terça-feira, 12 de março de 2013

Fernando Namora

História de uma Pneumonia

Fui admitido como interno do hospital da vila. Não havia, aliás, grandes oposições ao lugar, visto que o orçamento não incluía remuneração aos médicos. […]
O médico é um sujeito milagroso e optimista, que vive de honrarias, que não tem estômago nem família, aceitando ou implorando, de chapéu na mão, um canto qualquer onde trabalhe de graça. É o único profissional, neste mundo bem atento ao deve e haver, que se basta com doentes, horas afanosas de lida, uma euforizadora aparência de auréolas e proveito.
Os outros médicos do hospital receberam-me com um abraço de boas-vindas: eu não ia para ali como competidor; apenas os libertaria de algumas estafas sem recompensa. Por meu lado, estava convencido, como todos os novatos, de que essa actividade me daria lições de experiência e de contacto rendoso com os doentes da região. […]
Certo dia, chegou ali um homem rude, dos seus cinquenta anos, com as rugas da nuca e da face preenchidas por décadas de sujidade. Enquanto o observava, distraía-me a seguir a geografia dessas linhas de sarro estratificado. Dei-lhe uma palmada nas costas, para o dispor bem, e disse:
 - Pode ficar internado, sim senhor. Vai tomar um banho, despir esse fato e entra já hoje para a enfermaria.
 - Banho, Sr. Doutor?
 - Banho, pois… É o costume.
O homem levou as mãos às costas, coçou-as, indeciso e suspeitoso.
 - Banho… repetiu ele, meditabundo – Banho, Sr. Doutor, é que não consinto. Não vejo de que me sirva para a minha doença.
 - Pois isso nada tem a ver com a sua doença, de acordo. Mas é do regulamento, e um regulamento é para se cumprir. O banho e a mudança de roupa. Temos cá em baixo uma casa para guardar os fatos dos doentes. Pode estar descansado que o seu fica em segurança.
O homem deu um passo para a saída e pegou no chapéu. Interpelei-o ainda:
 - Então o senhor não toma banho em sua casa?
 - Tomei, sim senhor, antes das sortes e antes do meu casamento. A gente não vai chapinhar na água toda a vez que se lembre. Está um homem sujeito a apanhar um catarral ou um resfriamento.
 - Qual resfriamento! Deixe-se disso e espere aí pelo criado.
Ele, embora reticente, acabou por conceder.
Dois dias depois coube-me a vez de prestar serviço na enfermaria dos homens. Numa das camas, o doente tinha a roupa arrepiada para a cabeça, como se tivesse frio. Peguei no dossier e perguntei ao enfermeiro:
 - Quem é este homem?
As mãos do doente afastaram os lençóis com brusquidão. E, de olhos injectados, vermelhos de febre e rancor, disse numa voz rouquejada, mal se percebendo as palavras:
 - Sou eu, Sr. Doutor! Tenho um catarral e é por sua culpa. Eu bem lhe disse que não se brinca com a água.
O homem teve realmente uma pneumonia.

Namora, Fernando (1975). Retalhos da Vida de um Médico.
Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 119-121.


Páginas Paralelas:

Sobre Fernando Namora

Doação do Espólio de Fernando Namora à BNP

segunda-feira, 11 de março de 2013


Cesário Verde
I
AVE-MARIAS
                Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

                O Céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

                Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

                Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

                Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

                E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

                E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

                Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

                Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

                Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

                Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
Verde, Cesário [1986]. O Livro de Cesário Verde.
Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 77-79.

