quarta-feira, 6 de março de 2013

Camilo Castelo Branco
Eusébio Macário
[excerto]

O Bento pedia-lhe que a cantasse na toada do fado do Vimioso; e então, no seu elemento, na glória da sua profissão dilecta, um pouco curvado para o braço da viola, com o cigarro apertado nos dentes queixais, e o lábio arregaçado, mezzo voce, em respeito às mulheres, desfiava o episódio sujo vitoriado no bordel da Pepa, espanhola das Travessas, onde José Macário deixara um nome legendário e um casaco empenhado. O brasileiro gostava muito dele, porque era irmão da Custódia e porque tinha pilhérias, farçolices de estudante biltre e frescuras de língua com frases de Gil Vicente cheias de porcaria vernácula, como nenhum outro idioma da Europa as tem tão ricas de eufonia. Andavam juntos pelas aldeias de Basto, em bons cavalos que o comendador comprara na feira de S. Miguel, na Ponte de Pé. Ele queria comprar o mosteiro de Refojos, construir um palácio, e fazer o jazigo com o seu brasão aberto numa capela de mármore. O Fístula chalaceava-lhe a ideia do jazigo:
– Não pense em jazigos! Coam e beba; a vida é um pagode, uma asneira alegre que se vai numa gargalhada. Quem cá ficar que nos enterre onde quiser. Que diabo!
E o comendador circunspecto, sério:
– É bom ter à gente seus ossos em sépultura décente; é uma mémória que fica para sempre, hem?
O outro, no seu íntimo, achava-o tolo, por causa do jazigo e do brasão, que ele tinha aberto em anel de ouro, em sanguínea, em ágata, em ametista, nos vários sinetes e berloques do relógio. Parecia – observava ele ao pai – que a letra não dizia com a careta; porque o Bento, fidalgo, e a Felícia, fêmea do abade, era um disparate. Eusébio conjurava-o a não dizer palavra ao comendador a respeito do brasão, nem da fêmea do abade; antes, pelo contrário, se mostrasse respeitador da fidalguia, e se lembrasse que a Custódia, se o soubesse levar, ainda viria a ser mulher dele, e talvez baronesa, porque o comendador Bento, segundo dizia o Periódico dos Pobres, estava para sair barão.
– Se eu ainda verei a Custódia baronesa! – exclamava o José; e agarrava Eusébio pela cintura, levantava-o em peso, queria polcar com ele.
E Macário:
– Larga-me, bruto!
Reinava grande alegria na casa do boticário; faziam sessões de cavaco os três, conspiravam; ela relatava o que o comendador lhe dizia, a resposta que dera, a história de um beliscão no braço, umas festas na cara com expressões carinhosas: – Sinhásinha mi ama? Eu lhi amo ela muito. Etc. Depois pedira-lhe um beijo…
– E deste-lho? – irrompeu Eusébio com alvoroço.
– Que não; e fugira quando ele, ao canto da latada da horta, quisera agarrá-la.
E o pai, batendo as palmas:
– Isso! isso! E depois ele… ficou amuado?
– Andou de trombas toda a tarde; não me falava; e vai eu entrombei-me também, e disse à Felícia que ia estar oito dias a Mondim com a tia Luísa; e ele então desanuviou-se, veio onde a mim e pediu-me que não fosse.
– Está lamecha! – definiu sumariamente o Fístula. – Caído! caído! senhor pai, a mana Custódia, mana baronesa, caído! pela beiça!
– Não sejas asno – fez ela lisonjeada. – Baronesa! Pois não foste!
– Dessa massa se fazem – gesticulou Macário com a cabeça em baloiços afirmativos de conformidade com o vaticínio do José.

Branco, Camilo Castelo (1991). Eusébio Macário. Porto: Porto Editora. pp. 58-59.


Páginas Paralelas:

Eusébio Macário na Infopédia

Camilo Castelo Branco na Infopédia

“Camilo e o Fantasma doNaturalismo: “Eusébio Macário” e a “Corja”, de Isabel Pires de Lima (1992). Porto: Universidade do Porto, Faculdade de Letras


