sede do clube. Mas não teria o carimbo dos correios. A vida sem carimbos pode ficar facilitada, é certo, mas não tem carimbos. Quando Serafim Augusto entrou no clube nessa manhã, a mulher da limpeza entregou-lhe a correspondência. Ao abrir o envelope remetido pela Junta, o presidente do Santa Bárbara FC não conteve um berro. Merda. Se eu apanho estes filhos da puta da Junta. E marcou logo uma reunião extraordinária com apenas um ponto na ordem de trabalhos, o indeferimento da Junta de Freguesia. Sem conseguir disfarçar o estado de nervos em que se encontrava, Serafim Augusto deu início à reunião com uma tomada de posição. Vamos mostrar a esses gajos da Junta que não se trata assim uma instituição que tanto tem prestigiado esta terra. Vamos fazer um comunicado à população a denunciar a forma como estamos a ser tratados. E assim fizeram. […]
Afonso, Luís (2012). O Comboio das Cinco: O livro de LOPES,
o escritor pós-moderno. Lisboa: Abysmo. pp. 45-49.

Páginas Paralelas:
Notícia sobre o lançamento de O Comboio das Cinco, com o texto de apresentação do livro, da autoria de Mário de Carvalho (Público. 13.12.2012)

sexta-feira, 29 de março de 2013

Ruy Belo
O Portugal Futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
 
Belo, Ruy (2004). Todos os Poemas (2ª ed.). Lisboa: Assírio & Alvim. p. 264.
Páginas Paralelas:
O poema dito por Mário Viegas

Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=VlRg2nG-MbE

quinta-feira, 28 de março de 2013

Pedro Tamen
Que é isto de silêncio?
Não ouve o marinheiro o mar
e ele ruge. Nem o mar
ouvirá jamais o marinheiro.

Que é isto de silêncio?
O cavador não ouve a cegarrega
nem pressentem ralos e cigarras
o aço da enxada.

Eis o ruído que não é connosco
por de nós ser parte:
– silêncio, pétala arriscada
da flor em tumulto.
Tamen, Pedro (2004). Que é isto de silêncio? Textos e Pretextos, 4, 177. Publicado pela primeira vez em 2001, em Retábulo das Matérias (Lisboa: Gótica).

Páginas Paralelas:
Biografia de Pedro Tamen disponível aqui

quarta-feira, 27 de março de 2013

Ruy Belo
A flor da solidão

Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
Belo, Ruy (1997). Transporte no Tempo. Lisboa: Editorial presença. p. 28.
Páginas Paralelas:
Biografia de Ruy Belo na página Web do Instituto Camões

terça-feira, 26 de março de 2013

Ana Hatherly
O Poeta é um Guardador

o poeta é um guardador

guarda a diferença
guarda da indiferença

no incerto
guarda a certeza da voz

Hatherly, Ana (2001). O Poeta é um Guardador.
In Um Calculador de Improbabilidades. Lisboa: Quimera.

Páginas Paralelas:
Biografia e poemas de Ana Hatherly em um buraco na sombra
Conheça outros poemas de Ana Hatherly em POEMARGENS
Ana Hatherly – “O poeta é”, no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II

segunda-feira, 25 de março de 2013

FADO de COIMBRA 

Luiz Goes 
Homem Só, Meu Irmão

 
Disponível aqui



Tu, a quem a vida pouco deu,
que deste o nada que foi teu
em gestos desmedidos...
Tu, a quem ninguém estendeu a mão
e mendigas o pão dos teus sentidos,
homem só, meu irmão!

Tu, que andas em busca da verdade
e só encontras falsidade
em cada sentimento,
inventa, inventa amigo uma canção
que dure para além deste momento,
homem só, meu irmão!

Tu, que nesta vida te perdeste
e nunca a mitos te vendeste
– dura solidão –,
faz dessa solidão teu chão sagrado,
agarra bem teu leme ou teu arado,
homem só, meu irmão!