Páginas Paralelas:


Almada Negreiros: painéis para a Estação Marítima de Alcântara, em Lisboa (1934-1943). Disponível no blog “Do Porto e Não Só…”, com informação detalhada sobre esta obra

sexta-feira, 8 de março de 2013

Ferreira de Castro
A Selva
[excerto]
       […]
       Não o atraíam esses rios de lendárias fortunas onde os homens se enclausuravam do mundo, numa confrangida labuta para a conquista do oiro negro, lá onde os ecos da civilização só chegavam muito difusamente, como de coisa longínqua, inverosímil quase. Quando desembarcara em Belém, ido de Portugal, a borracha ainda tinha altas cotações e exercia profundo sortilégio sobre todos aqueles que davam ao dinheiro a maior representação da vida. Muitos dos empregados no comércio, vendo a pequenez dos seus ordenados, tão longe do que deles se afirmava na Europa, desertavam dos escritórios e dos balcões e embrenhavam-se Amazonas acima, ansiando maior recompensa ao trabalho, onde quer que ela existisse. Algumas vezes também o haviam tentado essas estradas líquidas que cortavam a selva imensa, mas sempre um pavor instintivo, amálgama do que se dizia de febres perigosas e de vida bárbara e instável, o detivera em Belém. Era então a Amazónia um imã na terra brasileira e para ela convergiam copiosas ambições dos quatro pontos cardeais, porque a riqueza se apresentava de fácil posse, desde que a audácia se antepusesse aos escrúpulos. Com os rebanhos, idos do sertão do Noroeste, demandavam a selva exuberante todos os aventureiros que buscam pepitas de oiro ao longo dos caminhos do Mundo. E como não era na brenha espessa que se encontrava, para os ligeiros de consciência, a aurífera jazida, quedavam-se os ladinos em Belém e Manaus, a traficar com o esforço mitológico dos que, entre todos os perigos, se entregavam à extracção da borracha.
       Fora assim que seu tio enriquecera e tinha já duas quintas em Portugal: fora assim que pobretões sem eira nem beira se transformaram, de um instante para o outro, em donos de «casas aviadoras»1, tão poderosas que sustentavam no dédalo fluvial grande frota de «gaiolas»2. Aos que desbastavam a saúde e a vida no centro da floresta, vendiam por cinquenta aquilo que custava dez e compravam-lhes por dez o que valia cinquenta. E quando o ingénuo conseguia triunfar de toda essa espoliação e descia, sorridente e perturbado pelo contacto com o mundo urbano, a caminho da terra nativa, nos confins do Maranhão ou do Ceará, lá estava Macedo3 com os colegas e as suas hospedarias, que o haviam explorado na subida e agora o exploravam muito mais ainda, com uma intérmina série de ardis, que ia da «vermelhinha», onde se começava por ganhar muito e se acabava por perder tudo, até o latrocínio, executado sob a protecção do álcool.
       De um dia para o outro, o seringueiro de «saldo», que suportava uma dezena de anos na selva, em luta com a natureza implacável, para adquirir os dinheiros necessários ao regresso, via-se sem nada – e sem saber até como o haviam despojado. De novo pobre, com a família e a terra, preocupações constantes do seu exílio, a atraírem-no de longe, ele sufocava, uma vez mais, as saudades, a dor do tempo perdido, e regressava ao seringal, tão miserável como na primeira hora em que lá aportara.
       Todos os cais de Belém a Manaus falavam desses dramas anónimos, dos logros feitos à gente rude que ia desbravando, com desconhecido heroísmo, a selva densa e feroz.
       […]
Castro, Ferreira de (2000). A Selva (39ª ed.).
Lisboa: Guimarães Editores. pp. 28-29.
.
__________
Notas nossas:
1 Casas aviadoras: “Situadas em Belém e Manaus, essas casas aviadoras são os estabelecimentos comerciais que se constituíram para abastecer os seringais, deles recebendo, em troca, a borracha produzida e na posse dela realizar as operações de venda para o exterior.” <http://www.colegioweb.com.br/historia-brasil/as-casas-aviadoras.html> Ver outra informação sobre este sistema – o aviamento – no artigo de Fadel David António Filho referido abaixo.
2 “Gaiolas” são pequenas embarcações fluviais usadas na Amazónia.
3 Macedo é o tio da personagem principal.