terça-feira, 5 de março de 2013

Lídia Jorge
O Dia dos Prodígios
[excerto]
Quando Jesuína Palha disse. O que vejo, meu deus? Vem aí um carro. Um carro celestial. Celestial. Olhem todos. Traz os anjos e os arcanjos. Oh gente. E São Vicente por piloto. Disse Jesuína Palha que voltava da ceifa, ainda com o avental e o lenço repletos de praganas. Todos olharam. Na verdade surgia na curva da estrada, pelo lado poente, qualquer coisa de tão extravagante que todos os que conseguiam enxergar a mancha de cores, virando as cabeças julgaram ir cair de borco sobre o chão da rua. Embora a mancha já volumosa, avançasse lentamente. Ocupando no espaço as três dimensões duma coisa visível, sólida e palpável. Mas os homens, pondo a mão, e fazendo muito esforço para verem claro o que avançava com tanta majestade, disseram. Menos rápidos e mais lúcidos. Vamos. Vamos ser visitados por seres saídos do céu, e vindos de outras esferas. Onde os séculos têm outra idade. Afastem-se, vizinhos, que esta visão costuma fulminar. As crianças correram estrada fora, comandadas pela coragem. Sentiam que o mar ia chegar atrás dum barco de velas alvadias e soltas, desfraldadas à levíssima brisa da tarde. E também começaram a esbracejar, esboçando gestos de natação. Mas Macário. Tendo sido o último a enxergar, teve a visão exacta. No momento da surpresa ainda tinha os olhos fechados de repetir pela última vez. À espera de ocasião. À espera de ocasião.
– Isto é um carro de combate. Oh vizinhos.
Na verdade, a pleno meio da estrada avançava um carro singular, porque vinha pejado de soldados garbosos e épicos, penetrando já pelo centro de Vilamaninhos com bandeiras e flores. E cantavam por um altifalante como se viessem munidos de uma poderosa orquestra. Agora já o espectáculo era tão real e tão bonito que todos. Esquecidos desses primeiros segundos de pasmo e confusão. Sentiram estar suspenso o toque, o canto e a audição desde há muito. Para só ouvirem e verem aquilo que chegava em cima dum carro aberto e blindado. Todos tinham a certeza que desde o tempo dos reis nunca mais se vira de igual. Ah maravilha. Então o carro parou em frente do grupo, e fez-se um momento de silêncio tão solene que as pessoas pensaram ir morrer. Mas um soldado. Particularmente bem feito, tendo sem dúvida nascido numa terra muito diferente. Começou a falar de cima do carro, agora parado no largo. Dizia coisas. Que tinha feito uma revolução, e que era preciso animar os espíritos. Porque tudo. Tudo. E abria os braços do salvador. Tudo iria ser modificado. Falava tão bem, que todos se encontravam encantados no timbre daquela voz. E nas maneiras másculas, sendo contudo delicadas, como se não sentisse o soldado o peso do corpo. Na farda, no cabelo levemente encaracolado. E ninguém era capaz de dizer fosse o que fosse, presos todos da surpresa e da maravilha. […]
Jorge, Lídia (1995). O Dia dos Prodígios (7ª ed.).
Lisboa: Publicações Dom Quixote. pp. 179-181.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Auto da Barca do Inferno
[excerto]

[…]

Chega um Onzeneiro, e diz:
Onzeneiro       Oh da barca tão valente!
                        Pera onde caminhais?
Diabo              Oh que ma ora venhais,
                        onzeneiro meu parente!
                        Como tardaste vós tanto?
Onzeneiro       Mais quisera eu lá tardar;
                        na safra do apanhar
                        me deu Saturno quebranto.
Diabo              Ora muito m’eu espanto
                        não vos livrar o dinheiro.
Onzeneiro       Nem tam soes pera o barqueiro,
                        não me deixaram nem tanto.

Diabo              Ora entrai, entrai aqui.
Onzeneiro       Não hei eu i de embarcar.
Diabo              Oh que gentil recear,
                        e que cousas pera mi!
Onzeneiro       Ind’agora faleci,
                        deixai-me buscar batel.
Diabo              Pesar de Jam Pimentel!
                        Porque não irás aqui?

Onzeneiro       E pera onde é a viagem?
Diabo              Pera onde tu hás d’ir,
                        estamos pera partir:
                        não cures de mais linguagem.
Onzeneiro       Mas pera onde é a passagem?
Diabo              Pera a infernal comarca.
Onzeneiro       Dixe, não m’embarco eu nessa barca;
                        est'outra tem a vantagem.

                        (Vai-se à barca do Anjo)

                        Ou da barca, ou lá, ou!
                        haveis logo de partir?
Anjo                E onde queres tu ir?
Onzeneiro       Eu pera o Paraíso vou.
Anjo                Pois cant’e eu bem fora estou
                        de te levar pera lá:
                        ess’outra te levará;
                        vai pera quem t’enganou.

Onzeneiro       Porque?
Anjo                Porqu’esse bolsão
                        tomara todo o navio.
Onzeneiro       Juro a Deus que vai vazio.
Anjo                Não já no teu coração.
Onzeneiro       Lá me ficam de rondão
                        vinte e seis milhões n’ũa arca.
Diabo              Pois que onzena tanto abarca,
                        não lhe deis embarcação.

                        (Torna ao Diabo)

                        Ou lá, ou demo barqueiro,
                        sabeis vós no que me fundo?
                        Quero lá tornar ao mundo,
                        e trazer o meu dinheiro,
                        qu’aquel’outro marinheiro
                        porque me vê vir sem nada,
                        dá-me tanta borregada,
                        como arrais lá do Barreiro.
Diabo              Entra, entra, e remarás;
                        não percamos mais maré.
Onzeneiro       Todavia…
Diabo              Por força é:
                        que te pês, cá entrarás;
                        irás servir Satanás,
                        pois que sempre t’ajudou.
Onzeneiro       Oh triste! quem me cegou!
Diabo              Cal’-te, que cá chorarás.

