sexta-feira, 15 de março de 2013

Sebastião da Gama

O SONHO


 

 

 

 

Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.

 
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

 
Chegamos? Não chegamos?

 
- Partimos. Vamos. Somos.

 

Gama, Sebastião da (1971). Pelo Sonho é Que Vamos
(2ª ed.). Lisboa: Edições Ática. p. 59.

 

quinta-feira, 14 de março de 2013

José Cardoso Pires
Amanhã, Se Deus Quiser
[excerto]

     Sábado à noite a minha irmã não ia às aulas do Instituto.
     Embora o médico a tivesse avisado de que nunca, mas nunca, deveria trabalhar ao serão, ela lá estava toda dobrada sobre a máquina de costura, chorando cada vez mais dos olhos. E cada vez mais, também, a vista lhe ia enfraquecendo pela noite fora até que, às tantas, já não era apenas a agulha que devorava metros e metros de pano, mas toda ela, acompanhando os pontos com as lágrimas que lhe deslizavam do rosto.
     «Se algum dia tivesse de trabalhar em obra fina, estava perdida», ouvia-a dizer em certas ocasiões. Referia-se evidentemente ao perigo de manchar um tecido precioso com as lágrimas, e suspirava limpando-as às costas da mão.
     Esfregava muito a cara, tinha-a afogueada. Passava a semana a batalhar com quilómetros de fazenda que lhe mandavam, cortada, do Casão Militar e nos serões de sábado e de domingo quase cegava de esforço. A pouco e pouco ia descaindo a cabeça, a princípio debruçada e por fim toda estendida sobre a máquina de costura, e pedalando sempre pela noite além. Naquela posição, tão atenta e silenciosa, a minha irmã parecia escutar uma longa e amarga conversa que a agulha lhe ia ditando ao ouvido enquanto o tecido – áspero cotim de militares – passava por entre elas as duas, mulher e máquina, regado de lágrimas a todo o comprimento.
     Em casa só tínhamos lâmpadas de quinze velas e, mesmo assim, nos últimos dias do mês, éramos obrigados a usar o candeeiro a petróleo para evitar as multas do racionamento. De modo que, enquanto podíamos gastar electricidade, havia um cartão amarrado à volta da lâmpada para dirigir a luz sobre a minha irmã. O resto da sala ficava então nas trevas. Distinguiam-se vultos de móveis, paredes, vidraças cruzadas e tiras de papel (conforme obrigavam os legionários da Defesa Civil, copiando a Europa que andava em guerra) e, a um canto, boiando numa ilha de luz, a minha irmã à máquina.
     «Então?», perguntou-me a mãe assim que entrei. Estava também a costurar, sentada numa cadeira baixinha, e partia uma linha com os dentes. Ficou com ela pendurada na boca, a fitar-me.
     «O jantar, mãe.»
     Eu a dizer isto, e o pedal da máquina de costura a suspender-se como que por milagre. Sentei-me à mesa, adivinhando o olhar da minha irmã pousado sobre mim, percebendo o silêncio da máquina, de que dependia esse olhar, e percebendo igualmente que a mãe continuava suspensa, com a linha partida pendurada nos lábios.
     «A comida», tornei eu a pedir, debruçando-me ainda mais sobre o oleado que cobria a mesa.
     Então a mãe abandonou o monte de roupa que tinha no regaço e endireitou-se com um suspiro fundo que lhe fez estremecer o peito. Em seguida espetou a agulha na gola do vestido.
     «Já calculava», disse. «Paciência, que havemos nós de fazer?»
     A passos cansados, veio colocar-se diante de mim. De pé, apoiada à mesa, as mãos tremiam-lhe muito, escuras e gretadas por golpes de facas de cozinha e pela lixívia.
     «Nem ao menos te deram uma desculpa?»
     Eu, pela minha parte, percorria o oleado com os dedos, ao acaso, levantando pedacinhos de tinta com a unha nos sítios onde estava estalado.
     «Paciência», tornou a mãe. «As coisas não hão-de correr sempre mal, deixa lá. O principal é uma pessoa não desanimar.»
     Saiu, a máquina de costura recomeçou a matraquear, mais forte e mais raivosa do que nunca. Voltei-me para a minha irmã, mergulhada na fazenda que a agulha mordia a correr. As pernas dela mal sustinham o ritmo do pedal, as veias do pescoço quase estouravam de tensas. Encostava a cabeça à agulha e toda a sua figura, abafada no cotim dos militares, parecia envolta numa desordem de retalhos e de linhas de coser.
     Senti um barulho de pratos na cozinha, as pancadas ocas do contador da água e, não tardou muito, a mãe estava de volta com o jantar:
     «Bem podias esperar pelo pai…»
     O gato saltou da floreira de cana para cima da mesa.
     «Chta, gato.» A minha mãe afastou-o com um safanão. «Quando o pai vier, vou ter que ouvir… Sabes bem que ele não gosta que coma cada um por sua vez.»
     Peguei num carapau, mastiguei-o com espinhas e tudo. Tinha pressa, comia e, sem perder tempo, enchia o púcaro de vinho.
     «Tira dos do fundo», continuava a minha mãe. «Destes maiores. Assim, confesso, nem a comida rende. Agora come o filho, agora come o pai… vida de ciganos, é o que isto me faz lembrar.»
     Sentada à minha frente, pendia-lhe sobre a testa uma madeixa de cabelos e os olhos piscavam-lhe no meio de muitas e pequenas rugas. Piscavam mais em certas ocasiões, muito particularmente quando estava vencida ou quando meditava.
     «Ao menos esses são unidos», acrescentou. «Nunca lhes falta trabalho.»
     […]