 
Páginas Paralelas:

“Riqueza e miséria do ciclo da borracha na Amazônia brasileira: um olhar geográfico através de Euclides da Cunha”, artigo de Fadel David António Filho (s.d.), disponível no site da Casa de CulturaEuclides da Cunha 

 


Leia o Prefácio escrito por José Saramago para Terra, álbum fotográfico de Sebastião Salgado, sobre a luta dos sem-terra, disponível na página Web do Movimento dos Trabalhadores Rurais semTerra



“Menina eternizada em foto de Sebastião Salgado ainda é sem-terra”, artigo de Paulo Cezar Farias (24.08.2012), na Folha de S. Paulo

quinta-feira, 7 de março de 2013

Ferreira de Castro
A Selva
[excerto]
[…]
O «varador» era estreita senda que não daria passagem a um automóvel, pequeno que fosse; e cortavam-no, aqui e ali, grossas árvores que tinham caído e apodreciam sem que ninguém as removesse. Dum lado e outro, a selva. Até esse instante Alberto vira apenas as suas linhas marginais; surgia, agora, o coração.
Surgia com um aglomerado exuberante, arbitrário e louco, de troncos e hastes, ramaria pegada e multiforme, por onde serpeava, em curvas imprevistas, em balanços largos, em anéis repetidos e fatais, todo um mundo de lianas e parasitas verdes, que faziam de alguns trechos uma rede intransponível. Não havia caule que subisse limpo de tentáculos a expor a crista ao sol; a luz descia muito dificilmente e vinha, esfarrapando-se entre folhas, galhos e palmas, morrer na densa multidão de arbustos, cujo verde intenso e fresco nunca esmorecia com os ardores do Estio. Primeiro a folhagem seca dos gigantes, que cobria o chão, putrefazendo-se em irmandade com troncos mortos e esfarelados, dos quais já brotavam, vitoriosas para a vida, folhitas petulantes como orelhas de coelho. Alastravam, depois, as largas palmas de tajás e de outra plantaria, de tudo quanto vinha nascendo e ocultava a terra onde as árvores sepultavam as raízes. Crescia a mata até à altura de dois homens, posto um sobre o outro, e só então os olhos podiam encontrar algum espaço em branco, riscado, ainda assim, polos coleios dos cipós que iam de tronco a tronco, dando ponte a capijubas e demais macacaria pequena, que não quisesse saltar. De lá para cima abriam-se as umbelas seculares e constituíam série interminável os seus portentosos cabos. E era aí que a luz dava um ar da sua graça, branqueando e tornando luzidio o pescoço de algumas árvores mais altas e restituindo, pela transparência, às asas de milhares de borboletas, as suas verdadeiras cores de arco-íris fantástico.
De longe a longe, uma palmeira muito esguia e clara subia, em arranco de foguete, para olhar a selva por cima do ondeado em que terminava todo o arvoredo. E eram, então, quatro palmas solitárias lá no alto, como se quisessem fugir dos homens – dos homens que, apesar de tudo, lhes iam roubar o cacho saboroso, de onde extraíam o açaí.
A princípio, ainda os olhos fixavam o revestimento deste e daquele tronco e de outro, e outro, e outro, mas depois abandonavam-se ao conjunto, porque não havia memória nem pupila que pudesse recolher tão grande variedade. Só de frutos que não se comiam e se corrompiam na terra, porque nunca ninguém se arriscara a saber se davam apenas volúpia ou se envenenavam também, havia mais espécies do que todas as que se cultivavam em pomares europeus. Somente a colectividade imperava ali: o indivíduo vegetal despersonalizava-se e era amesquinhado pelos vizinhos, tantos, tantos, que apesar de Firmino ter já nomeado centenas, restavam muitos milhares ainda no anonimato. De quando em quando, golfando por súbita abertura, o sol iluminava um inverosímil claustro.
E por toda a parte o silêncio. Um silêncio sinfónico, feito de milhões de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio suavíssimo da folhagem, tão suave que parecia estar a selva em êxtase.
Às vezes, era certo, uma imprevista e pânica restolhada de folhas e de asas levava Alberto a parar, agarrando-se instintivamente ao braço do companheiro.
– É uma inambu – disse Firmino, sorrindo daquele temor.
Mais adiante, ruidoso lagarto, correndo subitamente sobre a folhagem morta, de novo o galvanizava.
Mas o silêncio volvia. E com ele, uma longa, uma indecifrável expectativa. Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de maravilhosa e incognoscível presa.
[…]
Castro, Ferreira de (2000). A Selva (39ª ed.).
Lisboa: Guimarães Editores. pp. 78-80.