Disponível em Guitarrasde Coimbra IV


Páginas Paralelas:

“Luiz Goes – O Neo-Modernismo no Canto de Coimbra”
Disponível em O Canto e a Música de Coimbra

sexta-feira, 22 de março de 2013

José Cardoso Pires
Alexandra Alpha
Taverna em Fado Mudo
[excerto]

     Désanti guardava a ideia dum tasco localizado na banlieu – Braço de Prata, informou Sophia em aparte – um balcão com três ou quatro bêbados à volta dum cego que tocava guitarra amparado pelo guia. Fora dar ali, levado por madame (Sophia Bonifrates) que lhe queria apresentar um faquir desempregado para possível figurante do seu filme.
     O faquir não estava, na verdade só apareceria bastante depois, mas em compensação havia o cego, o guia e toda a trupe dos bêbados que frequentavam o local. Só isso já era um espectáculo, sobretudo a figura do guia que, como vieram a saber, era mudo mas não de nascença: mudo por qualquer tumor de garganta com uma estória muito maligna que o francês percebeu por alto e de través mas que apesar de tudo lá percebeu. Por conta de várias cervejas o bando de bêbados pôs-se a enumerar um sem-número de velhacarias praticadas por médicos e por enfermeiras desalmadas, e com isso pretendia denunciar os podres das batas brancas que governam os hospitais do pobre cá no nosso país. Para comprovar tais desgraças os bêbados exemplificavam com o mudo ali presente, o qual teria muito para contar se não tivesse saído das mãos dos ditos doutores malignos no estado em que se via. Pormenor a considerar, o padecente, cauteleiro de profissão, era filho daquele bairro e antes do tumor que o havia de calar tinha uma voz para o fado como poucos ou nenhum. Para o fado, quer-se dizer, para artista da canção nacional, elucidavam os bêbados batendo com dois dedos nas goelas, compreende o monsiú?
     Segue-se que, nesta conformidade e com a pendência para os acordes que lhe era reconhecida, não faltavam ao rapaz patuscadas e garçones, a ponto de no São Martinho, que é quando os bêbados são mais que as mães, os vizinhos terem de fazer uma maquete, uma quête, emendou a Sophia, isso, uma subscrição, disseram os bêbados, e era se o queriam ouvir. Isto, antes de o sacana do cancro, peço desculpa, lhe ter comido a voz, pois, enquanto fadista, o rapaz não dava vazão aos pedidos, verdade ou mentira?, perguntavam os bêbados ao mudo.
     O mudo ouvia, modestamente, girando a garrafa de cerveja sobre a mesa. Um artista que tinha ficado conhecido pelo fado do Arsenal e por outros fados de exclusivo não merecia ver-se assim moço de cego, a estender a mão à caridade pública. Os narradores de taberna não só chamavam a atenção dos forasteiros para a injustiça que estavam a presenciar como se olhavam entre si com piedade. Um deles abriu os braços, resignado:
     «Azares», disse ele. «A gente cá em Portugal chama a isto azares, que é que se há-de fazer?»
     «Mister, na nossa terra passa-se muita dificuldade», disse outro.
     Com mais algumas rodadas as tristezas já não pagavam dívidas e, sendo assim, alguém começou a cantar o Hino do Benfica acompanhado à guitarra pelo cego. Depois vieram uns versos ao jocoso, com licença da senhora, e até quadras populares onde a própria Sophia fez coro. Foi então que se ouviram na guitarra as notas do Fado do Arsenal: o bando dos bêbados calou-se imediatamente porque o mudo se tinha posto de pé e levantava a mão a impor silêncio e concentração.
     Lado a lado, ele e o cego enfrentaram a assistência, a guitarra a aclarar o tom, a afinar. E na altura própria, o mudo abriu as goelas. E pronunciou sem soltar um som a letra do Fado do Arsenal, batendo os lábios ao ritmo do instrumento e com as pausas, as voltas e os arrastados que mandava a regra. Fazia os gestos sentidos do fadista de raça, o meneio dos ombros, o prolongado fechar dos olhos, o peito arrogante na tirada mais funda. Mas sem uma palavra, sem uma nota. Parecia um homem a cantar numa redoma isolada à prova de som.
     Um por um, segunda surpresa, a assistência de bêbados pôs-se a cantar. Cantava com os olhos no silabar do fadista sem som, lendo-lhe a letra nos lábios e seguindo-os pelo ritmo, e era coisa única, disse François Désanti, ouvir um mudo na voz dum coro de bêbados. Um fenómeno dramático e grotesco e quase religioso. Como se fosse um ventríloquo que se fizesse ouvir em várias figuras ao mesmo tempo.
     […]

Pires, José Cardoso (1987). Alexandra Alpha.
Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. 111-113.


Páginas Paralelas:


s.a. (5.12.2008). “Cardoso Pires, o contador de Lisboa”. ípsilon – Público.

British Bar (Lisboa), frequentado por Cardoso Pires






Foto (2008) Disponível em
http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=1260









"A Lisboa boémia de José Cardoso Pires" em Revelar LX