Pires, José Cardoso (2000). Amanhã, Se Deus Quiser. In Jogos
de Azar. (pp. 47-66). Lisboa: Planeta DeAgostini. pp. 49-53.


Páginas Paralelas:
José Cardoso Pires na Infopédia
José Cardoso Pires por José Cardoso Pires – “Fumar ao espelho”

quarta-feira, 13 de março de 2013

Aquilino Ribeiro

O Malhadinhas
[excerto]


     […]
     Eu praguejava como é próprio de gente pouco paciente e nada habituada a rezar:
     – Raios partam a vida, não me fazer minha mãe fidalgo! Se mil diabos me levassem maila cadela da sorte!...
     – Companheiro dos meus pecados – disse-me então Fr. Joaquim das Sete Dores, de riba da azémola, toque, toque, atrás de mim, tão enfarinhado que só a coca do capuz guardava um arzinho de negro – não blasfemes! Olha que Deus está a ouvir-nos e, se quiser, pode muito bem sepultar-nos debaixo da neve como sepultou os esgipcianos no mar das Arábias. Querias ser fidalgo, ham?! Não querias mais nada…? Tu não sabes o que queres nem sabes o que dizes. Põe lá na tua que as vidas não são piores nem melhores, elha por elha. São vida e basta!
     – Em boa hora sai Vossa Paternidade com o sermonário – respondi eu. – Então a condição dos letrados, de cadeira, a cardar os desavindos; a dos padres – e perdoe Vossa Paternidade se lhe estou em casa – a comer os dízimos e, lá de quando em quando, a louvar no Breviário ao criador dos melros, podem comparar-se a esta safadeza de ofício, raçoar de seco, dormir quando Deus quer, às vezes torricado do sol, outras molhando pingando, como desta feita, que até já levo uma lagoa no umbigo?! Outra porta, que aqui mora um surdo!
     – António – tornava ele, tangendo rijo a bestiaga para aparceirar com o machinho, que era andeiro – o teu entendimento anda mal ensinado. O bicho homem, quem quer que seja e o que quer que faça, tem sempre consigo a mesma peçonha. E esta peçonha sabes o que é? É o nunca estar contente com a sua sorte. Quanto mais tem mais apetece, deseja e torna a desejar para logo ou amanhã aborrecer. Como não há-de cansar-se da vida nesta alcatruzada de aborrecer e desejar.
     – Assim será, meu irmão. Agora cá eu, franqueza, franquezinha, antes queria ser o fidalgo da quinta da Ucha, boa brasa aos pés, bons bifes à manja, boas fêmeas para o gozo, que o pilorda que aqui vai por baixo duma nevasca, Anjo Bento, que até se me afigura que deu foeira no céu.
     […]

Ribeiro, Aquilino (1989). O Malhadinhas. Lisboa: Bertrand Editora.
pp. 133-134. (Publicado pela primeira vez em 1958).