Páginas Paralelas:



A Selva, o filme de Leonel Vieira (2002) – trailer. 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Camilo Castelo Branco
Eusébio Macário
[excerto]

O Bento pedia-lhe que a cantasse na toada do fado do Vimioso; e então, no seu elemento, na glória da sua profissão dilecta, um pouco curvado para o braço da viola, com o cigarro apertado nos dentes queixais, e o lábio arregaçado, mezzo voce, em respeito às mulheres, desfiava o episódio sujo vitoriado no bordel da Pepa, espanhola das Travessas, onde José Macário deixara um nome legendário e um casaco empenhado. O brasileiro gostava muito dele, porque era irmão da Custódia e porque tinha pilhérias, farçolices de estudante biltre e frescuras de língua com frases de Gil Vicente cheias de porcaria vernácula, como nenhum outro idioma da Europa as tem tão ricas de eufonia. Andavam juntos pelas aldeias de Basto, em bons cavalos que o comendador comprara na feira de S. Miguel, na Ponte de Pé. Ele queria comprar o mosteiro de Refojos, construir um palácio, e fazer o jazigo com o seu brasão aberto numa capela de mármore. O Fístula chalaceava-lhe a ideia do jazigo:
– Não pense em jazigos! Coam e beba; a vida é um pagode, uma asneira alegre que se vai numa gargalhada. Quem cá ficar que nos enterre onde quiser. Que diabo!
E o comendador circunspecto, sério:
– É bom ter à gente seus ossos em sépultura décente; é uma mémória que fica para sempre, hem?
O outro, no seu íntimo, achava-o tolo, por causa do jazigo e do brasão, que ele tinha aberto em anel de ouro, em sanguínea, em ágata, em ametista, nos vários sinetes e berloques do relógio. Parecia – observava ele ao pai – que a letra não dizia com a careta; porque o Bento, fidalgo, e a Felícia, fêmea do abade, era um disparate. Eusébio conjurava-o a não dizer palavra ao comendador a respeito do brasão, nem da fêmea do abade; antes, pelo contrário, se mostrasse respeitador da fidalguia, e se lembrasse que a Custódia, se o soubesse levar, ainda viria a ser mulher dele, e talvez baronesa, porque o comendador Bento, segundo dizia o Periódico dos Pobres, estava para sair barão.
– Se eu ainda verei a Custódia baronesa! – exclamava o José; e agarrava Eusébio pela cintura, levantava-o em peso, queria polcar com ele.
E Macário:
– Larga-me, bruto!
Reinava grande alegria na casa do boticário; faziam sessões de cavaco os três, conspiravam; ela relatava o que o comendador lhe dizia, a resposta que dera, a história de um beliscão no braço, umas festas na cara com expressões carinhosas: – Sinhásinha mi ama? Eu lhi amo ela muito. Etc. Depois pedira-lhe um beijo…
– E deste-lho? – irrompeu Eusébio com alvoroço.
– Que não; e fugira quando ele, ao canto da latada da horta, quisera agarrá-la.
E o pai, batendo as palmas:
– Isso! isso! E depois ele… ficou amuado?
– Andou de trombas toda a tarde; não me falava; e vai eu entrombei-me também, e disse à Felícia que ia estar oito dias a Mondim com a tia Luísa; e ele então desanuviou-se, veio onde a mim e pediu-me que não fosse.
– Está lamecha! – definiu sumariamente o Fístula. – Caído! caído! senhor pai, a mana Custódia, mana baronesa, caído! pela beiça!
– Não sejas asno – fez ela lisonjeada. – Baronesa! Pois não foste!
– Dessa massa se fazem – gesticulou Macário com a cabeça em baloiços afirmativos de conformidade com o vaticínio do José.

