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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Fred T. Wilhelms, "A mais nobre necessidade"
No mínimo, uma vez por dia, o nosso velho gato preto
vem junto de nós, de uma forma que todos passamos a ver isso como um pedido
especial. Não quer ser alimentado, ou que o deixem sair ou algo do género. A
sua necessidade é de algo bem diferente.
Se tem um colo acessível, ele saltará para ele; se
não, é provável que permaneça ali, de pé, olhando-o suplicante, até que você
liberte o colo para ele. Uma vez ali, ele começa a vibrar, quase antes de lhe
afagar o dorso, coçar o queixo e repetir várias vezes que ele é um bom gatinho.
Então, o seu motor entra em rotação de verdade;
contorce-se para ficar confortável; esparrama-se. De vez em quando, um dos seus
ronrons foge-lhe ao controlo e transforma-se num ronco. Ele olha-nos com olhos
bem abertos de adoração e lança aquela longa e demorada piscadela de confiança
definitiva, própria dos gatos.
Ao fim de algum tempo, aos poucos, aquieta-se. Se
achar que pode, talvez fique no colo para uma soneca aconchegante. Mas é
igualmente provável que salte para o chão e vá perambular por aí e cuidar dos
seus afazeres. Em qualquer das hipóteses, está a sentir-se bem.
A nossa filha resume tudo isso numa frase simples:
«O Blackie precisa de ser afagado.»
No nosso lar ele não é o único que tem essa
necessidade: eu partilho dela e a minha mulher também. Sabemos que essa
necessidade não é exclusiva de nenhuma faixa etária. Ainda assim, uma vez que
sou professor e pai, associo-a especialmente aos jovens, com sua rápida e impulsiva
necessidade de um abraço, de um colo quente, uma mão segura, uma coberta bem
aconchegada, não porque algo esteja errado, não porque algo precise ser feito,
apenas porque este é o seu jeito de ser.
Há uma porção de coisas que eu gostaria de fazer por
todas as crianças. Se eu pudesse realizar apenas uma, seria esta: garantir a
cada criança em todos os lugares, pelo menos um bom afago todos os dias.
As crianças, como os gatos, precisam de tempo para
serem afagadas.
Fred T. Wilhelms
Canfield,
Jack, & Hansen, Mark V. (2002). Canja de Galinha para a Alma
(3ª ed.). Mem Martins: Lyon Edições. pp. 59-60.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
Alexandre O'Neill, "Um Adeus Português"
Nos
teus olhos altamente perigosos
vigora
ainda o mais rigoroso amor
a
luz de ombros puros e a sombra
de
uma angústia já purificada
Não
tu não podias ficar presa comigo
à
roda em que apodreço
apodrecemos
a
esta pata ensanguentada que vacila
quase
medita
e
avança mugindo pelo túnel
de
uma velha dor
Não
podias ficar nesta cadeira
onde
passo o dia burocrático
o
dia-a-dia da miséria
que
sobe aos olhos vem às mãos
aos
sorrisos
ao
amor mal soletrado
à
estupidez ao desespero sem boca
ao
medo perfilado
à
alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do
modo funcionário de viver
Não
podias ficar nesta casa comigo
em
trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até
ao dia que não vem da promessa
puríssima
da madrugada
mas
da miséria de uma noite gerada
por
um dia igual
Não
podias ficar presa comigo
à
pequena dor que cada um de nós
traz
docemente pela mão
a
esta pequena dor à portuguesa
tão
mansa quase vegetal
Não
tu não mereces esta cidade não mereces
esta
roda de náusea em que giramos
até
à idiotia
esta
pequena morte
e
o seu minucioso e porco ritual
esta
nossa razão absurda de ser
Não
tu és da cidade aventureira
da
cidade onde o amor encontra as suas ruas
e
o cemitério ardente
da
sua morte
tu
és da cidade onde vives por um fio
de
puro acaso
onde
morres ou vives não de asfixia
mas
às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem
a moeda falsa do bem e do mal
Nesta
curva tão terna e lancinante
que
vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te
adeus
e
como um adolescente
tropeço
de ternura
por
ti.
Alexandre
O’Neill (2000). Um Adeus Português.
In:
Poesias Completas. Lisboa: Assírio
& Alvim, pp. 52-53.
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