Páginas Paralelas:
Comemorações do cinquentenário da morte de AquilinoRibeiro

Biografia disponível no site da DGLB
Revista de Homenagem ao autor: Colóquio Letras, 85 (Maio 1985)

terça-feira, 12 de março de 2013

Fernando Namora

História de uma Pneumonia

Fui admitido como interno do hospital da vila. Não havia, aliás, grandes oposições ao lugar, visto que o orçamento não incluía remuneração aos médicos. […]
O médico é um sujeito milagroso e optimista, que vive de honrarias, que não tem estômago nem família, aceitando ou implorando, de chapéu na mão, um canto qualquer onde trabalhe de graça. É o único profissional, neste mundo bem atento ao deve e haver, que se basta com doentes, horas afanosas de lida, uma euforizadora aparência de auréolas e proveito.
Os outros médicos do hospital receberam-me com um abraço de boas-vindas: eu não ia para ali como competidor; apenas os libertaria de algumas estafas sem recompensa. Por meu lado, estava convencido, como todos os novatos, de que essa actividade me daria lições de experiência e de contacto rendoso com os doentes da região. […]
Certo dia, chegou ali um homem rude, dos seus cinquenta anos, com as rugas da nuca e da face preenchidas por décadas de sujidade. Enquanto o observava, distraía-me a seguir a geografia dessas linhas de sarro estratificado. Dei-lhe uma palmada nas costas, para o dispor bem, e disse:
 - Pode ficar internado, sim senhor. Vai tomar um banho, despir esse fato e entra já hoje para a enfermaria.
 - Banho, Sr. Doutor?
 - Banho, pois… É o costume.
O homem levou as mãos às costas, coçou-as, indeciso e suspeitoso.
 - Banho… repetiu ele, meditabundo – Banho, Sr. Doutor, é que não consinto. Não vejo de que me sirva para a minha doença.
 - Pois isso nada tem a ver com a sua doença, de acordo. Mas é do regulamento, e um regulamento é para se cumprir. O banho e a mudança de roupa. Temos cá em baixo uma casa para guardar os fatos dos doentes. Pode estar descansado que o seu fica em segurança.
O homem deu um passo para a saída e pegou no chapéu. Interpelei-o ainda:
 - Então o senhor não toma banho em sua casa?
 - Tomei, sim senhor, antes das sortes e antes do meu casamento. A gente não vai chapinhar na água toda a vez que se lembre. Está um homem sujeito a apanhar um catarral ou um resfriamento.
 - Qual resfriamento! Deixe-se disso e espere aí pelo criado.
Ele, embora reticente, acabou por conceder.
Dois dias depois coube-me a vez de prestar serviço na enfermaria dos homens. Numa das camas, o doente tinha a roupa arrepiada para a cabeça, como se tivesse frio. Peguei no dossier e perguntei ao enfermeiro:
 - Quem é este homem?
As mãos do doente afastaram os lençóis com brusquidão. E, de olhos injectados, vermelhos de febre e rancor, disse numa voz rouquejada, mal se percebendo as palavras:
 - Sou eu, Sr. Doutor! Tenho um catarral e é por sua culpa. Eu bem lhe disse que não se brinca com a água.
O homem teve realmente uma pneumonia.

Namora, Fernando (1975). Retalhos da Vida de um Médico.
Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 119-121.


Páginas Paralelas:

Sobre Fernando Namora

Doação do Espólio de Fernando Namora à BNP

segunda-feira, 11 de março de 2013


Cesário Verde
I
AVE-MARIAS
                Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

                O Céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

                Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

                Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

                Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

                E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

                E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

                Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

                Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

                Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

                Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
Verde, Cesário [1986]. O Livro de Cesário Verde.
Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 77-79.