Branco, Camilo Castelo (1991). Eusébio Macário. Porto: Porto Editora. pp. 58-59.


Páginas Paralelas:

Eusébio Macário na Infopédia

Camilo Castelo Branco na Infopédia

“Camilo e o Fantasma doNaturalismo: “Eusébio Macário” e a “Corja”, de Isabel Pires de Lima (1992). Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras


terça-feira, 5 de março de 2013

Lídia Jorge
O Dia dos Prodígios
[excerto]
Quando Jesuína Palha disse. O que vejo, meu deus? Vem aí um carro. Um carro celestial. Celestial. Olhem todos. Traz os anjos e os arcanjos. Oh gente. E São Vicente por piloto. Disse Jesuína Palha que voltava da ceifa, ainda com o avental e o lenço repletos de praganas. Todos olharam. Na verdade surgia na curva da estrada, pelo lado poente, qualquer coisa de tão extravagante que todos os que conseguiam enxergar a mancha de cores, virando as cabeças julgaram ir cair de borco sobre o chão da rua. Embora a mancha já volumosa, avançasse lentamente. Ocupando no espaço as três dimensões duma coisa visível, sólida e palpável. Mas os homens, pondo a mão, e fazendo muito esforço para verem claro o que avançava com tanta majestade, disseram. Menos rápidos e mais lúcidos. Vamos. Vamos ser visitados por seres saídos do céu, e vindos de outras esferas. Onde os séculos têm outra idade. Afastem-se, vizinhos, que esta visão costuma fulminar. As crianças correram estrada fora, comandadas pela coragem. Sentiam que o mar ia chegar atrás dum barco de velas alvadias e soltas, desfraldadas à levíssima brisa da tarde. E também começaram a esbracejar, esboçando gestos de natação. Mas Macário. Tendo sido o último a enxergar, teve a visão exacta. No momento da surpresa ainda tinha os olhos fechados de repetir pela última vez. À espera de ocasião. À espera de ocasião.
– Isto é um carro de combate. Oh vizinhos.
Na verdade, a pleno meio da estrada avançava um carro singular, porque vinha pejado de soldados garbosos e épicos, penetrando já pelo centro de Vilamaninhos com bandeiras e flores. E cantavam por um altifalante como se viessem munidos de uma poderosa orquestra. Agora já o espectáculo era tão real e tão bonito que todos. Esquecidos desses primeiros segundos de pasmo e confusão. Sentiram estar suspenso o toque, o canto e a audição desde há muito. Para só ouvirem e verem aquilo que chegava em cima dum carro aberto e blindado. Todos tinham a certeza que desde o tempo dos reis nunca mais se vira de igual. Ah maravilha. Então o carro parou em frente do grupo, e fez-se um momento de silêncio tão solene que as pessoas pensaram ir morrer. Mas um soldado. Particularmente bem feito, tendo sem dúvida nascido numa terra muito diferente. Começou a falar de cima do carro, agora parado no largo. Dizia coisas. Que tinha feito uma revolução, e que era preciso animar os espíritos. Porque tudo. Tudo. E abria os braços do salvador. Tudo iria ser modificado. Falava tão bem, que todos se encontravam encantados no timbre daquela voz. E nas maneiras másculas, sendo contudo delicadas, como se não sentisse o soldado o peso do corpo. Na farda, no cabelo levemente encaracolado. E ninguém era capaz de dizer fosse o que fosse, presos todos da surpresa e da maravilha. […]
Jorge, Lídia (1995). O Dia dos Prodígios (7ª ed.).
Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. 179-181.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Auto da Barca do Inferno
[excerto]