                        (Entretanto no batel, diz ao Fidalgo)

Onzeneiro       Santa Joana de Valdez!
                        Cá é Vossa Senhoria?
Fidalgo            Dá ó demo a cortesia.
Diabo              Ouvis? falai vós cortês.
                        Vós, fidalgo, cuidareis
                        que estais em vossa pousada?
                        dar-vos-ei tanta pancada
                        c’um remo, que arrenegueis.

[…]


Vicente, Gil (s.d.). Auto da Barca do Inferno.
In Teatro. Lisboa: Círculo de Leitores. pp. 36-38.

  
Páginas Paralelas:
“Auto da Barca do Inferno” por Cultural Kids, com encenação de António Feio (2010) – vídeo [excerto]
Página Web do Teatro Académico de Gil Vicente, da Universidade de Coimbra

sexta-feira, 1 de março de 2013

José Gomes Ferreira

Em março e abril divulgaremos textos de autores portugueses a que temos dedicado menor atenção neste blog.

José Gomes Ferreira
Aventuras de João Sem Medo
O homem sem cabeça
[excerto]

Era uma vez um rapaz chamado João que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos.
     Apesar de ficar a pouca distância da povoação, ninguém se atrevia a devassar a floresta. Não só por se encontrar protegida pela altura descomunal do Muro, mas principalmente porque os choraquelogobebenses – infelizes chorincas que se lastimavam de manhã até à noite – mal tinham força para arrastar o bolor negro das sombras, quanto mais para se aventurarem a combater bichas de sete bocas, gigantes de cinco braços ou dragões de duas goelas. Preferiam choramingar, os maricas!, agachados em casebres sombrios, enquanto lá por fora chovia com persistência implacável (como se as nuvens estivessem forradas de olhos) e dos milhares e milhares de chorões – as árvores predilectas dessa gente – pingavam folhas tristes. Tudo isto incitava os habitantes da aldeia a andarem de monco caído, sempre constipados por causa da humidade, e a ouvirem com delícia canções de cemitério ganidas por cantores trajados de luto, ao som de instrumentos plangentes e monótonos.
     O único que, talvez por capricho de contradizer o ambiente e instinto de refilar, resistia a esta choradeira pegada, era o nosso João que, em virtude duma contínua ostentação de bravata alegre e teimosia na luta, todos conheciam por João Sem Medo.
     Ora um dia, farto de tanta choraminguice e de tanta miséria que gelava as casas e cobria os homens de verdete, disse à mãe que, conforme a tradição local, lacrimejava no seu canto de viúva:
     – Mãe: não aturo mais isto. Vou saltar o Muro.
     A pobre desatou logo aos berros de súplica que abalaram o Céu e a Terra:
     – Ah! não vás, não vás, meu filho! Pois não sabes que essa Floresta Maldita está povoada de Canibais Mágicos que se alimentam de sangue de homens? Sim, meu filho, de sangue humano bebido por caveiras. Não vás! Não vás!
     E durante horas não cessou de barregar, histérica:
     – Ai que não torno a ver o meu rico filhinho!
     Mas as implorações da mãe não impediram que, na manhã seguinte, João Sem Medo se esgueirasse de Chora-Que-Logo-Bebes e se dirigisse à socapa para o tal Muro que cercava a floresta e onde alguém escrevera este aviso:
É PROIBIDA A ENTRADA
A QUEM NÃO ANDAR
ESPANTADO DE EXISTIR


Ferreira, José Gomes (1978). Aventuras de João Sem Medo:
Panfleto Mágico em Forma de Romance (9ª ed.). Lisboa: Moraes 
Editores. pp. 9-10. (Publicado pela primeira vez em 1963).*

* Nota: Foi escrito em 26 folhetins, para a gazeta juvenil O Senhor Doutor, em 1933, assinados sob o pseudónimo de Avô do Cachimbo.



Páginas Paralelas:
Todo o primeiro capítulo, “O homem sem cabeça”, disponível aqui

Animação do Capítulo VII. “A Cidade da Confusão”, de Margarida Fernandes e Tiago Kawata (2011). Lisboa: UFSC-IADE

Documentário “José Gomes Ferreira – Um Homem do Tamanho do Século” (2000), produzido pela Videoteca Municipal de Lisboa no centenário do nascimento do autor, com o apoio da RTP e o patrocínio do Instituto Camões – entrevista (Arquivo RTP); leitura de textos pelo actor João Mota (Comuna – Teatro de Pesquisa); “Valsa das Folhas Secas Caindo”, composta por J. G. Ferreira e interpretada por Gabriela Canavilhas