Páginas Paralelas:


Almada Negreiros: painéis para a Estação Marítima de Alcântara, em Lisboa (1934-1943). Disponível no blog “Do Porto e Não Só…”, com informação detalhada sobre esta obra

sexta-feira, 8 de março de 2013

Ferreira de Castro
A Selva
[excerto]
       […]
       Não o atraíam esses rios de lendárias fortunas onde os homens se enclausuravam do mundo, numa confrangida labuta para a conquista do oiro negro, lá onde os ecos da civilização só chegavam muito difusamente, como de coisa longínqua, inverosímil quase. Quando desembarcara em Belém, ido de Portugal, a borracha ainda tinha altas cotações e exercia profundo sortilégio sobre todos aqueles que davam ao dinheiro a maior representação da vida. Muitos dos empregados no comércio, vendo a pequenez dos seus ordenados, tão longe do que deles se afirmava na Europa, desertavam dos escritórios e dos balcões e embrenhavam-se Amazonas acima, ansiando maior recompensa ao trabalho, onde quer que ela existisse. Algumas vezes também o haviam tentado essas estradas líquidas que cortavam a selva imensa, mas sempre um pavor instintivo, amálgama do que se dizia de febres perigosas e de vida bárbara e instável, o detivera em Belém. Era então a Amazónia um imã na terra brasileira e para ela convergiam copiosas ambições dos quatro pontos cardeais, porque a riqueza se apresentava de fácil posse, desde que a audácia se antepusesse aos escrúpulos. Com os rebanhos, idos do sertão do Noroeste, demandavam a selva exuberante todos os aventureiros que buscam pepitas de oiro ao longo dos caminhos do Mundo. E como não era na brenha espessa que se encontrava, para os ligeiros de consciência, a aurífera jazida, quedavam-se os ladinos em Belém e Manaus, a traficar com o esforço mitológico dos que, entre todos os perigos, se entregavam à extracção da borracha.
       Fora assim que seu tio enriquecera e tinha já duas quintas em Portugal: fora assim que pobretões sem eira nem beira se transformaram, de um instante para o outro, em donos de «casas aviadoras»1, tão poderosas que sustentavam no dédalo fluvial grande frota de «gaiolas»2. Aos que desbastavam a saúde e a vida no centro da floresta, vendiam por cinquenta aquilo que custava dez e compravam-lhes por dez o que valia cinquenta. E quando o ingénuo conseguia triunfar de toda essa espoliação e descia, sorridente e perturbado pelo contacto com o mundo urbano, a caminho da terra nativa, nos confins do Maranhão ou do Ceará, lá estava Macedo3 com os colegas e as suas hospedarias, que o haviam explorado na subida e agora o exploravam muito mais ainda, com uma intérmina série de ardis, que ia da «vermelhinha», onde se começava por ganhar muito e se acabava por perder tudo, até o latrocínio, executado sob a protecção do álcool.
       De um dia para o outro, o seringueiro de «saldo», que suportava uma dezena de anos na selva, em luta com a natureza implacável, para adquirir os dinheiros necessários ao regresso, via-se sem nada – e sem saber até como o haviam despojado. De novo pobre, com a família e a terra, preocupações constantes do seu exílio, a atraírem-no de longe, ele sufocava, uma vez mais, as saudades, a dor do tempo perdido, e regressava ao seringal, tão miserável como na primeira hora em que lá aportara.
       Todos os cais de Belém a Manaus falavam desses dramas anónimos, dos logros feitos à gente rude que ia desbravando, com desconhecido heroísmo, a selva densa e feroz.
       […]
Castro, Ferreira de (2000). A Selva (39ª ed.).
Lisboa: Guimarães Editores. pp. 28-29.
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__________
Notas nossas:
1 Casas aviadoras: “Situadas em Belém e Manaus, essas casas aviadoras são os estabelecimentos comerciais que se constituíram para abastecer os seringais, deles recebendo, em troca, a borracha produzida e na posse dela realizar as operações de venda para o exterior.” <http://www.colegioweb.com.br/historia-brasil/as-casas-aviadoras.html> Ver outra informação sobre este sistema – o aviamento – no artigo de Fadel David António Filho referido abaixo.
2 “Gaiolas” são pequenas embarcações fluviais usadas na Amazónia.
3 Macedo é o tio da personagem principal.