[…]

Chega um Onzeneiro, e diz:
Onzeneiro       Oh da barca tão valente!
                        Pera onde caminhais?
Diabo              Oh que ma ora venhais,
                        onzeneiro meu parente!
                        Como tardaste vós tanto?
Onzeneiro       Mais quisera eu lá tardar;
                        na safra do apanhar
                        me deu Saturno quebranto.
Diabo              Ora muito m’eu espanto
                        não vos livrar o dinheiro.
Onzeneiro       Nem tam soes pera o barqueiro,
                        não me deixaram nem tanto.

Diabo              Ora entrai, entrai aqui.
Onzeneiro       Não hei eu i de embarcar.
Diabo              Oh que gentil recear,
                        e que cousas pera mi!
Onzeneiro       Ind’agora faleci,
                        deixai-me buscar batel.
Diabo              Pesar de Jam Pimentel!
                        Porque não irás aqui?

Onzeneiro       E pera onde é a viagem?
Diabo              Pera onde tu hás d’ir,
                        estamos pera partir:
                        não cures de mais linguagem.
Onzeneiro       Mas pera onde é a passagem?
Diabo              Pera a infernal comarca.
Onzeneiro       Dixe, não m’embarco eu nessa barca;
                        est'outra tem a vantagem.

                        (Vai-se à barca do Anjo)

                        Ou da barca, ou lá, ou!
                        haveis logo de partir?
Anjo                E onde queres tu ir?
Onzeneiro       Eu pera o Paraíso vou.
Anjo                Pois cant’e eu bem fora estou
                        de te levar pera lá:
                        ess’outra te levará;
                        vai pera quem t’enganou.

Onzeneiro       Porque?
Anjo                Porqu’esse bolsão
                        tomara todo o navio.
Onzeneiro       Juro a Deus que vai vazio.
Anjo                Não já no teu coração.
Onzeneiro       Lá me ficam de rondão
                        vinte e seis milhões n’ũa arca.
Diabo              Pois que onzena tanto abarca,
                        não lhe deis embarcação.

                        (Torna ao Diabo)

                        Ou lá, ou demo barqueiro,
                        sabeis vós no que me fundo?
                        Quero lá tornar ao mundo,
                        e trazer o meu dinheiro,
                        qu’aquel’outro marinheiro
                        porque me vê vir sem nada,
                        dá-me tanta borregada,
                        como arrais lá do Barreiro.
Diabo              Entra, entra, e remarás;
                        não percamos mais maré.
Onzeneiro       Todavia…
Diabo              Por força é:
                        que te pês, cá entrarás;
                        irás servir Satanás,
                        pois que sempre t’ajudou.
Onzeneiro       Oh triste! quem me cegou!
Diabo              Cal’-te, que cá chorarás.

                        (Entretanto no batel, diz ao Fidalgo)

Onzeneiro       Santa Joana de Valdez!
                        Cá é Vossa Senhoria?
Fidalgo            Dá ó demo a cortesia.
Diabo              Ouvis? falai vós cortês.
                        Vós, fidalgo, cuidareis
                        que estais em vossa pousada?
                        dar-vos-ei tanta pancada
                        c’um remo, que arrenegueis.

[…]


Vicente, Gil (s.d.). Auto da Barca do Inferno.
In Teatro. Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 36-38.

  
Páginas Paralelas:
“Auto da Barca do Inferno” por Cultural Kids, com encenação de António Feio (2010) – vídeo [excerto]
Página Web do Teatro Académico de Gil Vicente, da Universidade de Coimbra