 
Páginas Paralelas:

“Riqueza e miséria do ciclo da borracha na Amazônia brasileira: um olhar geográfico através de Euclides da Cunha”, artigo de Fadel David António Filho (s.d.), disponível no site da Casa de CulturaEuclides da Cunha 

 


Leia o Prefácio escrito por José Saramago para Terra, álbum fotográfico de Sebastião Salgado, sobre a luta dos sem-terra, disponível na página Web do Movimento dos Trabalhadores Rurais semTerra



“Menina eternizada em foto de Sebastião Salgado ainda é sem-terra”, artigo de Paulo Cezar Farias (24.08.2012), na Folha de S. Paulo

quinta-feira, 7 de março de 2013

Ferreira de Castro
A Selva
[excerto]
[…]
O «varador» era estreita senda que não daria passagem a um automóvel, pequeno que fosse; e cortavam-no, aqui e ali, grossas árvores que tinham caído e apodreciam sem que ninguém as removesse. Dum lado e outro, a selva. Até esse instante Alberto vira apenas as suas linhas marginais; surgia, agora, o coração.
Surgia com um aglomerado exuberante, arbitrário e louco, de troncos e hastes, ramaria pegada e multiforme, por onde serpeava, em curvas imprevistas, em balanços largos, em anéis repetidos e fatais, todo um mundo de lianas e parasitas verdes, que faziam de alguns trechos uma rede intransponível. Não havia caule que subisse limpo de tentáculos a expor a crista ao sol; a luz descia muito dificilmente e vinha, esfarrapando-se entre folhas, galhos e palmas, morrer na densa multidão de arbustos, cujo verde intenso e fresco nunca esmorecia com os ardores do Estio. Primeiro a folhagem seca dos gigantes, que cobria o chão, putrefazendo-se em irmandade com troncos mortos e esfarelados, dos quais já brotavam, vitoriosas para a vida, folhitas petulantes como orelhas de coelho. Alastravam, depois, as largas palmas de tajás e de outra plantaria, de tudo quanto vinha nascendo e ocultava a terra onde as árvores sepultavam as raízes. Crescia a mata até à altura de dois homens, posto um sobre o outro, e só então os olhos podiam encontrar algum espaço em branco, riscado, ainda assim, polos coleios dos cipós que iam de tronco a tronco, dando ponte a capijubas e demais macacaria pequena, que não quisesse saltar. De lá para cima abriam-se as umbelas seculares e constituíam série interminável os seus portentosos cabos. E era aí que a luz dava um ar da sua graça, branqueando e tornando luzidio o pescoço de algumas árvores mais altas e restituindo, pela transparência, às asas de milhares de borboletas, as suas verdadeiras cores de arco-íris fantástico.
De longe a longe, uma palmeira muito esguia e clara subia, em arranco de foguete, para olhar a selva por cima do ondeado em que terminava todo o arvoredo. E eram, então, quatro palmas solitárias lá no alto, como se quisessem fugir dos homens – dos homens que, apesar de tudo, lhes iam roubar o cacho saboroso, de onde extraíam o açaí.
A princípio, ainda os olhos fixavam o revestimento deste e daquele tronco e de outro, e outro, e outro, mas depois abandonavam-se ao conjunto, porque não havia memória nem pupila que pudesse recolher tão grande variedade. Só de frutos que não se comiam e se corrompiam na terra, porque nunca ninguém se arriscara a saber se davam apenas volúpia ou se envenenavam também, havia mais espécies do que todas as que se cultivavam em pomares europeus. Somente a colectividade imperava ali: o indivíduo vegetal despersonalizava-se e era amesquinhado pelos vizinhos, tantos, tantos, que apesar de Firmino ter já nomeado centenas, restavam muitos milhares ainda no anonimato. De quando em quando, golfando por súbita abertura, o sol iluminava um inverosímil claustro.
E por toda a parte o silêncio. Um silêncio sinfónico, feito de milhões de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio suavíssimo da folhagem, tão suave que parecia estar a selva em êxtase.
Às vezes, era certo, uma imprevista e pânica restolhada de folhas e de asas levava Alberto a parar, agarrando-se instintivamente ao braço do companheiro.
– É uma inambu – disse Firmino, sorrindo daquele temor.
Mais adiante, ruidoso lagarto, correndo subitamente sobre a folhagem morta, de novo o galvanizava.
Mas o silêncio volvia. E com ele, uma longa, uma indecifrável expectativa. Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de maravilhosa e incognoscível presa.
[…]
Castro, Ferreira de (2000). A Selva (39ª ed.).
Lisboa: Guimarães Editores. pp. 78-80.


Páginas Paralelas:



A Selva, o filme de Leonel Vieira (2002) – trailer.